Vinhos Uma boa história cai bem com bolhas finas

Uma boa história cai bem com bolhas finas

O leitor quer saber que espumante ou champanhe liga bem com queijos, cataplanas ou arroz doce? E, já agora, tem alguma dúvida sobre um vinho, uma região, provas cegas ou uma personalidade qualquer deste universo? O melhor é consultar dois novos livros de João Paulo Martins. Não é com São Google que se safa.
Uma boa história cai bem  com bolhas finas
Edgardo Pacheco 03 de novembro de 2018 às 11:30

A vida de um crítico que para o ano faz 30 anos de carreira (aceitam-se sugestões celebrativas) não é feita só de Barcas Velhas e aparentados.

No livro sobre as majestosas bolhas, há 186 espumantes e 81 champanhes. Custa €16,90. O livro com as crónicas termina com um posfácio de António Barreto. Custa €15,50.


O facto de ter dado descanso este ano ao guia Vinhos de Portugal não significou que João Paulo Martins gozasse as delícias de uma sabática. Pelo contrário. Em poucos meses, lançou três livros: o "200 Wines to Pairing With Portuguese Food"; "Mais Histórias com o Vinho & Novos Condimentos" e, por fim, "Espumantes & Champanhes - A melhor escolha para cada ocasião". Nada mau num país cuja edição de títulos sérios sobre estas matérias é escandalosamente exígua.

Para início de conversa, faço uma declaração de interesses pelo facto de ter participado na selecção das crónicas que haveriam de dar origem ao livro "Mais Histórias com o Vinho". Se é certo que as relações de camaradagem e amizade estiveram na origem de um convite que me fez crescer alguns centímetros, os leitores que acompanham esta página conhecerão a minha defesa na publicação em livro de textos fundamentais de diferentes autores sobre a história recente da gastronomia portuguesa, os quais se encontram dispersos por inúmeros jornais e revistas de outros tempos (bons tempos face à miséria editorial a que chegamos).

Se hoje falo de João Paulo Martins e da atitude da Oficina do Livro por editar um segundo livro de crónicas enogastronómicas, manifesto, por outro lado, tristeza por não ver o mesmo tratamento editorial para memória futura - de todas editoras - a partir do trabalho de gente como Maria de Lourdes Modesto, José Quitério, David Lopes Ramos, Armando Fernandes, Virgílio Gomes ou António Saramago - isto só para mencionar o nome de alguns autores que me ocorrem assim de repente e ao movimento rápido das teclas do computador. Estes e outros críticos/investigadores publicaram na imprensa textos que merecem estudo e compilação em livro, destinados ao público em geral, aos alunos das escolas hoteleiras e a todos aqueles que trabalham no sector agro-industrial. Textos que, convém notar, São Google não disponibiliza. Mas, lá está, certos esquecimentos acontecem, também, por causa da tal pescadinha de rabo na boca: os leitores são escassos e, em consequência, as editoras não arriscam.

E aqui é que bate o ponto. Em tese, "Mais Histórias com o Vinho" é um livro de interesse para qualquer enófilo porque, pelas 77 crónicas, passa a história da evolução do vinho português nos últimos 30 anos, sendo que muitas estão contadas com grandes tiradas de humor, quer por via da participação de figuras públicas (Mário Soares ou Francis Ford Coppola), quer por via de uma ou outra gafe assumida do autor, pelo relato da compras de vinhos em lojas de móveis e por muitas outras peripécias. Aqui há de tudo.

E o curioso é que, sendo datadas, há crónicas atuais. A história muito em voga dos vinhos velhos - está cá e bem explicada; a questão muito saloia de pensarmos que temos os melhores vinhos do mundo - idem; o tão modernaço tema dos vinhos naturais - idem, idem.

Donde, "Mais Histórias com o Vinho" deveria ser um livro de consulta e reflexão por parte de produtores e enólogos, porque aqui não está apenas memória e História. Estão também um conjunto de teses prospectivas. Sabemos que é muito importante ler o "paper" mais recente sobre a influência das alterações climáticas no futuro da viticultura ou esmiuçar o último relatório da Nielsen sobre as vendas na moderna distribuição, mas, caramba, à mesa-de-cabeceira, cada uma destas crónicas lê-se em 10 minutos. E a questão é esta: se os enólogos e os produtores portugueses lessem obras deste e de outros géneros, o mercado editorial na área enogastronómica seria bem diferente.

Já quanto ao livro "Espumantes & Champanhes", admitimos que os interessados serão em maior número. E por três razões. Primeiro, é o livro mais completo que alguma vez se publicou em Portugal nesta matéria; segundo, os portugueses começam a perceber que um espumante ou um champanhe não são apenas para dias de festa e, terceiro, nunca se tinha tratado tão bem esta bebida na sua relação com a comida. Ou seja, o autor não se limitou a fazer as clássicas notas de provas dos vinhos. Provou-os e, depois, encaixou-os por momentos e pratos clássicos. É inédito.

Quem quiser saber que espumantes ou champanhes ligam bem com queijos, carne de porco ou de aves, mariscos, cataplanas, peixes mais ou menos intensos ou sobremesas, tem aqui a papinha toda feita.

Temos ainda um capítulo de "cocktails" com a assinatura da equipa Black Pepper & Basil e um conjunto de receitas de Vítor Sobral, destinadas a diferentes perfis de espumante ou champanhe. Neste sentido, o livro é muito didáctico para consumidores, gente da restauração ou vendedores nas garrafeiras. Agora já não há desculpas para recusarmos a compra destes vinhos por serem difíceis de ligar com a comida.

Compreensivelmente, folheamos estes dois livros com um copo de espumante ou de champanhe ao lado. Relemos uma ou outra crónica do "Mais Histórias com o Vinho" e vamos, com ar grave, ao posfácio de António Barreto. Tão bem pensado, tão bem escrito e tão directo. Uma pessoa lê o texto e pensa: Ah, quando eu for grande, vou querer um texto destes num livro meu. Mas pronto, na improbabilidade de tal acontecer, lá vai mais um golo. Paciência.





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