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Vacina para a covid-19 já chegou a Portugal. E agora?

Quem, quando, onde, o quê, como e porquê. Conheça as respostas às 14 perguntas fundamentais sobre o processo de vacinação para a covid-19, que arrancou este domingo em Portugal.

António Larguesa alarguesa@negocios.pt 27 de Dezembro de 2020 às 12:00
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A primeira vacina para a covid-19 foi administrada em Portugal este domingo, 27 de dezembro. Este primeiro lote simbólico, composto por duas caixas com 9.750 doses, tem como destinatários os profissionais de saúde mais expostos ao vírus, pertencentes a cinco centros hospitalares (São João, Universitário do Porto, Coimbra, Lisboa Norte e Lisboa Central). Confira todos os detalhes sobre o processo de vacinação em Portugal.

 

Quais os primeiros a serem vacinados?

A primeira fase de vacinação engloba 950 mil pessoas, abrangendo os profissionais e residentes em lares, assim como por quem trabalha ou está internado em Unidades de Cuidados Continuados (UCC); os profissionais de saúde, das forças armadas e forças de segurança; e as pessoas com mais de 50 anos que sofram de determinadas patologias, como insuficiência cardíaca ou renal. O plano inicial previa fechar este processo no primeiro trimestre, mas o Governo já admitiu que, pelo menos este último subgrupo, terá de esperar até abril.

 

E quem virá a seguir?

As pessoas com mais de 65 anos e sem patologias definidas para covid só entram na segunda fase, que deve arrancar no segundo trimestre do próximo ano. Em causa estão 1,8 milhões de idosos, que acompanham neste grupo as 900 mil pessoas entre 50 e 64 anos com outras patologias, como diabetes, neoplasia maligna ativa, doença renal crónica, insuficiência hepática, obesidade e hipertensão arterial. O resto da população entra numa terceira fase, previsivelmente a partir de julho, embora possa ser necessário criar um terceiro grupo prioritário, se o ritmo de chegada das vacinas for mais lento.

 

Onde vão ser administradas as vacinas?

Os residentes em lares e nas UCC serão vacinados nesses locais pelas respetivas equipas de enfermagem ou, se não for possível, através da deslocação das equipas dos centros de saúde. Os restantes elementos do primeiro grupo de risco vão ter de deslocar-se aos centros de saúde, num total de 733 pontos de vacinação espalhados pelo país, onde podem ser administradas 40 mil por dia. Na segunda fase podem ser criados também "centros de vacinação nos centros urbanos com maior acessibilidade e eventualmente maior conforto", estando ainda em equação o alargamento às farmácias a partir do verão.

 

Como vou ser contactado?

Serão as autoridades de saúde a identificar e a convocar as pessoas pertencentes aos grupos prioritários. Preferencialmente, vão ser contactadas por SMS para dizerem se querem ou não ser vacinadas. Se a resposta for positiva, recebem uma nova mensagem no telemóvel com a data, hora e local. As pessoas que não têm médico de família e não usam os cuidados de saúde primários do setor público, devem, em alternativa, apresentar uma declaração de um médico privado ou seguro que ateste a necessidade de vacinação. Estão a ser ultimados um portal online com informação interativa sobre o calendário de vacinação, assim como duas linhas telefónicas para o esclarecimento de dúvidas.

 

Já posso tirar a máscara e abraçar os amigos?

Os especialistas estimam que a imunidade de grupo é alcançada quando estiver vacinada entre 60% a 70% da população, algo que nunca irá acontecer antes do verão de 2021. Até lá, pelo menos, continuará a ser recomendado o uso da máscara, do álcool-gel, a lavagem das mãos e o distanciamento social. Só a médio prazo chegarão os resultados efetivos sobre a duração da imunidade, sendo que as taxas de eficácia que têm sido referidas pelas empresas, em alguns casos acima de 95%, são relativas à capacidade que a vacina tem para evitar a forma grave da covid-19, sem certezas sobre os resultados ao nível da transmissão do vírus. Ou seja, uma pessoa vacinada poderá ser portadora do vírus e transmiti-lo a terceiros. 

 

Devo ter medo de reações adversas?

Nos ensaios clínicos não houve episódios de reações alérgicas considerados de relevo, mas um dos temas principais nos próximos meses será a farmacovigilância, isto é, a vigilância de eventuais efeitos secundários que a vacina provoque em quem a tome. O americano Centro de Prevenção e Controlo de Doenças recomenda um período de observação de 15 minutos após a administração da vacina, recomendação já assumida também pela Agência Europeia do Medicamento (EMA). "Nenhum estudo consegue identificar todos os efeitos secundários. O que é preciso é continuar a avaliar a vacina no terreno. Os fabricantes têm aqui um papel a desempenhar, mas a EMA também vai encomendar estudos a entidades independentes, em colaboração com outras entidades reguladoras", garantiu Sabine Straus, secretária da comissão de avaliação de risco e farmacovigilância da agência sediada em Amesterdão.

 

Qual a tecnologia utilizada nestas primeiras três vacinas?

As vacinas da Pfizer e da Moderna utilizam uma tecnologia inovadora designada RNA. Ambas usam o código genético de uma proteína do vírus encapsulado em pequeníssimas partículas. São inoculadas no organismo e entram dentro das células, que produzem durante um período restrito de tempo as proteínas do vírus. Mais tradicional é o método usado pela AstraZeneca/Oxford, que utiliza um vírus atenuado, neste caso um que induz ou gera constipações em chimpanzés, modificado para não causar doença em humanos. Do ponto de vista genético é alterado para "mascará-lo" de vírus da covid-19 e ser reconhecido pelo sistema imunitário, ficando assim preparado para debelar uma possível infeção.

 

E agora com esta nova variante, a vacina dará a resposta adequada?

Se for preciso modificar a vacina da BioNtech-Pfizer por causa da variante do novo coronavírus que surgiu no Reino Unido, seria possível fazê-lo em seis semanas, "em termos estritamente técnicos, sem contar com a apreciação das agências reguladoras do medicamento". A garantia é de Ugur Sahin, líder da biotecnológica alemã parceira da farmacêutica americana, afiançando que "é altamente provável que continue a proteger, pois 99% da proteína da espícula continua a ser a mesma". Em teoria, Celso Cunha, virologista e professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, concorda. "Uma vez estabelecida a melhor tecnologia para produzir uma vacina, é relativamente simples adaptá-la a um eventual novo vírus que esteja a circular e que se verifique patogénico, isto é, que não seja reconhecido pelo nosso sistema imunitário", disse ao Negócios.

 

Quantas doses vão chegar a Portugal nos próximos meses?

Portugal deverá receber 1.229.475 unidades da vacina contra a covid-19 desenvolvida pela Pfizer/BioNTech até março de 2021. Uma vez que a imunização requer duas doses, será suficiente para cerca de 614 mil portugueses. Para o primeiro trimestre está também prevista a distribuição de 227 mil doses da vacina da Moderna e 2,8 milhões daquela que está a ser desenvolvida pela Astrazeneca em parceria com a Universidade de Oxford. Porém, são apenas previsões, uma vez que estas últimas ainda aguardam a aprovação do regulador europeu e as entregas não estão confirmadas.

 

Quando vão ser aprovadas mais vacinas?

Depois de aprovar a primeira vacina, a EMA deve deliberar no dia 6 de janeiro de 2021 sobre a vacina da Moderna, que nos EUA já começou a ser distribuída há uma semana. No caso da BioNTech-Pfizer, a agência reguladora aprovou na manhã de 21 de dezembro o seu uso de emergência e da parte da tarde a Comissão Europeia deu-lhe a luz verde necessária para que a imunização dos grupos populacionais considerados prioritários pudesse começar em todos os países da UE a partir de 27 de dezembro. Ainda não há data para a apreciação da vacina da AstraZeneca.

 

Ok, mas quantas e quais estão já contratualizadas?

Portugal deverá comprar um total superior a 30 milhões de vacinas nos próximos meses, com base nos acordos já firmados a nível europeu com sete empresas farmacêuticas – e no pressuposto de que todas elas venham a conseguir a aprovação regulamentar. Além das vacinas da Pfizer, da Moderna e da AstraZeneca, que estão numa fase mais adiantada de desenvolvimento, já foram também assinados contratos com o grupo Johnson & Johnson, com o consórcio Sanofi/GSK, com a CureVac e com a Novavax.

 

Quanto vão custar essas vacinas a Portugal?

A toma da vacina é gratuita, mas o Estado português vai pagar bem mais de 200 milhões de euros pelas vacinas, a confirmar-se a aprovação das que já foram negociadas pela Comissão Europeia. E ao custo de aquisição é preciso somar as despesas de transporte, armazenamento e distribuição. Apesar de os preços serem confidenciais, já havia uma indicação aproximada sobre o custo de cada uma. Recentemente, a secretária de Estado do Orçamento belga, Eva De Bleeker, revelou inadvertidamente uma tabela no Twitter, mostrando o preço unitário que será cobrado aos países europeus nestes primeiros seis contratos rubricados: AstraZeneca (1,8 euros), J&J (7 euros), Sanofi/GSK (7,5 euros), BioNTech/Pfizer (12 euros), CureVac (10 euros) e Moderna (15 euros).

 

Qual é a operação logística envolvida?

No caso da vacina da Pfizer, a primeira a chegar a Portugal, a farmacêutica assegura a entrega das vacinas nos três locais indicados no contrato — na região Centro, no Funchal (Madeira) e em Ponta Delgada (Açores). Chegadas a esses armazéns, onde podem ser guardada durante seis meses, seguem para os pontos de vacinação espalhados pelo país em veículos contratados a três empresas grossistas de distribuição de medicamentos. No máximo, após saírem dos armazéns centrais, as vacinas aguentam até 30 dias nas caixas térmicas. Depois de abertas, há um prazo de cinco dias para serem administradas, bastando nesses locais as condições de conservação proporcionadas pelos frigoríficos já existentes.

 

Quem vai controlar este processo de vacinação?

Vai ser montada uma "sala de situação" para acompanhar globalmente o plano de vacinação, garantindo a articulação permanente entre todas as entidades, a receção de informação sobre eventuais problemas, a resposta às dúvidas que surjam no terreno e a realização de balanços periódicos sobre o processo. Terão assento elementos da Direção-Geral de Saúde, Ministério da Saúde, Infarmed, Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, Forças de Segurança, Forças Armadas e "outras entidades que se julguem adequadas", de acordo com o plano divulgado pelo Governo.

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