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Câncio: Nunca fui sustentada por Sócrates

A jornalista e antiga namorada do ex-primeiro-ministro insurge-se contra as acusações de que beneficiou e teria até conhecimento da origem ilícita do dinheiro de José Sócrates. Queixa-se do Correio da Manhã, do Sol e da justiça.

João Miguel Rodrigues
Negócios 11 de Maio de 2016 às 18:39
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Fernanda Câncio, jornalista do Diário de Notícias que foi namorada de José Sócrates, defende-se das acusações públicas que lhe são feitas a propósito do processo Operação Marquês. Num longo texto publicado na Visão, Câncio insurge-se, em particular, contra a ideia de que teria beneficiado e até saberia da origem ilícita do dinheiro de José Sócrates. Queixa-se, em particular, do Correio da Manhã, do Sol e da justiça onde diz não ter encontrado o apoio devido para se defender de "calúnias".


"Nunca solicitei ou recebi de José Sócrates – nem de Carlos Santos Silva, evidentemente – quaisquer quantias em dinheiro fosse a que título fosse. (…) É uma calúnia que publicações e o canal do grupo Cofina [a que pertence o Negócios], assim como o Sol, refiram ou sugiram sistematicamente que estou incluída num 'grupo de mulheres' que seriam 'sustentadas' por José Sócrates e Carlos Santos Silva".


Jornalistas do Correio da Manhã, assistentes no processo da Operação Marquês, pediram que Câncio fosse constituída arguida, tal como a ex-mulher de Sócrates Sofia Fava, por considerarem existir fortes indícios de que ambas sabiam da origem ilícita do dinheiro do ex-primeiro-ministro e o ajudaram a encobri-lo. Sofia Fava foi, entretanto, constituída arguida pelo Ministério Público – Fernanda Câncio não.


A grande repórter do Diário de Notícias lamenta a incapacidade do Ministério Público (MP) de travar "as repetidas violações do segredo de justiça" e as "imputações falsas" que se diz alvo, sendo essa a razão que a levou a prestar esclarecimentos públicos, algo que confessa fazer "com imensa repugnância e tristeza. "Falar? Calar? Qual a melhor forma de lidar com a calúnia?" questiona logo no início do seu texto, no qual diz ponderar há cinco meses o que fazer e que decidiu agora falar "sem esperar milagres, talvez esperando nada, mas chega".


Ao longo do seu testemunho, revela que "há uma série de factos que foram revelados e assumidos por José Sócrates e Carlos Santos Silva depois de Novembro de 2014 dos quais eu não fazia a mínima ideia". Que factos? Que Sócrates vivia de empréstimos do amigo, que a ex-mulher trabalhava numa empresa desse amigo, que esse mesmo amigo dera uma garantia bancária para Sofia Fava comprar um monte no Alentejo, que era o amigo o proprietário de um apartamento em Paris que Sócrates usara.


Confirma que o ex-primeiro-ministro levava um estilo de vida luxuoso, mas que nunca desconfiou da origem do dinheiro porque este provinha de uma família que vivia com "desafogo" e lhe havia dito que recebia uma avença mensal de 25 mil euros. 


"Nunca assisti a gastos que me parecessem ir além das possibilidades de alguém com acesso a um confortável pecúlio familiar e um bom ordenado. Almoçar e jantar em bons restaurantes, vestir-se em boas lojas, sim; mas conheço imensas pessoas que frequentam os mesmos restaurantes e comoram nas mesmas lojas. Não sou aliás a única pessoa do círculo de José Sócrates a ter ficado surpresa com aquilo que se publica como sendo os seus gastos".


Foi por isso que recebeu com "choque" a detenção de José Sócrates e Carlos Santos Silva. "Se fizesse ideia da relação pecuniária entre Santos Silva e Sócrates teria feito perguntas por considerar a situação, no mínimo, eticamente reprovável", afirma Fernanda Câncio.

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