Consórcio à compra da Azores diz que júri "está ao serviço de uma narrativa"
O Atlantic Connect Group diz que a sua proposta tem "vantagens claras do ponto de vista financeiro, nomeadamente o facto de não exigir qualquer injeção de capital em 2026". São ainda apontados lucros "já em 2027".
O consórcio que concorreu à compra de uma posição maioritária de 85% na Azores Airlines já respondeu ao júri, afirmando que a recomendação de exclusão "assenta em fundamentos jurídicos errados e na aplicação de critérios que não constam do procedimento, traduzindo-se numa opção que está ao serviço de uma narrativa e não de uma avaliação objetiva".
Em comunicado, o consórcio, do qual fazem parte Carlos Tavares, Paulo Pereira da Silva, Tiago Raiano e Nuno Pereira, aponta que "o próprio relatório do júri reconhece que a proposta apresentada tem vantagens claras do ponto de vista financeiro, nomeadamente o facto de não exigir qualquer injeção de capital de 2026 e de perspetivar resultados positivos já em 2027".
O grupo dos quatro empresários não esquece, contudo, que lhes foi pedido "o triplo do preço inicialmente previsto por uma empresa com prejuízos entretanto agravados", e mesmo assim "o júri conclui que a proposta não cumpre os objetivos da privatização". Assim, o consórcio considera "manifestamente incoerente com os próprios dados constantes do relatório".
Outra dúvida levantada no relatório que o Atlantic Connect Group acha difícil de compreender é a avaliação de idoneidade. O grupo não consegue perceber como é que a entrada de dois empresários, um que esteve várias décadas ligado à indústria automóvel na PSA/Stellantis e outro no setor turístico e vinícola, permitindo a maior liquidez no negócios, leva a uma classificação negativa.
Considerando não existir explicação objetiva, o consórcio entende que a conclusão "contraria o senso comum económico e empresarial e aproxima-se perigosamente de uma apreciação injustificada e de natureza difamatória". Há ainda a questão de que esta "entidade pública lienante não deve assumir responsabilidades por decisões tomadas antes da privatização".
"As obrigações que caberiam à SATA Holding encontram-se devidamente identificadas, quantificadas e refletidas nos Relatórios e Contas da SATA Internacional, sendo, por isso, plenamente conhecidas e mensuráveis", adiantam.
Em termos do interesse público, a decisão é considerada "particularmente preocupante", uma vez que a proposta chumbada, dizem, "reduz o risco financeiro para os contribuintes e cria condições para a sustentabilidade económica da empresa". "Ignorar uma solução que protege, simultaneamente, o erário público, os trabalhadores e a própria Região Autónoma dos Açores é afastar-se dos verdadeiros objetivos de privatização", criticam os empresários.
O grupo admite ainda alguma estranheza em relação à "ligeireza com que o júri ignora os acordos alcançados com as estruturas sindicais e com os representantes dos trabalhadores", traçados antes da proposta ter sido submetida formalmente. "Sendo o maior ativo da companhia aérea, nenhuma mudança será bem-sucedida sem o seu envolvimento e apoio. Aparentemente, o sentido de responsabilidade demonstrado por pilotos e pessoal de cabine não tem valor aos olhos do júri, nem jurídica, nem económica, nem socialmente", reiteram.
Com o processo a decorrer nas instâncias regulares, o Atlantic Connect Group espera que o parecer seja "revisto à luz dos factos, das regras do procedimento e das necessidades reais da Azores Airlines". Mesmo com o carimbo vermelho no primeiro papel, o grupo de empresários portugueses mantém disponibilidade para "construir, em conjunto com os trabalhadores da companhia, um futuro sustentável de que todos se possam orgulhar", admitindo que não vai "abdicar dos seus direitos num processo que dura há cerca de três anos, e está preparado para os defender através de todas as vias legais, nacionais e internacionais".
De recordar que, aquando do conhecimento do relatório preliminar do júri, o secretário regional das Finanças dos Açores, Duarte Freitas, disse ao Negócios que existe "confiança em absoluto no júri", uma vez que existe a intenção e sentido de missão de "preservar o interesse público e da Região Autónoma". Ainda assim, Duarte Freitas assegurou que a Azores Airlines tem de sair do grupo SATA, daí ter sido pedido, e entretanto concedido, o prolongamento do prazo para a privatização da companhia açoriana, pelo que o plano B será avançar para uma negociação privada.
Um dos pontos em que Carlos Tavares, que tem sido um dos porta-vozes do grupo, não abdica é em deixar o passivo, que já se estimou em 600 milhões de euros, no Atlântico. Ao Negócios, Carlos Tavares reafirmou, no fim de janeiro, que "o que está em discussão é a forma de avaliar o passivo. Mas tudo isso tem de ficar do lado de lá, do Estado. Os calhaus do passivo não veem connosco”, atira.
(Notícia atualizada às 6h55)
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