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Maria Granel: Grão a grão, a Maria torna o mundo mais sustentável

Mais do que um negócio, é uma missão. É assim que Eunice Maia descreve a mercearia biológica que fundou em 2015. A pandemia não travou o crescimento do projeto, que já chega a todo o país e terá, em breve, uma marca própria.

Vítor Mota
Ana Sanlez anasanlez@negocios.pt 31 de Maio de 2021 às 07:00
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Os passeios de fim de semana em Alvalade já se tinham tornado tradição familiar. Era no comércio com rosto e nome próprio do bairro lisboeta que Eunice Maia e o marido, ela minhota, ele açoriano, se sentiam menos engolidos pelo bulício da cidade. Quando decidiram abrir a Maria Granel, em 2015, só Alvalade fazia sentido. Passados seis anos, são eles que tratam os "queridos fregueses" pelo nome e conhecem-lhes os gostos.

O esboço do que viria a ser a Maria Granel começou a ser desenhado em 2013, estava ainda o país subjugado à troika. "Achámos que, numa altura de crise, fazia ainda mais sentido dar esta possibilidade de consumo às pessoas."  O casal embarcou então num périplo por vários países europeus, com o objetivo de perceber "de que forma o imaginário coletivo das mercearias de bairro a granel estava a ser modernizado e a comprometer-se com a sustentabilidade". As conversas com fundadoras do Reino Unido, Espanha e Itália foram "fundamentais" para inspirar o conceito que criaram em Portugal, lembra Eunice Maia, professora de Português e Literatura que, até 2013, "não tinha qualquer indício de que viria a ser merceeira, e muito menos comprometida com a sustentabilidade", uma vez que cresceu no seio de um "paradigma de consumismo", recorda. "Este projeto mudou a minha vida."

E é com ele que tem tentado mudar outras vidas. "O nosso trabalho vai muito além da parte comercial. É uma missão", começa por desvendar. Quando abriu portas, a Maria Granel vendia 240 alimentos biológicos e certificados. Hoje, nas prateleiras, caixas e dispensadores é possível encontrar mais de 1.600 produtos. Alguns são "estrela" e atraem clientes de propósito à loja. É o caso dos detergentes a granel, das misturas de especiarias e frutos secos, e do "raro" champô líquido a granel. "Para alguns produtos, temos vídeos que ensinam como fazer em casa, com excedentes, caso as pessoas não queiram comprar". Porque só assim é possível dar  corpo à missão de promover um consumo mais consciente, ressalva. "Quando  abrimos, convidámos logo os clientes a reutilizar os recipientes, o que foi um gesto arriscado na altura. Mas correu bem."

Apesar do sucesso, que levou à abertura de uma segunda loja em 2018, desta vez no bairro lisboeta de Campo de Ourique, o caminho da Maria Granel não tem sido livre de obstáculos. O Estado é responsável pelos mais difíceis de derrubar. "Há um grande contraste entre a legislação europeia e nacional no que diz respeito ao granel", explica Eunice. "Em Portugal, a tendência é para restringir. Foi um choque para nós." Em 2017, exemplifica, foi aprovado um decreto-lei que impõe a pré-embalagem do arroz, "o que não acontece em nenhum país europeu". Em França, compara, "é possível comercializar tudo a granel, desde que se garantam as condições de segurança alimentar".

Ao choque inicial, seguiram-se as mãos à obra. Juntamente com outras lojas de granel, enviaram uma carta de protesto para os vários ministérios competentes, para a Assembleia da República e para o Presidente. "Só o PAN questionou o Governo. Mas ainda estamos na luta." 

A próxima batalha já tem dia e hora marcada. No próximo dia 17 de julho, será lançado um evento digital que irá reunir o setor do granel em Portugal, em torno da causa das boas práticas de consumo. O objetivo é lançar as bases para uma futura associação nacional de lojas a granel, "que permita dar mais voz a estas empresas e alterar este estado de coisas que não faz sentido", aponta Eunice.

Investir na pandemia 
O apelo por uma regulação mais flexível surge numa altura em que o comércio a granel ganha cada vez mais seguidores. Com a pandemia e os confinamentos, a Maria Granel foi descoberta por novos "queridos fregueses".  "As pessoas estão mais tempo em casa e dedicam-se mais a cozinhar. Querem experimentar ingredientes novos e comprar em quantidades controladas." Ao mesmo tempo, o confinamento foi um atalho inesperado para a sustentabilidade, ao "confrontar as pessoas com o desperdício e os resíduos que produzem, levando-as a ter comportamentos mais conscientes". Por fim, durante a crise foi notória a "redescoberta e a revalorização dos laços com o comércio de bairro", nota Eunice.

Quando a covid-19 passou de ameaça a perigo real, a primeira preocupação na Maria Granel foi criar um plano de contingência que reforçasse a segurança alimentar. A segunda foi continuar a chegar a casa das pessoas. Apesar de nunca ter encerrado, alguns clientes deixaram de poder, ou de querer, entrar em lojas. Foi o gatilho improvável que faltava para Eunice dar início a um projeto que marinava há anos. "Rapidamente colocámos em prática a expedição de encomendas. Primeiro só em Lisboa, depois na Grande Lisboa. Fomos aumentando o raio até conseguirmos colocar tudo online. Hoje expedimos para todo o país." O investimento no site foi "considerável", admite a empresária, mas compensou. As vendas online já representam 40% do total do volume de negócios da Maria Granel.

Além da vertente comercial, os responsáveis quiseram verter para o site a componente educativa do projeto. A descrição dos produtos vem acompanhada por um relatório de desempenho ambiental e por informação sobre o seu ciclo de vida. Em paralelo, a Maria Granel tem hoje uma equipa de sete pessoas que calcorreia escolas e empresas para dar formação sobre consumo sustentável, uma continuação do trabalho feito nas redes sociais, num blogue e num podcast, e que no ano passado deu origem a um livro.

Em rascunho estão já os próximos capítulos da história da Maria Granel. O lançamento de uma marca própria já está a ser trabalhado, mas ainda não tem data para avançar. A abertura de mais lojas também não está descartada. "Sentimos muita pressão para abrir na Margem Sul, em Cascais e no Porto. Gostávamos de dar esse passo, mas o crescimento tem de ser ponderado e sustentável", reforça Eunice. Até lá, vão avançar novas parcerias com outras marcas e superfícies, incluindo a grande distribuição, "porque a mudança tem de ser feita com todos", para que nada se perca, e tudo se transforme.  
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