Edward Snowden: Herói ou traidor?

O ex-analista de sistemas que estava como consultor a trabalhar na agência de segurança norte-americana revelou ao mundo que a NSA recolhe e guarda dados privados de cidadãos americanos e não só. Um novo capítulo desta história que começou em 2013.

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Alexandra Machado 09 de setembro de 2016 às 14:00

Esta é a história de um cidadão americano que quis ser militar, mas que um acidente lhe trocou as voltas da vida. Queria combater no Iraque. Acabou fugido do país, sitiado em Moscovo, na Rússia, sem poder voltar aos Estados Unidos. Edward Snowden ficará para sempre para a História. E, agora também, na do cinema. Oliver Stone acabou por aceitar fazer o filme sobre o homem que trabalhou na agência de informação norte-americana, mas que foi enquanto funcionário da agência de segurança nacional (NSA) que se tornou, para uns, herói e, para outros, traidor à pátria. "Quem eu sou pouco importa", declarou, em 2014, numa conferência em que participou à distância, aparecendo no palco um robô com a sua cara, que ele comandava do seu portátil.
Snowden denunciou as actividades da NSA que "espiava" quem quer que fosse, e o que quer que fosse. Segundo a sua denúncia, a NSA tinha instalados vários programas que captavam e-mails, telefonemas, vídeos, fotografias... tudo o que fosse colocado num telemóvel ou num computador. Bastando somente ter uma câmara incorporada. Por isso, no filme retrata-se um Snowden preocupado em tapar com fita-cola a câmara do computador, ou colocar os telemóveis num microondas - "salvando-os" de qualquer intromissão indesejada. Um Snowden, também, que não larga o cubo mágico, que, aliás, lhe terá permitido retirar da NSA gigantes quantidades de dados, escondendo dentro do cubo um cartão com informação. Na sofisticada segurança do "bunker" da NSA no Hawai, Snowden, que lá trabalhava como consultor pela firma Booz Allen Hamilton (que tem a Administração norte-americana como principal cliente e, por isso, tentou distanciar-se da denúncia), terá retirado 1,7 milhões de documentos, que depois entregou a um jornalista do The Guardian, em Hong Kong, onde se refugiou inicialmente depois da fuga de informação.
A história de Snowden, desde que tentou entrar nas forças especiais dos Estados Unidos, até ao asilo concedido pela Rússia, chega ao cinema pelo conceituado realizador Oliver Stone que, segundo contou à Vanity Fair, teve de ultrapassar vários obstáculos para o fazer. A começar por algo que pareceria simples: conhecer Snowden, que pretendia que entrasse no filme. Teve de conhecer o advogado na Rússia do ex-empregado da NSA, Anatoly Kucherena, que também escreveu um livro baseado na vida do cliente: "Time of the Octopus", que serve, aliás, para o argumento do filme. Segundo a revista, Stone comprou os direitos do livro por um milhão de dólares, com a contrapartida de ter acesso regular ao próprio denunciador, Snowden. E assim foi. Aparece no filme, só mesmo no final e a propósito da tal conferência que deu, via internet, depois de já estar a residir na Rússia e onde afirmou o propósito da sua acção: "O que aqui importa é que tipo de governo queremos, que tipo de internet pretendemos, o tipo de relação entre as pessoas e a sociedade (...). Se tivesse de me descrever não diria herói, nem patriota, nem traidor, sou um americano e um cidadão como qualquer outro."
Mas não é. E o filme também tenta mostrar isso. Edward Snowden é retratado como alguém - que não comete excessos na sua vida - que começa a ficar revoltado quando descobre o tipo de informação a que os serviços secretos dos Estados Unidos têm acesso. Em particular, segundo o filme, quando ele próprio pesquisa informação sobre a namorada, e não gosta do que vê, ou quando um seu superior lhe garante que a namorada não tem um caso com outra pessoa, o que pretende mostrar o nível de invasão à privacidade, e que é a gota de água para concretizar o que já tinha em mente: denunciar os excessos. Em 2015, o denunciador explicou a John Oliver (o rosto do programa Last Week Tonight) porque o fez: "A NSA tem grandes capacidades de vigilância, como nunca vimos. Eles argumentam que não as utilizam para propósitos menos correctos em relação aos cidadãos norte-americanos. De certo modo é verdade. Mas o verdadeiro problema é que utilizam essas capacidades para nos tornarem vulneráveis face a eles. E dizem: 'Tenho uma arma apontada à tua cabeça, mas não vou premir o gatilho. Confiem'."
Quem premiu o gatilho foi mesmo Snowden. A 6 de Junho de 2013, a bala saia no site do The Guardian: "NSA collecting phone records of millions of Verizon customers daily" (NSA recolhe diariamente registos telefónicos de milhões de clientes da Verizon), explicando que uma ordem do tribunal obrigava a operadora a enviar os dados à NSA. Entre desmentidos e aplausos, numa primeira reacção, o Presidente Barack Obama - cuja Administração estava a ser visada - defendeu, inicialmente, a NSA, mas à medida que o caso ia sendo revelado acabou por admitir haver necessidade de mudanças. Depois da recolha junto da Verizon, noticiou-se a recolha também de dados do Facebook, Google, Apple, Yahoo, através de um programa da NSA que já se tornou famoso: o Prism. Às notícias, as empresas reagiram com negação: os dados não eram cedidos por elas, pelo que se a NSA os tinha, estava a recolhê-los à margem da lei. À acusação de vigilância interna, a NSA respondia com objectivos de segunda externa. E soube-se que até os telefonemas de Angela Merkel foram ouvidos. Há informações colocadas nas mãos dos jornais The Guardian e The New York Times que podem ter efeitos negativos. Snowden admitiu a John Oliver que isso era possível, mas por isso mesmo os entregou a jornalistas respeitados, que têm noção do que pode ser revelado. "Nunca se está livre do risco se for livre. A única possibilidade de estar livre do risco é quando se está na prisão."
"O meu nome é Ed Snowden. Tenho 29 anos. Trabalho para a Booz Allen Hamilton como analista de infra-estruturas para a NSA no Hawai." Foi assim, num quarto de hotel em Hong Kong, que o denunciador se revelou ao mundo a 9 de Junho de 2013. Fê-lo a Laura Poitras e Glenn Greenwald, do The Guardian, a quem Snowden deu os dados que tinha em sua posse. No filme, vê-se Snowden a destruir os seus próprios arquivos.
"Uma dramatização dos acontecimentos" é como se apresenta a obra de Oliver Stone. Ben Wizner, outro dos advogados de Edward Snowden, garantiu ao site noticioso Gizmodo que "é uma história verdadeira". O homem, que chegou a ser apelidado de "hacker" por Obama, tem permissão para continuar na Rússia até 2017. O filme mostra que foi por acaso que ficou nesse país, já que o passaporte foi revogado quando aí estava a fazer escala. Snowden admite que gostaria de voltar aos Estados Unidos, mas diz que a acusação de espionagem limita-lhe o futuro e que o impede de ter um julgamento justo. Assim, vai conseguindo ser julgado pela opinião pública. Como William Turton escreveu no Gizmodo: "O filme é a melhor acção de relações públicas que ele terá." 


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