O mundo da escrita rebelde e com causas
A atribuição do Prémio Camões a Hélia Correia serve para serem reeditadas algumas das suas primeiras obras, onde já estão presentes as linhas de força que a colocam num lugar cimeiro da ficção nacional.
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O mundo de Hélia Correia faz-se de mitos, de heróis e de rebeldia. Não admira o seu fascínio pleno pela Grécia clássica e por tudo o que ela simboliza num mundo que vai perdendo referências, que vai optando pela superficialidade e pela fragilidade de conceitos e que parece amedrontado pelo pensamento ou pela escrita. Não admira que, ao receber o Prémio Camões deste ano, a escritora tenha dito alto e bom som: "Como num pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média que nos ameaça, não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se, tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo."