Eduardo Graça
Eduardo Graça 23 de maio de 2018 às 20:31

Economia social: cooperação, reciprocidade e solidariedade

Só seremos verdadeiramente autênticos quando formos capazes de refletir coletivamente acerca dos novos caminhos e oportunidades, que em cada época se abrem diante dos nossos olhos.

Refletindo sobre o contributo da economia social para o desenvolvimento, surgem algumas palavras-chave acerca do papel deste setor no futuro, mau grado todos os incidentes de percurso, e das suas diferenças e vantagens comparativas face aos setores público e privado de propriedade dos meios de produção. 

 

Rede - a economia social é uma rede, tecida de mil elos que se entrelaçam através de pessoas que se organizam, com ou sem apoio público, para enfrentar situações de carência, encontrando soluções, superando obstáculos e problemas da vida individual, familiar ou comunitária.

 

Comunidade - a economia social está inserida nas comunidades locais e regionais confundindo-se com a sua geografia física e humana. Está próxima dos cidadãos, é mais flexível na ação do que as organizações do setor público descentralizado e, paradoxalmente, do que muitas empresas privadas, agindo, em fidelidade aos seus princípios fundadores, de forma livre e desinteressada.

 

Cooperação, Reciprocidade e Solidariedade - as palavras baluartes que encerram os valores que norteiam a economia social e que, mais tarde ou mais cedo, serão incorporados, de forma efetiva, num novo modelo emergente da organização económico-social das sociedades contemporâneas.

 

O aumento sistemático das desigualdades entre grupos sociais no interior de um mesmo país, e entre as populações dos diversos países, tende não só a minar a coesão social - pondo em risco a democracia -, mas tem também um impacto negativo no plano do desenvolvimento económico-social com a progressiva corrosão do "capital social", isto é, do conjunto de relações de confiança, credibilidade e respeito das regras, indispensáveis em qualquer convivência civil.

 

Ao lado da empresa privada orientada para o lucro e dos vários tipos de entidades públicas, devem poder radicar-se e exprimir-se as entidades da economia social, vocacionadas para a produção de bens e serviços transacionáveis e/ou para a persecução de fins sociais e filantrópicos, em todos os casos não buscando o lucro, sem deixar de almejar a geração de excedentes que retornam ao próprio empreendimento.

 

Do confronto na sociedade, e no mercado, de todas as formas de entidades consagradas na Constituição da República (pública, privada e cooperativa e social), pode esperar-se uma espécie de hibridização dos comportamentos de cada uma e, consequentemente, uma atenção sensível à civilização da economia, incorporando os valores que são a marca da economia social.

 

Só seremos verdadeiramente autênticos quando formos capazes de refletir coletivamente acerca dos novos caminhos e oportunidades, que em cada época se abrem diante dos nossos olhos por entre diferenças e desigualdades, potenciando as virtualidades dos valores da cooperação, reciprocidade e solidariedade que asseguram a esperança do sucesso da luta contra as injustiças que se escondem por trás da pobreza e da desigualdade. Acreditamos que é possível lutar pela igualdade de oportunidades, pela ética na gestão das empresas e das instituições, em liberdade e com responsabilidade.

 

Por isso, pretendemos reafirmar a convicção de que a nossa época, portadora de uma crise profunda do sistema capitalista, tendo vindo a revelar, de forma brutal, uma crise de consciência e de valores, é também uma época de novas esperanças e oportunidades para o desenvolvimento humano.   

 

Homenagem a Paul Singer

 

Realiza-se no próximo dia 4 de junho, pelas 17 horas, uma homenagem a Paul Singer, com a apresentação do seu livro "Ensaios sobre Economia Solidária". A sessão ocorrerá no espaço atmosfera m, da Associação Mutualista Montepio, em Lisboa (rua Castilho, 5).

 

A apresentação do livro será feita pelos professores universitários Rui Namorado (autor do prefácio), Jorge de Sá (presidente do CIRIEC Portugal) e Dimas Gonçalves (presidente do CIRIEC Brasil). A entrada é livre.

 

Falecido no passado dia 16 de abril, o professor Paul Singer foi um dos principais precursores da economia social e solidária no Brasil.

 

Centro Torriense de Estudos de Economia Social

 

No passado dia 10 de maio, foi assinado o auto de constituição e ata de início de funcionamento do Centro Torriense de Estudos de Economia Social (CTEES). Esta iniciativa resulta de uma parceria entre o município de Torres Vedras, o CIRIEC Portugal e o REVES - Réseau Européen de Villes de l'Économie Sociale.

 

O CTEES tem como objetivo apoiar a promoção da economia social em Torres Vedras e funcionará como delegação do CIRIEC Portugal e do REVES. A coordenação das atividades do CTEES ficará a cargo do Padre Vítor Melícias e do Professor Luís Reto, em direta ligação com as entidades parceiras.

Presidente da Direção da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES)

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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