Economia O rosto da indústria 4.0 em Portugal morreu aos 43 anos

O rosto da indústria 4.0 em Portugal morreu aos 43 anos

O “homem das start-ups”, o impulsionador da Web Summit em Lisboa, o rosto da indústria 4.0 em Portugal. João Vasconcelos deixou marcas digitais profundas na economia nacional em menos de dois anos de passagem pelo Governo.
O rosto da indústria 4.0 em Portugal morreu aos 43 anos
Miguel Baltazar
Rui Neves 26 de março de 2019 às 17:49

"Tenho 41 anos, estou a meio da minha vida e agora quero dedicar-me mais à minha família", escrevia João Vasconcelos no Facebook, em 10 de julho de 2017, dia seguinte à sua saída do Governo. Morreu esta segunda-feira à noite, aos 43, vítima de ataque cardíaco. Na rede social, descrevia-se como "father and son". João Vasconcelos tinha dois filhos.

 

Nos últimos tempos, tinha assumido a liderança do Conselho Consultivo da Flash, empresa de trotinetas elétricas de Lisboa, era o mentor no programa Techstars e tinha criado o "Conselho", um "think tank com os 50 CEO portugueses mais relevantes, que pretendia discutir as novas dinâmicas do setor industrial e o futuro da economia portuguesa".

 

Leal à sua matriz inspiradora, também "trabalhava de perto com várias ‘start-ups’ europeias e empresas de tecnologia", como se lia na sua página no LinkedIn.

 

Antes, em apenas 20 meses de passagem pelo executivo de António Costa, ganhou uma espécie de cognome - "o empreendedor do Governo". Também ficou conhecido como "O homem das start-ups", o grande obreiro da Web Summit em Portugal e até "o rosto" da indústria 4.0, sendo-lhe reconhecido um papel fulcral na aproximação das indústrias tradicionais portuguesas ao universo digital.

 

"O João Vasconcelos era um ser único, um espécime raro", realça, ao Negócios, João Miranda, CEO da multinacional portuguesa Frulact.

 

Para este empresário, líder de uma das maiores fabricantes mundiais de preparados à base de fruta para a indústria alimentar, o antigo secretário de Estado da Indústria era "visionário, inspirador e contagiante", mas também "informal e caloroso na relação", classificando-o como "a esperança viva da nova geração de empreendedores".

 

"Desde o ‘shop floor’ na indústria até às micro empresas das tecnologias mais emergentes, era tido como o mentor e o ‘sponsor’, tinha sempre uma palavra de entusiasmo, ou uma mão sempre estendida para as oportunidades de ‘networking’", relembra João Miranda.

 

Vasconcelos morreu, "mas o país e o universo empresarial português irão, durante as próximas décadas, continuar a retirar dividendos do seu legado", considera o CEO da Frulact.

 

O presidente da República também destacou a participação do antigo governante em iniciativas "a favor da inovação e do empreendedorismo moderno", enquanto Paddy Cosgrave, fundador e presidente da Web Summit, que chamava Vasconcelos como "o ministro das start-ups", afirmou que este era "apaixonado por start-ups e por Portugal".

 

"Galpgate" determinou a sua saída do Governo

 

Militante socialista, Vasconcelos saiu do Governo após ser constituído arguido pelo Ministério Público no processo que investigava o pagamento pela Galp Energia de viagens, refeições e bilhetes para diversos jogos da seleção nacional no Campeonato Europeu de Futebol de 2016, o qual acabou por ser arquivado.

 

Diretor executivo da Startup Lisboa - Associação para a Inovação e Empreendedorismo de Lisboa, de 2011 até 2015, foi responsável pelo LIDE Empreendedorismo, associação com foco na promoção da sustentabilidade e responsabilidade social nos negócios e nas empresas.

 

Entre 2005 e 2011, foi adjunto e assessor do gabinete do então primeiro-ministro, José Sócrates, com responsabilidade na área dos assuntos regionais e economia, tendo nos seis anos anteriores ocupado o cargo de vice-presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE).

 

João Vasconcelos administrou também diversas empresas familiares nos setores do turismo e serviços, tendo ainda sido mentor de vários programas de aceleração empresarial, nomeadamente o Startup Pirates, Founder Institute, Lisbon Challenge e Seedcamp.

 

"Quanto mais tempo passamos online mais valorizamos tudo o que é offline"

 

Nascido em Leiria, em setembro de 1975, ia lá voltar na próxima semana, anunciou o próprio naquele que foi o seu último "post" no Facebook.

 

"Tudo a Leiria dia 3", convocava João Vasconcelos. O ex-secretário de Estado da Indústria tinha aceitado apresentar no dia 3 e abril, na Fnac de Leiria, o livro "Binómio Tecnologia & Sustentabilidade – 7 Lições em Portugal e na Europa", da autoria de Diogo Almeida Alves e Pedro Matias

 

Antes deste, num outro "post", publicado ao final da manhã deste domingo, depois de passar em revista a sua atividade nas redes sociais em 2019 - "Facebook - o que mais faço são ‘likes’ e cada vez menos", João Vasconcelos impelia todos quantos o seguiam a deixarem o ecrã e a emocionarem-se com a vida real.

 

"Quanto mais tempo passamos online mais valorizamos tudo o que é offline, a natureza, as emoções, a arte, a cultura, a manufatura, tudo o que nos transmite sentimento. Bom domingo, aproveitem o digital e usem-no como ferramenta para valorizar o analógico. Agora, vou passear que está um dia fabuloso", lê-se no seu post de domingo. Eram 11h42 e estava sol.




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