Escândalo Volkswagen: Antigo CEO investigado e mais cabeças a rolar
O escândalo ganha nova dimensão, com a Audi a reconhecer ter mais de dois milhões de veículos afectados. Há também novas investigações em curso e promessas de resolução do caso.
A Audi é a mais recente marca envolvida no escândalo da manipulação de emissões, com recurso a um dispositivo que permitia adulterar os resultados obtidos nos testes em laboratório.
A marca, que integra o grupo Volkswagen, admitiu ter 2,1 milhões de veículos nesta situação. Ao todo, são oito modelos envolvidos, com a maior parte a ser vendida na Europa: A1, A3, A4, A5, A6, TT, Q3 e Q5.
A fabricante alemã reconheceu que o "dispositivo manipulador" de emissões poderá ter sido instalado em até 11 milhões de veículos. Além da Volkswagen e da Audi, também a Seat já admitiu culpas neste caso.
Cabeças a rolar
A Reuters escreve que o grupo automóvel suspendeu os chefes de investigação e desenvolvimento das marcas Volkswagen, Audi e Porsche. Dá-se assim início a um processo que a imprensa estrangeira já equacionava desde o início.
Eram esperados os primeiros nomes dispensados após a reunião do conselho de administração da passada sexta-feira, 25 de Setembro. Mas sem efeito. Nesse encontro, Matthias Müller foi escolhido como o novo CEO da Volkswagen, numa altura em que a empresa enfrenta a pior crise da sua história.
O até então CEO da Porsche substitui Martin Winterkorn, que apresentou a sua demissão devido a esta polémica. A intenção de Müller é voltar a ganhar a confiança dos consumidores nos produtos da fabricante alemã, uma vez que a confiança do mercado tem sido fortemente abalada na última semana.
Uma solução até 7 de outubro
A nova gestão da Volkswagen terá de apresentar uma solução ao regulador alemão até ao próximo dia 7 de Outubro, garantindo o cumprimento das normas de emissões poluentes. Só naquele país contam-se quase três milhões de carros afectados.
No caso da Volkswagen falhar nesta meta, o KBA poderá retirar a homologação dos modelos afectados. Tal cenário representaria a proibição de venda e de circulação dos modelos afectados nas estradas alemãs. O grupo automóvel já informou que prevê reparar em breve e de forma gratuita os veículos afectados.
A reestruturação da empresa está também cima da mesa, com a divisão em quatro áreas: volume (Volkswagen, Skoda e Seat), desporto (Porsche, Bugatti e Bentley), "premium" (Audi, Lamborghini e Ducati) e veículos comerciais.
Por sua vez, a reestruturação da América do Norte já foi anunciada, com a unificação dos Estados Unidos, Canadá e México. Caberá a Winfried Vahland, da Skoda, a coordenação deste processo.
Em território americano, a EPA – agência ambiental que está a investigar o caso – não deu ainda luz verde à Volkswagen para vender os seus modelos de viaturas com motores Diesel.
As autoridades americanas encontram-se ainda a investigar se outras marcas poderão ter adoptado os mesmos procedimentos. Mercedes, BMW e Toyota têm sido recorrentemente apontadas neste sentido. Até agora, faltam certezas e multiplicam-se desmentidos.
Winterkorn vai ser investigado
A Justiça alemã abriu uma investigação ao anterior CEO da Volkswagen, Martin Winterkorn. A medida surge na sequência do caso de manipulação de emissões.
Os promotores vão procurar determinar quem foi o responsável por esta fraude. Na semana passada, a Bloomberg escrevia que o processo de manipulação não só era conhecido em Wolfsburg como altos executivos do grupo controlavam "aspectos cruciais".
Winterkorn abandonou a empresa, admitindo responsabilidades mas não a culpa no sucedido. O conselho de supervisão acabaria, horas depois, por reforçar a posição e informar que o ex-CEO não tinha conhecimento deste caso.
Entretanto, o Governo alemão – que tem tornado mais clara a dimensão do escândalo – reiterou que não tinha nenhuma informação prévia sobre a manipulação de testes em veículos a gasóleo por parte da Volkswagen.
Avisos ignorados
Vieram de dentro e de fora do grupo automóvel, mas as vozes da consciência foram ignoradas. A imprensa alemã conta que a fornecedora Bosch – que produziu o dispositivo capaz de manipular os níveis de emissão – alertou o grupo automóvel em 2007 que o mesmo tinha sido concebido apenas para testes internos. O aviso ia mesmo mais longe: usar o dispositivo durante a homologação dos veículos seria ilegal.
A outra companhia de alarme terá chegado de dentro do próprio grupo, com um funcionária da Volkswagen a advertir em 2001 que o "software" utilizado poderia representar uma violação da lei em vigor. Decorre agora um inquérito interno para determinar porque foram ignorados estes sinais.
Portugal em suspenso
Portugal em suspenso
Em Portugal, a importadora da Volkswagen (a SIVA) informou durante o fim-de-semana que os veículos que tenham motor a gasóleo e que cumpram as normas de emissões poluentes continuarão a ser vendidos sem limitações.
"Reafirmamos que todos os motores a 'diesel' que cumpram a norma Euro6 [que estabelecem as limitações de emissão de gases poluentes] respondem aos requisitos legais e aos padrões ambientais podendo ser vendidos sem qualquer limitação", referiu o grupo.
Entretanto a DECO, em declarações do Diário Económico, fez saber que os proprietários de veículos onde tenha sido instalado o "dispositivo manipulador" de emissões poderão pedir o dinheiro de volta aos concessionários, entregando o seu carro. Isto porque o produto vendido não corresponde, efectivamente, àquele a que o comprador teve acesso.
O Ministro da Economia, António Pires de Lima, já garantiu que o Governo está a trabalhar com o IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes) para tomar medidas quanto a este caso. Mas a acção do regulador luso está limitada, como escreveu o Negócios esta segunda-feira, 28 de Setembro.
O IMT passa as responsabilidades e decisões futuras para Bruxelas e Berlim. Isto porque "compete ao serviço da Comunidade Europeia que concedeu a homologação a um modelo de veículo assegurar, junto do fabricante, que o mesmo cumpre as disposições legais". No caso dos veículos da Volkswagen em território europeu, a homologação "é concedida pelo Kraftfahr-Bundesamt".
De acordo com o regulador luso, o Kraftfahr-Bundesamt é uma entidade congénere do IMT na Alemanha. "Será esta entidade que tem, no imediato, a responsabilidade de averiguar a eventual falta de conformidade dos veículos matriculados". As medidas a adoptar em Portugal vão ficar, por isso, dependentes de uma decisão a nível comunitário.