Inflação engole maior parte da subida do salário mínimo
Nem os aumentos extraordinários chegam. A inflação em Portugal vai anular os aumentos de pensões, dos salários do Estado e de grande parte do ganho do salário mínimo. Próximo governo tem nas mãos decisão direta sobre o rendimento de mais de 4 milhões de pessoas.
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Tornou-se evidente que o aumento de preços não é pontual. Tendo em conta as projeções do Conselho das Finanças Públicas (CFP), uma das primeiras instituições a rever as perspetivas económicas depois do início da guerra, a inflação média deste ano – próxima de 4% – deverá anular em termos reais os aumentos de pensões, dos salários da Função Pública e a maior parte da subida do salário mínimo. "O atual cenário antecipa uma aceleração expressiva da taxa de inflação, medida pelo Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), para 3,9% em 2022", lê-se no documento divulgado esta quinta-feira pelo Conselho das Finanças Públicas (CFP). Esta projeção assume, ainda assim, que a pressão inflacionista é temporária. No entanto, a entidade liderada por Nazaré da Costa Cabral não deixa de admitir um cenário mais extremo em que "a magnitude do choque no preço dos bens energéticos e de outras commodities é superior e mais persistente". "Nesse cenário adverso, que não deve ser interpretado como se de uma previsão se tratasse, em 2022 a inflação poderia atingir os 5,6%", com o crescimento do PIB a abrandar para 3,5%, lê-se no relatório. O CFP foi das primeiras instituições a rever a inflação em alta, mas não é a única que o está a fazer. Para a Zona Euro, o departamento de estudos económicos do Banco Central Europeu também já fez o mesmo - aponta agora para uma inflação de 5,1% para o conjunto da moeda única, que tem exibido uma variação de preços mais intensa do que a portuguesa. Já a OCDE disse esta quinta-feira que a guerra vai somar dois pontos percentuais à inflação da zona euro, este ano. Em Portugal, o banco central também está a refazer as contas para apresentar no final deste mês e o mesmo acontece com os departamentos de "research" dos bancos: "Está em curso o ajustamento dos nossos cenários para incorporar a atual situação, ajustamento que será maior no caso da inflação, que tem surpreendido em alta sobretudo desde início do ano", adianta Paula Carvalho, economista-chefe do "research" do BPI, ao Negócios. "A revisão será em alta e seguramente ultrapassará os 3%", antecipa. O próprio ministro das Finanças, João Leão, também já assumiu que o novo contexto de guerra obrigará a rever projeções para este ano. Em outubro o Executivo contava com uma inflação média em 2022 de 0,9%, mas o Negócios sabe que agora os peritos das Finanças já esperam mais. Pedro Siza Vieira, ministro da Economia, já admitiu que os consumidores vão "obviamente, ver um impacto grande nos preços".