André  Veríssimo
André Veríssimo 17 de junho de 2018 às 23:00

Uma má imagem de Portugal

O aeroporto de Lisboa atingiu uma saturação insustentável. Ficar sentado à espera do Montijo e de 2022, como propõe o Governo, não é opção.

O país está a perder uma oportunidade e a dar uma péssima imagem de si próprio.

 

A oportunidade perde-se nos cerca de dois milhões de passageiros que deixam de vir por ano e no dinheiro que estes não deixarão na economia portuguesa.

 

A má imagem vem das condições com que recebemos os que cá chegam. A consultora Skytrax, que atribui classificações a companhias aéreas e aeroportos com base na opinião dos passageiros, dá ao aeroporto Humberto Delgado a pouco dignificante nota de 3 valores em 10. Uma volta pelas críticas evidencia os pontos negros: atrasos nos voos, filas para tudo, lixo por limpar, casas de banho pouco asseadas, falta de sítios para sentar, a lista é longa e não surpreenderá quem use habitualmente a infraestrutura.

 

O factor que não desculpando nada explica quase tudo é a sobrelotação. Pelo Humberto Delgado passaram perto de 27 milhões de passageiros em 2017, mais quatro milhões que no ano anterior. Este ano continua a bater recordes: crescimento de 16% nos primeiros três meses do ano para mais de seis milhões de passageiros. 

 

Em três anos a procura saltou quase para o dobro, sem que a capacidade do aeroporto acompanhasse. Os problemas são conhecidos: desde passar pelo controlo de passaportes até apanhar um táxi, passando pelo tempo perdido à espera que o avião possa levantar, tudo passou a ser uma experiência exasperante. Até o simples acto de largar um passageiro nas partidas é agora uma tremenda chatice, depois da instalação do sistema de "portagens".

 

Há ainda a insanável contradição de esta degradação do serviço ter sido acompanhada pelo aumento muito expressivo das taxas cobradas às companhias áreas e aos passageiros. No caso destes últimos, há casos em que quase duplicaram em quatro anos, como noticiava este fim-de-semana o Expresso.

 

Mais taxas, mais lucros — desde que a Vinci ficou com a concessão da ANA cresceram quase 13 vezes para perto de 250 milhões. Nada contra, pelo contrário. Convém é que eles sejam obtidos num modelo de sustentabilidade e respeito pelos clientes das infraestruturas. Convém ainda que ajudem a financiar novos investimentos, que têm existido, mas não ao ritmo suficiente.

 

Face a este retrato, o processo do novo aeroporto deveria estar a avançar com extrema urgência. 

Em vez disso, o que se nota é uma extrema complacência. Se já hoje a infraestrutura faz falta, imagine-se em 2022. Se essa é uma data irredutível, a ANA e o Governo devem explicar como tencionam, até lá, responder ao aumento de procura e à melhoria do serviço ao cliente.


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