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Cristina Casalinho 17 de Setembro de 2020 às 20:30

Novo velho conflito de gerações

Recentemente, num documentário dedicado à construção da nova biblioteca nacional da Finlândia, os seus responsáveis, ao descreverem o projeto, referiram a intenção de construção de um edifício destinado não a servir as necessidades das gerações atuais, mas das gerações futuras.

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Este é um propósito ambicioso e de difícil concretização face ao desconhecimento das necessidades futuras -  além da intenção abstrata de melhoria da qualidade de vida. Também não deixa de ser curioso que esta ambição de resposta a aspirações de gerações futuras aconteça num país com população em rápido envelhecimento. A demografia, na vertente envelhecimento populacional, tem vindo a ganhar pertinência na discussão política e económica justificadamente.

 

Ainda, em agosto último, o anterior presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, salientou o impacto da atual crise e dominantes tendências macroeconómicas na vida das populações mais jovens, destacando a urgência de investimento nos jovens, designadamente com respeito ao acesso à educação, condição determinante para fazerem face aos desafios do futuro, os quais exigirão maior capacidade de discernimento e adaptação. Evidenciou o fardo que o elevado peso da dívida atual constitui para as gerações futuras, agravando a desigualdade intergeracional, caso estes fundos não sejam orientados para fins produtivos potenciadores de aumento do crescimento económico e melhoria de rendimento/qualidade de vida. Aliás, o Banco de Portugal, num estudo recentemente divulgado, realçou a relação entre demografia e desigualdade social em Portugal. À semelhança de outras economias desenvolvidas: as gerações mais velhas desfrutam de maior rendimento que as gerações mais novas em igual fase do ciclo de vida. Acresce que populações universitárias que entrem no mercado de trabalho em ano de crise económica terão ao longo da vida rendimentos mais baixos que entrantes no mercado de trabalho em fases de expansão. Uma das explicações para esta evidência e a incapacidade de esbatimento do diferencial de rendimentos no tempo reside na maior disponibilidade desta população para aceitar empregos com salários mais baixos dada a sua escassez, condenando-os a uma zona inferior da distribuição de rendimentos ao longo da vida.

 

Para além dos desafios do mercado de trabalho, dada a evolução dos preços dos ativos reais explicados pelas baixas taxas de juro, a geração mais jovem defronta-se também com elevados preços das habitações, empurrando-os para as periferias dos centros urbanos e/ou para o prolongamento da permanência na casa dos pais, adiando, por exemplo, decisões de natalidade. Acresce que dadas as características dominantes dos sistemas de segurança social nas economias desenvolvidas (sistemas de repartição), as populações mais jovens poderão antecipar o pagamento de mais impostos para fazer face ao incremento das despesas com envelhecimento (pensões com agravamento do rácio de dependência e despesas de saúde). Naturalmente, esta discussão tem vindo a ter tradução nas escolhas políticas das populações mais jovens vs. mais velhas. Por exemplo, nos EUA, os eleitores de Trump relativamente mais velhos e, no Reino Unido, no referendo à participação na União Europeia, os eleitores jovens votaram claramente a favor da permanência. Dado o peso da população mais velha, as escolhas eleitorais e consequentes orientações económicas tendem a refletir as suas preferências e preocupações. Ora, a proposta das autoridades finlandesas e algumas das linhas orientadoras da presente Comissão Europeia no respeitante às intenções relativas à melhoria do estilo de vida e à transição climática parecem nortear-se pela preocupação com o legado, enfatizando temas ambientais, de sustentabilidade e digitalização, tradicionalmente com maior tração entre os mais jovens.

 

Finalmente, independentemente do acréscimo da visibilidade e relevância de assuntos mais caros às populações mais jovens na agenda política, mitigando fatores de desigualdade, algumas macrotendências emergentes, como a reindustrialização conjugada com o declínio demográfico, podem atenuar naturalmente os efeitos do "conflito intergeracional". O relativo retrocesso da globalização num contexto de acrescida automação, pela criação potencial de mais postos de trabalho com maior valor acrescentado num mercado laboral rarefeito, potencia progressos ao nível de redução de desigualdades.

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