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"Cavalo alado" israelita tramou Whatsapp, El Chapo e talvez Khashoggi

O ataque pirata ao Whatsapp, que atingiu esta semana vários utilizadores da aplicação, foi feito com o mesmo programa israelita que permitiu prender um barão da droga mexicano e que pode ter levado ao assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

Ana Batalha Oliveira anabatalha@negocios.pt 18 de Maio de 2019 às 15:00
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O Whatsapp assumiu esta semana que uma tecnologia de espionagem israelita invadiu os dispositivos de vários utilizadores através da aplicação. Essa tecnologia foi desenvolvida por uma empresa israelita, a NSO, que criou um programa chamado Pegasus. Mas já não é a primeira vez que este "cavalo alado" anda nas bocas do mundo: já serviu para deter o barão da droga mexicano, El Chapo e, por outro lado, poderá ter ajudado no assassinato do jornalista saudita Khashoggi.

"A NSO cria tecnologia que ajuda as agências governamentais a prevenir e a investigar casos de terrorismo e crime, de forma a salvar milhares de vidas em todo o globo". Esta é a frase que abre o site da empresa israelita que desenvolveu o Pegasus. No mesmo site, a NSO explica que o software pode ser útil não só na prevenção do terrorismo, mas também para combater a pedofilia, resolver casos de rapto ou para ajudar salvamentos, em situações de emergência.

O "poder" do Pegasus está na capacidade de conseguir aceder ao conteúdo encriptado de qualquer dispositivo, incluindo o iPhone, garante a empresa israelita. Podem assim ficar a descoberto as mensagens e a localização do utilizador, para além de ser possível a ligação à câmara ou microfone do dispositivo. A Apple recusou-se a tecer comentários sobre estas possibilidades quando contactada pelo Financial Times.

E as "invasões" célebres do Pegasus sucedem-se. O mais recente incidente teve como protagonista a rede social Whatsapp, que viu a privacidade de vários utilizadores a ser quebrada. Os alvos, cujo número ainda não foi apurado, receberam chamadas e através delas receberam o código malicioso, mesmo que não as tenham atendido.

O Whatsapp garantiu que os respetivos engenheiros têm trabalhado ininterruptamente na solução deste problema. Já a empresa israelita disse também estar a investigar este assunto e ilibou-se: "a NSO não estaria envolvida sob nenhumas circunstâncias na operacionalização e identificação de alvos da sua tecnologia, a qual é apenas operada por agências de inteligência ou de aplicação da lei".

Barão da droga derrubado

Uma das invasões mais badaladas do Pegasus aconteceu em 2015 e permitiu a detenção de Joaquin "El Chapo" Guzmán, o líder de um cartel de drogas mexicano e um dos criminosos mais procurados, depois de ter conseguido escapar da prisão por mais de uma vez.

A captura de El Chapo foi possível depois de a NSO ter conseguido instalar o Pegasus no telemóvel de uma atriz mexicana, Kate del Castillo, a qual se encontrava em contacto  com o criminoso depois de este se ter mostrado interessado em que se fizesse um filme ou um documentário sobre a sua vida. Del Castillo convidou o ator Sean Penn para se reunirem com El Chapo e discutirem o assunto, um encontro que foi monitorizado pelas autoridades mexicanas com a ajuda dos técnicos da NSO. Apesar de terem decidido não atuar imediatamente para evitar danos de um eventual confronto, as autoridades mantiveram o controlo e, dois meses depois, conseguiram deter El Chapo.

Jornalista saudita apanhado 

A contrabalançar com os casos de sucesso estão as suspeitas de que o software possa estar a ser utilizado indevidamente pelos Governos que o compram, como forma de silenciar críticos, ativistas e jornalistas. Omar Abdulaziz, amigo do jornalista saudita Jamal Khashoggi, responsabiliza o Governo saudita pela morte do amigo e diz que o ataque terá sido possível depois de os governantes terem acedido através do Pegasus a mensagens trocadas entre Abdulaziz e a vítima. Abdulaziz terá mesmo avançado com um processo contra a NSO, de acordo com a CBS. O CEO da NSO, Shalev Hulio, negou as acusações numa entrevista ao mesmo meio de comunicação.

Jamal Khashoggi foi morto no passado dia 2 de outubro, quando entrou no consulado árabe em Istambul para obter documentação para casar com a sua noiva. A Arábia Saudita começou por assegurar que o jornalista tinha saído do consulado vivo, mas depois mudou de versão e admitiu que ele foi morto na representação diplomática numa luta que correu mal. Segundo a investigação turca, Khashoggi foi morto por um esquadrão de agentes sauditas que viajaram para Istambul com esse fim.

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