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Volkswagen: Depois do escândalo, a demissão do CEO. E agora?

Martin Winterkorn anunciou esta quarta-feira a sua demissão na sequência do escândalo da Volkswagen. O CEO de 68 anos deverá abandonar o cargo com uma pensão de 32 milhões de dólares, sem contar com indemnizações. A sua substituição será discutida esta sexta-feira e há já dois nomes de peso na lista de potenciais candidatos.

Bloomberg
Inês F. Alves inesalves@negocios.pt 24 de Setembro de 2015 às 11:06
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A decisão de abandonar o cargo de CEO da Volkswagen surgiu pouco depois da fabricante de automóveis alemã se ver envolvida num escândalo de manipulação de resultados em testes de emissões em veículos com motores diesel (a gasóleo) nos Estados Unidos. Os próximos dias serão marcados não só pelas condições da saída de Martin Winterkorn, como pela escolha do novo líder da empresa. Enquanto isso, há investigações em curso em todo o mundo e os 6,5 mil milhões de euros destinados a cobrir os custos deste escândalo podem não ser suficientes. No total, terá sido instalado um "dispositivo manipulador" que permitia adulterar os resultados dos testes de emissões em laboratório em 11 milhões de veículos

Uma pensão milionária

Martin Winterkorn abandona o cargo com uma pensão milionária de 32 milhões de euros, um valor que pode aumentar significativamente em indeminizações, dependendo de como o conselho de supervisor classificar a sua saída, noticia esta quinta-feira a Bloomberg. O relatório anual mais recente da Volkswagen – que se escusou a comentar os termos da saída do ex-CEO – assinala que o líder da fabricante pode, teoricamente, receber dois pagamentos.

A pensão de Winterkorn tinha já um valor de 28,6 milhões de euros (cerca de 32 milhões de dólares) no final do ano passado, diz este relatório, que não descreve as condições sobre as quais esta pode ser retida. Sobre determinadas circunstâncias, este pode ainda receber uma indeminização igual a dois anos de "remuneração", sendo que Winterkorn era o segundo CEO mais bem pago da Alemanha em 2014, auferindo um total de 16,6 milhões de euros em compensações.

Segundo as regras da empresa, se o quadro de supervisão determinar a saída antecipada do líder, há lugar à indeminização. Todavia, se o ex-CEO sair por uma razão pela qual é responsável, então este valor não lhe será atribuído. Tudo depende de como o conselho de supervisão da Volkswagen classificar a sua saída.

No comunicado da sua demissão, Martin Winterkorn disse que aceitava "a responsabilidade pelas irregularidades que foram encontradas nos motores diesel", tendo negado porém ter conhecimento "de qualquer irregularidade".

 

Nova liderança escolhida nas fileiras da Volkswagen

A discussão sobre quem será o novo CEO da Volkswagen terá lugar esta sexta-feira, 25 de Setembro, sendo que esta substituição tem cariz de urgência, dizem os analistas. Esta escolha "deve ser feita até sexta-feira porque nesta situação eles [Volkswagen] precisam de uma liderança forte que consiga lidar com os reguladores a nível global", diz Sascha Gommel, analista do Commerzbank, citado pela Bloomberg.

Entre os possíveis sucessores inclui-se Mathias Mueller, da Porche, que é apoiado por membros da família Porsche, detentora de participação maioritária na fabricante alemã, e Herbet Diess, ex-executivo da BMW e director de marca da Volkswagen.

Mueller, de 62 anos, tem liderado a Porsche desde 2010 e pode ser conduzido ao lugar de chefe-executivo da Volkswagem como CEO interino, cuja missão será estabilizar a empresa até que um novo candidato para o longo prazo apareça, diz Arndt Ellinghorst, analista da Evercor. Mathias Mueller iniciou a sua carreira na Audi como aprendiz de mecânico no início dos anos 1970, e o seu foco nos anos recentes tem andado longe quer desta marca quer da Volkswagen. O analista acrescenta ainda que, caso Mueller seja escolhido, ele poderá ser rapidamente substituído por Herbet Diess, de 56 anos, ou por Andreas Renschler, de 57 anos, director do sector de camiões da marca alemã. "Eles [Volkswagen] precisam de pessoas frescas, de um novo sistema. Precisam de se tornar mais flexíveis, e a cultura de liderança precisa de mudar", sustenta Ellinghorst.

Herbet Diess esteve 18 anos na BMW, tendo deixado a marca de automóveis de luxo em 2014, e Andreas Renschler, por sua vez, trabalhou durante 25 anos para a Daimler AG e entrou na Volkswagen em Fevereiro deste ano.

Outro dos nomes em cima da mesa é o de Winfried Vahland, de 58 anos, líder da Skoda, a marca checa detida pela Volkswagen, disse Sascha Gommel, analista do Commerzbank, salientando porém que é preciso ter em conta que "a Skoda é uma marca que também usava aqueles motores [que deram origem ao escândalo], pelo que pode não ser claro que ele [Vahland] não sabia de tudo isto".

O novo CEO terá como principal missão reconquistar a confiança de clientes e investidores e reconstruir uma marca muito penalizada por este escândalo. Em apenas três sessões em bolsa posteriores ao escândalo, a empresa perdeu a 26 mil milhões de euros.

Escreve ainda a Bloomberg que "uma cara completamente nova é improvável, dado que o poder de voto é detido por poucos accionistas", sendo que a Porche Automobil, detentora de 51% da Volkswagen, "não mostrou grande interesse em contratar alguém exterior à empresa".
 

Primeiros sinais do escândalo foram dados em Abril

Há seis meses a Volkswagen América enviou cartas aos seus clientes na Califórnia, detentores de carros Audi e Volkswagen, informando-os de um problema na "actividade do serviço de emissões" e pedindo que estes levassem os veículos à oficina da marca para instalar um novo software, noticia esta quinta-feira a Reuters.

Segundo a agência de informação, a empresa não explicou que estava a agir na expectativa de satisfazer as autoridades governamentais, cada vez mais cépticas sobre as discrepâncias entre os resultados laboratoriais e os testes reais sobre o nível de poluição destes carros.

Em Dezembro de 2014, as autoridades concordaram com um ‘recall’ voluntário dos veículos a gasóleo por parte da Volkswagen para resolver um problema que esta insistia ser técnico e de fácil resolução, algo que ocorreu durante vários meses e em todo o território norte-americano.

Na quarta-feira, o porta-voz das autoridades norte-americanas, Dave Clegerman, confirmou que a carta enviada aos clientes californianos foi "uma das medidas apresentadas como potencial solução" e que "não resultou".


Milhares de milhões para fazer face ao escândalo

A Volkswagen separou 6,5 mil milhões de euros para fazer face aos custos deste escândalo. Todavia, esta quantia pode não ser suficiente, uma vez que as coimas só em território americano podem chegar aos 16 mil milhões de euros, e já estão a correr investigações em diversas partes do globo.

Segundo o The Telegraph, além das autoridades norte-americanas, também o regulador ambiental do Canadá deu início a uma investigação, assim como o Governo alemão. As autoridades sul-coreanas já ordenaram a presença de representantes da marca e adiantaram que os testes aos veículos vão começar no próximo mês. O organismo regulador dos transportes da Nova Zelândia pediu esclarecimentos à Volkswagen sobre quantos veículos no país poderão ter sido afectados.  O eNews Channel Africa dá conta de uma nova investigação também no México.


A França e o Reino Unido exigem uma investigação a nível europeu, uma ideia que ganha peso depois do ministro dos Tranportes alemão ter admitido, esta quinta-feira, que os carros com motores a diesel com o mecanismo "manipulador" de emissões foram também vendidos na Europa, sendo que o número de carros comercializados será conhecido "nos próximos dias", disse, citado pelo The Guardian. Entretanto,
 Bruxelas incentivou os Estados-membros a levar a cabo investigações internas. "Convidamos todos os Estados-membros a conduzir investigações a nível nacional", disse Lucia Caudet, porta-voz da Comissão Europeia, citada pela Bloomberg.


"Os veículos produzidos em Portugal não tiveram a incorporação deste kit fraudulento", afirmou o ministro da Economia, António Pires de Lima, esta quinta-feira, 24 de Setembro, durante a conferência de imprensa do conselho de ministros. A garantia foi dada ao Governo português pela Autoeuropa, tendo o Pires de Lima garantido que o Executivo está a trabalhar com o IMT para "efectuar os controlos necessários para perceber se há alguma implicação desta fraude em Portugal".

Entretanto, a fabricante alemã criou um grupo de trabalho para analisar este caso, podendo as conclusões ser conhecidas já nos próximos dias, considerando que as investigações decorrem "a grande velocidade". Estas investigações visam apurar quem era responsável por programar os carros a gasóleo para detectar quando estavam a ser testados e alterar o desempenho do motor e ludibriar os testes, escreve a Reuters, adiantando que a Volkswagen começará a despedir as pessoas responsáveis por este escândalo a partir de sexta-feira, segundo duas fontes próximas desta investigação interna.

Este escândalo levantou suspeitas de que este tipo de prática seja generalizada no sector, o que levou a BMW, Toyota, Honda e Renault a negar tais práticas. 

 

Seat fabricou mais de meio milhão dos veículos com motores "manipulados"

A filial espanhola do consórcio alemão fabricou mais de 500 mil veículos, desde 2009, com os motores que estão em causa no escândalo da Volkswagem por virem equipados com um software que ludibria os resultados nos testes de emissões, avança o El País.

A empresa admitiu, por email, ter "instalado também os motores EA189 do grupo Volkswagen em alguns dos seus veículos", mas evita confirmar ou desmentir o número avançado pelo jornal espanhol esta quinta-feira.

A Seat adiantou ainda que os modelos actualmente à venda já não estão equipados com estes motores, escreve o El País. "Todos os veículos novos vendidos pela seat na União Europeia equipados com os motores EU 6 cumprem, sem excepção, os requisitos legaus e as normas ambientais".

A ponta do véu

Escreve o The Guardian que o Reino Unido, a França e a Alemanha tem sido acusados de "hipocrisia" por actuarem nos bastidores para manter os testes para emissões de carbono desactualizados, mas depois endurecerem o discurso relativamente à Volkswagen.

Apenas quatro meses antes de rebentar este escândalo, os três maiores países da União, escreve o The Guardian, fizeram força para manter brechas identificadas num teste concebido em 1970 e que deveria ser substituído em 2017. 

 

"É inadmissível que Governos que, de forma correcta, exigem uma investigação europeia à Volkswagen por ludibriar testes de poluição do ar, simultaneamente conspirem nos bastidores para que se continue a contornar os testes de emissões de CO2", diz Greg Archer, do 'thinktank' ambiental Transport and Environment (T&E).

 


(Notícia actualizada às 14h13)

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