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João Luís Barreto Guimarães: “Há uma diferença humanitária entre parar e reparar”

O médico e poeta João Luís Barreto Guimarães vai dar aulas de poesia aos alunos de Medicina da Universidade do Porto. Levará as palavras aos futuros médicos, para que os futuros médicos levem as palavras aos doentes. É preciso humanizar os cuidados de saúde, tão postos à prova durante a pandemia, diz o cirurgião e escritor, autor de obras como “Movimento”, “Nómada” e “Mediterrâneo”, vencedor do Willow Run Poetry Book Award.

João Luís Barreto Guimarães é médico e poeta. As manhãs são reservadas aos doentes, as tardes são dos livros e as noites da família. Estes mundos não são estanques, a medicina invade a poesia e a poesia invade a medicina. Os poemas entram nos hospitais e os hospitais entram nos poemas. É muito isso que vai fazer na cadeira de Introdução à Poesia no curso de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto. Vai levar as palavras aos futuros médicos, para que os futuros médicos levem as palavras aos doentes. É preciso humanizar os cuidados de saúde, tão postos à prova durante a pandemia, diz. É cirurgião plástico reconstrutivo no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho e autor de livros como "Movimento", "Nómada" e "Mediterrâneo" - vencedor do Willow Run Poetry Book Award, atribuído pela editora americana Hidden River Press, e Prémio de Poesia António Ramos Rosa.


Vivemos tempos de números e de estatísticas. As palavras estão esquecidas?

Fez-me muita impressão a forma como se reportou diariamente a pandemia. O número de mortos, com o decorrer dos dias e das semanas e dos meses, tornou-se algo demasiado abstrato. Nós que estamos nos hospitais e nos habituamos a internamentos prolongados, acabamos por conhecer os doentes pelo nome próprio e faz-nos impressão como o discurso político e jornalístico reúne esses nomes num algarismo, num número que varia, que sobe e desce. O público adere forçosamente a esse discurso e diz: hoje foram 10, hoje foram só 8, hoje já foram 20, hoje foram 100. Uma das formas de dar corpo a esses números é dizer por exemplo que correspondem a uma geração e que essa é a geração dos avós. E é exatamente isso que a poesia faz — um dos truques para mostrar o que está a acontecer num poema, quando se lê um poema, é iluminar as palavras e mostrar o seu significado oculto, indicando os sucessivos estratos de significado que esse poema tem.

 

No fundo, é mostrar a vida.

É uma maneira diferente, atenta, de ler essa vida. É um bocadinho a diferença entre parar e reparar, e falta um pouco reparar. Quando se fala nos números abstratos da pandemia, desde que não sejam "os nossos", a razão cria um distanciamento relativamente aos outros. É como assistir ao telejornal e ver uma guerra num sítio distante — é longe, não é aqui. Há um poema muito bonito do W. H. Auden, "Museu das Belas Artes", que fala da subida de Ícaro, com as suas asas de cera, até ao Sol; o Sol faz derreter as asas e Ícaro cai na água, ao lado de um barco de cruzeiro, onde os ocupantes vão rumo ao lazer e ouvem vagamente um "splash", mas não prestam demasiada atenção, pois já têm o seu destino traçado. Este poema descreve um quadro de Pieter Bruegel ("A Queda de Ícaro") e mostra a diferença humanitária entre parar e reparar, reparar é parar repetidamente. Se pararmos e voltarmos a parar, estamos a reparar — e este segundo olhar é normalmente um olhar mais completo.

 

Para haver humanismo e humanidade é necessário tempo.

É demorar-se no outro.

É demorar o olhar quando se pára. Por exemplo, quem não tem treino a ler poesia beneficia mais de uma segunda leitura. A primeira leitura é para criar espanto, a segunda é para perceber o que está a acontecer. O primeiro olhar espanta-se, o segundo já questiona. Quando se repara, repara-se em Ícaro a cair à água. A primeira abordagem a um doente é rápida, com pressa, há dezenas de doentes para ver. Um segundo momento só se faz com tempo, ou seja, para haver humanismo e humanidade, é necessário tempo. Uma das grandes razões pelas quais a medicina não é empática tem precisamente que ver com o tempo contado: 5 minutos para isto, 10 para aquilo. Se o médico, enfermeiro ou técnico não estiver treinado, não tem a mais pequena possibilidade de dedicar a cada questão o tempo que cada questão merece.

 

A introdução da cadeira de poesia no curso de Medicina surge por causa desta necessidade de humanizar os cuidados médicos?

A poesia tenta mostrar o que está do lado de lá, pois há um equilíbrio fino entre ser eficiente e ser empático. Os alunos de Medicina estudam tabelas de sinais e de sintomas que dão origem a diagnósticos, que depois dão origem a exames e tratamentos, que por sua vez desencadeiam prognósticos e certos "outcomes" — que podem ser a vida ou a morte. Há uma pressão da sociedade para esta "linha de montagem" não falhar. É necessário efetivamente que as coisas sejam objetivas: uma tumefação tem determinadas características, pode aumentar ou diminuir, pode doer, não doer ou sangrar. Da objetividade nasce a luz do diagnóstico, só que essa tumefação e essa dor existem num determinado doente, que tem toda a sua vida e toda a sua ansiedade... Há um vasto conjunto de poemas que nos dão uma perspetiva de poetas que são médicos ou que foram doentes, ou de poetas que, sendo médicos ou doentes, tiveram familiares doentes, e falam desse lado humano de quem tem a dor. É interessante levar esta linguagem aos alunos, para não se esquecerem de reparar e parar perante os doentes e familiares no dia em que lhes aparecer a tumefação ou a dor pela frente.

 

Os médicos e os enfermeiros contam só consigo, não contam com mais ninguém. Estão habituados a este tipo de sacerdócio, não se iludem. 

A voragem da pandemia pode deixar sequelas entre os profissionais de saúde?

As pessoas perderam pessoas e põem-se a indagar se as teriam perdido caso as soluções tivessem existido na altura própria. Quem nos dirige tomou a decisão de deixar as torneiras abertas até muito tarde, de deixar a barragem encher, e a certa altura, perante a aflição, mandou "parar" todas as outras patologias e dedicar 100% do tempo a esta. A contabilidade final será o número oficial de mortos que aparece no telejornal, mais os das outras patologias, e esta situação foi também geradora de ansiedade. O pessoal da Saúde tentou fazer o melhor, mas tudo isto teve implicações nas suas vidas e é algo que terá de ser sujeito a um determinado reequilíbrio. Uma vez mais, os médicos e os enfermeiros contam só consigo, não contam com mais ninguém. Têm a exata noção de que as manifestações de afeto são muitas vezes manobras propagandísticas que surgem num intervalo reduzido de tempo, e visam um paliativo que não é consistente; têm a noção concreta de que no momento imediatamente a seguir chega a crítica e não o louvor por aquilo que passaram. Os médicos, os enfermeiros, os auxiliares e os técnicos estão habituados a este tipo de sacerdócio, não se iludem.

 

Sente a medicina como um sacerdócio?

Quem tira um curso de Medicina tem à partida de prescindir de parte significativa da juventude, e isso é tempo e é felicidade. Há quase uma devoção espiritual, de entrega e de fazer o bem. Honestamente, no meu caso, foi uma mistura disso e de uma certa vocação familiar – pai, padrinho, tio e irmãos médicos –, ou seja, fui também influenciado por aquilo que via acontecer à minha volta e pelas conversas que ia tendo. Depois fui procurando nas artes uma forma de exprimir outros aspetos da minha personalidade, e foi por aí que surgiu a poesia.

 

Curiosamente, surgiu com António Gedeão, pseudónimo do cientista Rómulo de Carvalho.

António Gedeão não foi de todo o poeta que mais me influenciou, foi apenas aquele com o qual tive um primeiro contacto. O que me encantava era sobretudo a parte melódica, percebi que a poesia também era tensão, também era canção, sem que fossem necessários os instrumentos. A leitura do poema proporciona a música, o som e o ritmo, para um tocador só.

 

Como na "Pedra Filosofal", musicado por Manuel Freire, hino contra a ditadura. Teve desde cedo a noção do poder das palavras?

Eu achava graça às palavras, brincava com as palavras e construía frases com as palavras, mas só me apercebi verdadeiramente do seu poder quando comecei a estudar obras literárias, até lá, usava as palavras sem qualquer intuito literário. Ainda hoje faço questão de utilizar as palavras do quotidiano, não obrigo o leitor a fazer o sentido contrário. Era Marianne Moore que dizia que um poema deve ser escrito com uma linguagem que cães e gatos possam entender... Mas foi no liceu que me apercebi da poesia de Cesário Verde e de Bernardo Soares e que me deixei seduzir verdadeiramente pela temática do concreto e dos objetos.


 

Leva os poemas para a sala de operações e a sala de operações para os poemas?

Sinto-me identificado com a poesia coloquial e sinto também uma dificuldade quotidiana em fazer a transição entre uma linguagem científica e uma linguagem literária, que normalmente corresponde à transição do período da manhã para o da tarde, e dessa dificuldade acabou por resultar uma aproximação entre os discursos em ambas as alturas do dia, ou seja, na parte da manhã, quando estou a fazer consulta ou a operar, acontece-me ser metafórico com os colegas ou com os doentes, e na parte da tarde, nas horas em que estou sentado num café com um livro, com um caderno e uma caneta, acontece-me puxar os temas parnasianos até rente ao chão, deixo que haja uma certa contaminação entre os discursos.

 

Sente a importância das palavras no contacto com os doentes? Walt Whitman, durante a Guerra Civil Americana, lia poemas aos soldados que iam morrer…

Walt Whitman foi voluntário durante a guerra, intitulava-se quase enfermeiro. Após o momento clínico da visita, conversava com os soldados, lia-lhes poemas e escrevia cartas aos familiares. Tinha este lado humano, um lado que é normalmente assegurado pelos enfermeiros, pois são eles que trabalham nas enfermarias, são eles que estão nos turnos da noite e que, de alguma forma, supervisionam os auxiliares nas refeições e na higiene dos doentes. Lá está, é preciso tempo, tempo para estar. Neste aspeto, também os internos complementares que fazem formação nas enfermarias produzem um trabalho extraordinário, são mesmo uma pedra basilar dos hospitais.

 

Costuma citar a poeta polaca Wislawa Szymborska ao dizer que a poesia não anula o sofrimento, mas pode acompanhar esse sofrimento.

A frase exata é: "A poesia pode acompanhar o sofrimento humano, mas não preveni-lo." De cada vez que um poema é lançado por um poeta, o autor não sabe o tipo de resposta que cada leitor vai ter, no recato do seu quarto ou da sua mesa de café. Manuel António Pina citava Borges dizendo que cada um de nós é aquilo que viveu, aquilo que leu, as pessoas que conheceu. Todos transportamos uma potencialidade de imaginação e transportamos a nossa experiência, e é com essa imaginação e experiência que lemos o poema. Paul Celan, numa imagem que Mandelstam também utilizava, dizia que o poema é como uma mensagem lançada numa garrafa, pode saber-se quem a lançou, não se sabe exatamente quem a vai apanhar, e se é que a vai apanhar.

 

Na sua vida, a poesia está a vencer a ciência, como chegou a dizer?

Tenho compromissos nos hospitais aos quais não posso deixar de responder, passam-se sobretudo nos períodos da manhã, por vezes ao fim de semana. À noite faço questão de ter o meu tempo familiar e deixo que outras influências, nomeadamente as conversas e as notícias e os filmes, contaminem a minha vida – é a isso que se chama viver. A parte do meio do dia que fica entre a manhã de trabalho e o fim de tarde e a noite de conversa é basicamente o tempo onde leio, onde escrevo, onde revejo. Mas a inspiração chega de todo o lado. As conversas são realmente uma fonte de inspiração, até para uma personagem na minha poesia, o senhor Lopes: o senhor Lopes é um indivíduo medíocre que normalmente ocupa um lugar que não corresponde exatamente à sua competência, foi-lhe oferecido por uma promoção dúbia, ninguém compreende verdadeiramente como chegou ao lugar, mas tem de ser respeitado, porque tem poder para melhorar ou piorar a vida dos que dele dependem. É um indivíduo mau, mesquinho, sonso, que vai ludibriando aqueles que estão acima dele, deitando as culpas para os que estão abaixo, e vai ludibriando aqueles que estão abaixo, dizendo que a culpa é dos que estão acima, e nesse equilíbrio vai levando a dele avante, dividindo para reinar, fazendo combinações com alguns dos que estão acima e com alguns dos que estão abaixo, oferecendo pequenas migalhas em troca de grandes favores. Este indivíduo vai singrando, umas vezes chama-se Lopes e outras vezes chama-se Bastos ou chama-se Silva, e outras vezes não se chama António, chama-se Maria. E cada um de nós tem o seu senhor Lopes.

 

Subsiste a cultura do favor e da negociaçãozinha, e não uma avaliação clara - aquele "dia inicial inteiro e limpo" que Sophia queria.

O senhor Lopes herda vestígios de ditadura?

Ele herda este jogo de anca que eventualmente lhe foi ensinado por alguém num país que já foi totalitário e onde este equilíbrio precário do favor e da cunha funcionava como moeda de troca para uma sobrevivência difícil. Portugal perdeu uma parte significativa do século passado num atavismo e numa dificuldade de desenvolver as capacidades individuais. Tenho esperança de, ainda no meu tempo de vida, ver o mérito vencer todo este arranjinho. Subsiste a cultura do favor e da cunha e da negociaçãozinha, e não aquela avaliação clara, aquele "dia inicial inteiro e limpo" que Sophia queria. Nós próprios acabamos por alinhar, ou então usamos a palavra como forma de resistência e mantemo-nos à parte, e não comemos a nossa refeição com o senhor Lopes, não nos sentamos a essa mesa e optamos por confraternizar com a fome.

 

Começámos por falar de números, do número de mortos, mas também das palavras que são vida. Na sua obra "Movimento", fala no milagre da vida – "na manhã do outro dia o mundo está sempre de volta". É assim?

Tem de ser, a vida e o mundo e a natureza regeneram-se em cada ciclo de quatro estações, todos sabemos que a vida é cíclica e que a semana é cíclica e que no dia seguinte, depois de uma noite de escuridão, surge a luz. Eu preparava-me exatamente para celebrar a vida quando a pandemia caiu. Preparava-me, com a chegada dos meus 50 anos – agora tenho 53, normalmente cada livro de poemas demora dois, três anos a escrever – e das primeiras maleitas ao corpo, para celebrar o manifesto de vida. Esse movimento de vida interessa-me. O livro está dividido em sete secções – cada uma representada pelos nomes pagãos dos astros e dos deuses, e o seu dia da semana ("dia de Saturno", "dia do Sol", "dia da Lua", "dia de Marte", "dia de Mercúrio", "dia de Júpiter"), e pode ser lido ciclicamente, para mostrar que independentemente daquilo que nos aconteça, no dia em que nós próprios formos um número a somar aos outros, a vida vai continuar cá, neste ou noutros planetas, com estes ou com outros humanos, a natureza seguramente vai continuar a regenerar e a noite seguramente continuará a dar origem à luz do dia.

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