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A ascensão e a queda do banqueiro dos ricos

Foi com as verbas da venda ao Totta do Gestifundo, que criou em 1986, que João Rendeiro fez fortuna e fundou o Banco Privado Português. Filho de sapateiro com loja em Campo de Ourique, o ex-banqueiro estudou e trabalhou em Inglaterra, de onde fugiu para África do Sul.

Luis Miguel Fonseca/Lusa
Ana Petronilho 13 de Maio de 2022 às 11:38
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João Oliveira Rendeiro foi o fundador e gestor do banco que nasceu em 1996 para gerir as grandes fortunas, o Banco Privado Português. Em vésperas de comemorar os 70 anos, foi encontrado morto na sua cela, na prisão de alta segurança em Westville, em África do Sul, onde estava preso desde 11 de dezembro de 2021.


Economista, filho de um sapateiro com loja em Campo de Ourique e com raízes familiares na Murtosa, João Rendeiro nasceu em Lisboa a 22 de maio de 1952 e estudou e trabalhou em Inglaterra, era doutorado pela Universidade de Sussex.


Em 1986, com 25 mil euros criou um fundo, o Gestifundo, para investimentos em mercados de capitais. Acabou por vender o Gestifundo ao Totta por 15 milhões de euros.


Foi com estas verbas que João Rendeiro acabou por fundar o BPP, a partir da compra da In-cofina ao BCP, com um grupo de investidores em que se destacavam Pinto Balsemão, a família Vaz Guedes e Joe Berardo. O BPP ficou conhecido pelo banco dos ricos, para admitir os clientes exigia o investimento mínimo de 1 milhão de euros, e do qual João Rendeiro foi afastado pelo Banco de Portugal 12 anos depois.


Nessa altura, em 2008, a crise financeira evidenciou muitas irregularidades e fragilidades do BPP. E depois da derrocada do Lehman Brothers e da redução do "rating" da agência Moody’s, João Rendeiro foi forçado a pedir uma ajuda ao Estado no valor de 750 milhões de euros, para salvar o banco da liquidez. O pedido não foi atendido pelo governo liderado, na altura, por José Sócrates.  


Também o Banco de Portugal, durante os mandatos de Vítor Constâncio e de Carlos Costa, investigou e condenou João Rendeiro ao pagamento de 1,5 milhões de euros, coima ainda por pagar. Já a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, de Carlos Tavares, sancionou o banqueiro com uma coima de 1 milhão aplicada, também por ser saldada.


Nos anos seguintes à sua saída do banco começou a ser alvo de três processos com acusações judiciais e dos supervisores, tendo sido condenado a penas de 10, 5 e 3 anos e meio de prisão por fraude fiscal qualificada, abuso de confiança e branqueamento de capitais num processo relativo ao Banco Privado Português. O colapso do banco lesou milhares de clientes e causou perdas de centenas de milhões de euros ao Estado, sendo que João Rendeiro terá desviado do BPP 13,613 milhões de euros.


Com o fim do prazo para todos os recursos para uma das penas, de 5 anos, que transitou em julgado, o ex-banqueiro conseguiu fugir do país em setembro de 2021, antes de ser detido. À data estava apenas com Termo de Identidade e Residência e informou a justiça portuguesa que iria passar uns dias de férias em Londres, tendo aproveitado a oportunidade para fugir de Inglaterra e anunciar que não voltaria a Portugal.


Depois de uma fuga à justiça que durou cerca de três meses, João Rendeiro acabou por ser preso a 11 de dezembro de 2021 num hotel de cinco estrelas, em Durban, na África do Sul. A PJ acredita que a fuga terá sido preparada durante vários meses. Nessa altura, fez saber que não tinha intenção de regressar a Portugal. Estava, desde então preso em Westville, enquanto aguardava pelo julgamento sobre o processo de extradição, que iria ter início em junho deste ano.


A sua mulher, Maria de Jesus Rendeiro, está em prisão domiciliária desde 2 de novembro de 2021 por suspeitas de crimes ligados às obras de arte do ex-banqueiro – das quais era fiel depositária - envolvendo indícios de descaminho, desobediência, branqueamento de capitais e de crimes de falsificação de documentos. Em causa estão 124 obras de arte apreendidas pelo Estado, para garantir o pagamento de uma indemnização do BPP.

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