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2022, o ano em que a Libor sai de cena após 45 anos de existência

A partir de 2022, a Libor não pode ser usada como referência em novos contratos. Mantém-se como referência para os 230 biliões de contratos que ainda permanecem indexados à taxa.

Os ativos britânicos foram particularmente pressionados pelo processo de negociação do Brexit.
Henry Nicholls/Reuters
Patrícia Abreu pabreu@negocios.pt 29 de Dezembro de 2021 às 11:36
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No final deste ano, os mercados despedem-se daquela que durante décadas serviu de referência a contratos financeiros milionários. Após vários escândalos de manipulação que acabariam por determinar a sua descontinuação, a Libor deixa de ser fixada no dia 31 deste mês. É o fim de um ciclo com 45 anos de existência.

 

A partir de dia 1 de janeiro, as instituições financeiras não poderão usar a Libor como referência em novos contratos de derivados, empréstimos ou créditos. A taxa mantém-se, porém, para os contratos existentes que ainda estão indexados à Libor, no valor de 230 biliões de dólares e cujos pagamentos dependem desta taxa.

 

Apesar da Libor sobreviver nestes contratos de milhões de milhões, 2022 é um ano marcante e que foi preparado com muito cuidado por bancos e reguladores nos últimos quatro anos, de modo a garantir que o fim da Libor não afeta o funcionamento dos mercados financeiros.

 

"É uma das maiores transições nos mercados financeiros em décadas", afirmou Dixit Joshi, do Deutsche Bank, ao Financial Times. "Este é um marco para os reguladores desde a grande crise financeira sobre lições aprendidas", acrescentou.

 

Apenas quatro anos após a crise do "subprime", em 2012, estalou um novo escândalo financeiro, quando os reguladores descobriram que alguns bancos – entre eles o Barclays, o UBS e o Citigroup –, em conluio, tinham conspirado para manipular a taxa de juro de referência, um escândalo que valeu uma coima de 9 mil milhões de dólares.

 

Em 2012, Tom Hayes foi acusado pela primeira vez pelas autoridades norte-americanas tendo-se tornado, desde então, o principal rosto deste caso de crime de mercado. Em 2013, foi ouvido num total de 82 horas pelo departamento britânico de combate à fraude, onde terá descrito o esquema que desenvolveu e nomeado alguns dos seus cúmplices.

Hayes terá iniciado o esquema de manipulação da Libor no Verão de 2006, quando trabalhava em Tóquio para o UBS, e apenas terminou esta prática após ser demitido do Citigroup em Setembro de 2010. O UBS terá tido, inclusivamente, um guia sobre como fixar a Libor.


Tom Hayes foi condenado a 14 anos de prisão após ser considerado culpado de conspiração na manipulação da taxa Libor, tendo a pena sido reduzida após um recurso de Hayes.

 

Mas o caso de manipulação da Libor teve repercussões bem mais graves. Corria o ano de 2017, quando o regulador britâncio, a FCA, liderado por Andrew Bailey, anunciou que a Libor iria acabar no fim de 2021, considerando a taxa insustentável.

 

A decisão anunciada por Bailey implicou a substituição da taxa em milhares de contratos. O principal problema residia no facto de não existir uma taxa que se posiciona-se como uma alternativa evidente à Libor, com as autoridades a proporem a sua substituição por taxas "overnight".

 

Enquanto no Reino Unido, a escolha recaiu na Sonia, uma taxa "overnight" usada no país, os Estados Unidos criaram uma nova taxa, a Sofr. Na Europa, a Ester (€STR), criada pelo Banco Central Europeu, é a taxa de referência de curto prazo.

 

Ao longo do último ano, vários reguladores foram avisando os bancos para prepararem a transição para o fim da Libor e deixarem de usar esta taxa em novos contratos. Em junho, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu vieram incentivar o setor financeiro para se preparar para o fim da Libor e tomarem a iniciativa de trocá-la por outro indexante, de modo a evitar problemas.

 

Apesar de todos os avisos das autoridades, ainda no início do ano havia ainda 265 biliões de dólares indexados à Libor, o que levou o Reino Unido e os Estados Unidos a permitir que os contratos existentes mantenham a Libor até meados de 2023, ainda que a taxa não posso ser usada em novos contratos.

 

Para manter estes contratos a FCA permitiu versões "sintéticas" da Libor em libras e em ienes pelo período de um ano. No entanto, a publicação diária do valor de cotação de 24 taxas Libor será interrompida no final deste mês.

 

Os contratos que mantiveram a Libor como indexante vão, assim, depender de versões temporárias da Libor.

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