Celso  Filipe
Celso Filipe 18 de fevereiro de 2018 às 23:00

Não é preciso estar a inventar

Um líder que tem de exibir um vídeo com a sua biografia política antes do discurso final diz tudo sobre a montanha íngrime que Rui Rio tem de subir.

"Não é preciso estar a inventar diferenças". A frase proferida por Rui Rio, no discurso de encerramento do Congresso do PSD, sintetiza boa parte da estratégia do novo líder do social-democrata. Rui Rio não vai "inventar" polémicas, mas antes sim tentar reconquistar o eleitorado ao centro que se zangou do partido por força da aplicação do plano de austeridade e do consequente empobrecimento dos portugueses.

Daí que Rui Rio tenha apontado, com naturalidade, o seu público-alvo: "a classe média será o foco da nossa acção". E mais adiante tenha identificado a saúde, a educação e a segurança social como áreas prioritárias de intervenção e para as quais deseja "entendimentos alargados".

Com Passos Coelho, por força da receita imposta pela troika e também por causa da matriz liberal dominante, o PSD deslizou para a direita. Agora, Rui Rio pretende recuperar o centrão que geralmente decide as eleições legislativas. É neste plano que Rui Rio terá o seu teste de fogo. Primeiro, recentrando o partido, deixa margem de manobra para a afirmação do CDS/PP. Em segundo, vai disputar um espaço onde o PS está confortável e conquistou simpatias por força da devolução de rendimentos e das perspectivas de crescimento animadoras.


Por muito que Rui Rio e o PSD sustentem que o crescimento da economia podia ser maior ou que este Governo "navega ao sabor da conjuntura e não cuida de preparar o futuro como ele tem de ser preparado", o eleitorado decide em função do presente e de um futuro de muito curto prazo, pelo que à data o PS parece ter o caminho relativamente facilitado para vencer as legislativas de 2019.

Não é preciso inventar nada. As prioridades para Rui Rio são bem claras. Tem de se afirmar como líder do partido; manter as hostes unidas e fazê-las sonhar com o regresso ao poder; necessita de se assumir como líder da oposição (um papel até agora desempenhado por Assunção Cristas); precisa de ensaiar uma aproximação ao PS num dossiê específico para destabilizar a geringonça; e finalmente precisa de convencer o Presidente da República de que é uma alternativa válida a António Costa. E tem pouco mais de um ano para fazer tudo isto.

Em política, como no futebol, o sucesso mede-se pelos resultados. Na hora do fracasso a culpa é sempre do líder do partido. Um líder que tem de exibir um vídeo com a sua biografia política antes do discurso final diz tudo sobre a montanha íngrime que Rui Rio tem de subir.

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