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Oh, que perca tão grande!

O amor pode ser um prémio de consolação quando se ocupa um lugar por receio de não arranjar melhor. Ivone aceita, então, ser princesa numa corte que despreza. Di-lo em silêncio. Como quem tem uma espinha entalada na garganta.

Wilson Ledo wilsonledo@negocios.pt 07 de Abril de 2018 às 14:00
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Ivone, Princesa de Borgonha
A peça encenada por António Pires está no Teatro do Bairro, em Lisboa, até 8 de Abril. Já no Porto tem sessões marcadas no Teatro Nacional São João, de 11 a 22 de Abril.

A perca não é um peixe que protagonize grandes banquetes pelas cortes reais desse mundo fora. Talvez pela grande quantidade de espinhas e o perigo de alguma delas se alojar, involuntariamente, na garganta de quem toma o repasto.

Contudo, ela é o grande atractivo - prato principal e sobremesa - desse grande deleite teatral que é "Ivone, Princesa de Borgonha", peça escrita pelo polaco Witold Gombrowicz. Crítica refinada dos costumes aristocráticos, que resiste à passagem do tempo.

Filipe (Nuno Casanovas) é um príncipe habituado a ter tudo do bom e do melhor, inclusive no que respeita à beleza da companhia feminina. Certa tarde, após um desfile luminoso ao pôr-do-sol pelo passeio público, os seus olhos cruzam-se com um corpo que estranha. Ivone, ela mesma, interpretada por Alexandra Sargento.

Desprovida de "sex appeal", com sangue preguiçoso, apática, muda e assustada, qual bicho-do-mato. O príncipe mimado decide então transformar aquela pobre criatura na sua noiva, desafiando todo o "status quo". A corte reage com chacota. E começa a planear formas de evitar que se consagre, pela união divina, a integração da "paspalhona" na família.


À medida que os monarcas Margarida e Inácio (Maria João Luís e João Barbosa) traçam planos lunáticos para se livrar da aventesma, vão revelando os seus esqueletos no armário - tão compostos como uma perca cheia de espinhas. A altivez e o vocabulário reais começam a ceder a laivos de uma certa labreguice. E não há como não rir com essa desconstrução. Até porque há um camareiro (Marcello Urgeghe) pronto a lembrar, sempre de forma certeira, as falhas de carácter com os seus sucessivos "ais" e "uis".

"Ivone, Princesa de Borgonha" vive sempre nessa corda bamba entre o exagero e a contenção. António Pires opta por um cenário vermelho, cor quente do poder, praticamente desprovido de objectos. Uma cadeira ou outra, de vez em quando. Um jornal, um espelho, um ramo de flores, pouco mais. Precisamente para que o foco esteja naquilo que se diz. Ou que se guarda, no caso de Ivone.

"E se disséssemos qualquer coisa de vez em quando, fofinha?" Ivone não responde. Ela sabe que os verdadeiros loucos, autênticos viciados no jogo das aparências, passaram a peça inteira a falar - quase sempre sozinhos ou para si próprios. 


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