João Costa Pinto
João Costa Pinto 30 de setembro de 2019 às 19:30

Lagarde e os dilemas do euro - (II)

Para os aforradores da Europa do euro - em particular famílias e aforradores individuais - o “efeito riqueza” que está ligado à remuneração dos depósitos bancários é negativo, enquanto o “efeito liquidez” sobre a procura depende fortemente da oferta de crédito por parte dos bancos.

1. Já depois de ter escrito o último artigo, o BCE reduziu para -0,5% a taxa dos depósitos dos bancos e relançou as operações de QE (*). O FED por sua vez cortou em 0,25% o custo dos fundos federais e injectou liquidez no mercado monetário.

 

Com estas medidas, o FED procura antecipar-se às pressões que ameaçam a economia: "guerras das tarifas", instabilidade no Médio Oriente, Brexit. A acção do BCE é, por sua vez, uma resposta à desaceleração do crescimento na Zona Euro que ameaça acentuar-se com o risco crescente da entrada em recessão da economia alemã.

 

O quadro em que o BCE procura estimular a actividade económica apresenta-se particularmente complexo, devido à convergência de dois tipos de factores: por um lado, a acção do BCE permanece isolada, dada a ausência de estímulos orçamentais; por outro, o impulso sobre a procura das suas medidas da política monetária é enfraquecido pelo funcionamento do mecanismo de transmissão implantado nos mercados do euro.

 

Compreendemos as implicações desta questão para a Europa do euro se analisarmos os canais por onde transitam os impulsos das acções de ambos os bancos centrais.

 

No caso do FED tais impulsos são sobretudo transmitidos via mercados de capitais. Os cortes das taxas de juro e as injecções de liquidez têm um duplo efeito: um chamado "efeito riqueza" decorrente da valorização dos activos financeiros detidos pelos aforradores/investidores e um "efeito liquidez" que favorece as condições de financiamento. Como resultado, verifica-se um estímulo directo sobre a procura agregada - consumo e investimento - e sobre o crescimento da economia. Em contrapartida, nas economias do euro os estímulos das decisões do BCE são sobretudo canalizados através dos mercados bancários - via balanços dos bancos. O "efeito riqueza" - valorização dos activos - favorece sobretudo os detentores de dívida pública: bancos e investidores institucionais. Para os aforradores da Europa do euro - em particular famílias e aforradores individuais - o "efeito riqueza" que está ligado à remuneração dos depósitos bancários é negativo, enquanto o "efeito liquidez" sobre a procura depende fortemente da oferta de crédito por parte dos bancos. No entanto, os cortes das taxas de juro para níveis negativos está, por sua vez, a contribuir para acelerar o movimento de reconfiguração do negócio e dos mercados bancários, com acentuado prejuízo do financiamento do investimento e da inovação. Deste modo o impacto global sobre a procura - consumo e investimento - é reduzido, enquanto se verifica uma acentuada distorção do risco.

 

2. Compreendem-se, neste contexto, as dúvidas de um número crescente de governadores dos bancos centrais do euro, quanto à eficácia marginal de novas medidas, tomadas no âmbito da política monetária não convencional lançada com grande coragem por Draghi. Num quadro em que a política orçamental continua ausente, o ainda governador do BCE levou a acção da política monetária ao limite. Deixa como herança uma situação de grande complexidade em que o BCE e o euro vão precisar de toda a experiência política de Lagarde (a continuar). 

 

(*) - QE - Quantitative Easing

 

Economista

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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