Banca & Finanças Malparado como travão ao investimento: "Os bancos falharam nos projectos que financiaram”

Malparado como travão ao investimento: "Os bancos falharam nos projectos que financiaram”

No centro dos problemas mais profundos da economia portuguesa estão escolhas erradas feitas no passado, nomeadamente na alocação do crédito a sectores que já estavam em decadência, como a construção e o imobiliário.
Malparado como travão ao investimento: "Os bancos falharam nos projectos que financiaram”
Miguel Baltazar/Negócios
Nuno Aguiar 15 de março de 2017 às 18:51

Um dos principais travões actuais ao investimento em Portugal é a dificuldade de obtenção de crédito pelas empresas, em grande parte porque os balanços dos bancos estão sobrecarregados com crédito malparado. O que está na origem desse problema? Fernando Alexandre, pró-reitor da Universidade do Minho, identifica as escolhas erradas feitas pelas instituições financeiras como um factor determinante.

 

O académico nota que o peso da construção no PIB estava a cair desde 2000, mas os bancos continuaram a emprestar cada vez mais dinheiro a empresas deste sector, aumentando o peso que eles têm nos seus portefólios. "Se estes sectores estavam a perder peso, porque é que os bancos continuavam a financiar a construção e o imobiliário?", questionou, durante a sua intervenção na conferência "Investimento em Portugal", realizada na Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Hoje, mais de metade do crédito vencido das empresas tem origem na construção e no imobiliário. "Houve aqui um falhanço e é preciso ter noção disso. Os bancos falharam nos projectos que financiaram", sublinhou Fernando Alexandre.

 

Há vários motivos para que isto tenha acontecido. O investigador refere que as políticas públicas tiveram influência ao estimular estes sectores, através de várias iniciativas, como o programa polis ou a Parque Escolar e, agora, os incentivos à reabilitação urbana. "Não faltaram projectos para animar este sector, que é importante, mas não podia ter tido a importância que lhe foi dada em termos de crédito."

 

Além disso, Fernando Alexandre também atribuiu algum peso à influência que as empresas e os empresários do sector conseguiram ir adquirindo junto dos decisores políticos e criticou a falta de informação estatística que permita avaliar de forma mais rápida os possíveis desequilíbrios que se estão a desenvolver na economia portuguesa. Neste caso, a transferência de recursos para o sector não transaccionável, que é consensualmente citado como uma das maiores raízes por trás dos problemas estruturais da economia nacional.

 

Carlos Tavares, antigo presidente da CMVM e outro dos oradores na conferência, referiu outras justificações, como o facto de estes sectores possuírem activos reais, que podem dar como garantias, assim como as suas margens mais elevadas. Se estes sectores dão muitas vezes um contributo limitado para o crescimento da produtividade, como se explica que tenham margens mais elevadas? "A intensidade da concorrência. Estamos na cauda da Europa [neste indicador], o que significa que as empresas do mercado interno podem recolher rendas" com mais facilidade, afirmou. "O crédito foi preferencialmente encaminhado para os sectores que mais investiram, mas não os mais eficientes no investimento."




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