Nick Cave: A dor profunda do anjo negro

Em "Skeleton Tree" Nick Cave não se esconde da tragédia, enfrenta-a de peito aberto. Talvez a sua voz soe aqui mais frágil do que nunca. A mágoa é sobretudo alegórica e muito centrada na perda de um ente querido. No fundo, é um disco rugoso, onde as feridas estão abertas.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 16 de setembro de 2016 às 14:00

Nick Cave sempre foi um anjo negro que viajava pelo lado aparentemente mais luminoso da vida. Aquele que nos oferece o brilho da música. Mas as suas flechas sonoras nunca tentaram acertar no coração dos homens e mulheres deste mundo. Preferiram sempre outros orgãos, aqueles que poderíamos encontrar no "Inferno" de Dante, nas poesias sombrias de autores díspares, na escrita de Vladimir Nabokov, no cinema de Alfred Hitchcock ou na música de Lou Reed, David Bowie ou Iggy Pop.
Depressivo mas expansivo em palco, Cave era tímido, como chegou a reconhecer uma das escritoras e artistas punk mais destemidas do seu tempo, Lydia Lunch. Não admirava.

Por esse tempo, início da década de 1980, o australiano Nick Cave era dependente da heroína, pelo que não admirava o mundo de fantasmas em que habitava e que se vislumbrava na música dos Bithday Party. Cave vivia no lado subterrâneo da década, em que o louvor do dinheiro e o ideal yuppie ocupavam a superfície brilhante da sociedade. Não existiam aqui fogueiras de vaidades: só um fogo que queimava até o interior das almas. Mas havia outra razão: o pai de Cave, professor, acreditava que a cultura era a solução milagrosa para os males da sociedade. Para ele a beleza salvaria o mundo.
Nick, confrontado com a sua morte quando tinha 19 anos, foi descobrindo algo diferente: procurou a beleza mas encontrou-a no meio da corrupção e da destruição. Como num mundo florentino dos Medici. A sua música e o que escrevia passou a reflectir isso. Desvendou também o universo da música popular urbana e a criação dos mitos modernos, de que viria depois a ser parte. Como um dia recordou : "Há alturas em que a verdade é necessária e outras em que os mitos são necessários. Quando falamos do rock’n’roll, é do mito que se fala. Quem quer saber a verdade sobre Jimi Hendrix ? Queremos conhecer o mito. Queremos saber que ele apanhou um avião para Inglaterra com a sua guitarra eléctrica, o creme para o acne e um enrolador de cabelo cor-de-rosa – foi tudo o que trouxe". Mas o mundo de Nick Cave sempre se revelou mais labiríntico. Porque a sua música, bela mas claustrofóbica e sombria, deixava sempre pegadas que conduziam a purgatórios reais e imaginados. Ou seja : o mito vivia no meio de um nevoeiro e de um ambiente afectado por relâmpagos no meio da trovoada. Conta-se que, quando era jovem, Nick passava tanto tempo drogado que, de manhã, assistia à missa para compensar alguns dos seus pecados. Essa religiosidade está também presente nas suas músicas.
Os Birthday Party foram um dos mais violentos e radicais grupos da década de 80, com as suas provocações constantes aos espectadores. O excesso criou o mito. Nick tornou-se com o tempo num artista total, com um pé na música, outro no cinema, uma mão na poesia e outra nos cenários de terror. A sua aparência, sempre fria e distante, fez o resto. No fundo é um ser humano, como muitos outros. Só que mostra o seu lado negro sem máscaras. O seu lado negro passeou-se sempre em palco, fervendo nas chamas das letras das suas canções. Encenou cenários de apocalipse ao longo de discos sem fim e de concertos inesquecíveis. Basta escutar o seminal "Murder Ballads" para entender todo o seu universo, mesmo depois aconchegado pelos Bad Seeds.
O seu novo disco, "Skeleton Tree", surge na sequência do filme "One More Time With Feeling", dirigido por Andrew Dominik, de quem é uma espécie de irmão. No centro de ambos está a morte trágica de um dos filhos de Nick. E isso, de alguma maneira, faz-nos recordar um disco fundamental de Lou Reed, um dos heróis de Cave, "Magic and Loss", sobre a morte e a perda de dois amigos próximos - Doc Pomus e Rotten Rita. A mágoa enorme de Nick é aqui servida de diferentes formas, mas é sobretudo alegórica e muito centrada na perda de um ente querido. Há uma atmosfera que vai povoando as canções do disco, envolvendo-nos num ambiente quase sombrio.
As divagações sobre a solidão estão sempre presentes, mas parecem-nos normais, porque este não é propriamente um território virgem para o músico. Deus é invocado (em "Jesus Alone", desde logo), mas Cave não olha para o céu em busca de uma qualquer redenção. Cave fala de uma queda do céu, e invoca a morte de Arthur, o filho, junto de um rio. "I Need You" traz-nos o seu trágico desinteresse: "Nothing really matters", canta. Mais bela, mas igualmente sombria, é "Girl in Amber", pautada pelo som do piano.

Cave não se esconde da tragédia, enfrenta-a de peito aberto. Talvez a sua voz soe aqui mais frágil do que nunca. "Magneto" é talvez o epicentro do disco, com todo o imaginário que Cave vai desfilando. Nele o romantismo desaparece, corroído pela realidade, tal como no devastado "Rings of Saturn". E há, claro, "Distant Sky", onde a voz resignada de Cave, rejeitando o conforto divinos pelos mortos, se alia à voz angélica da soprano dinamarquesa Else Torp. No fundo "Skeleton Tree" é um disco rugoso, onde as feridas de Cave estão abertas, sem indícios de cicatrização. Este é um disco sombrio e deliciosamente belo. 

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