Edson Athayde
Edson Athayde 16 de julho de 2019 às 18:45

A verdade segundo o meu Tio Olavo

Acabo de tomar o café e peço a conta. Saio da pastelaria deixando o meu Tio à mesa. Embora ela, a mesa, esteja vazia, sei que ele lá está. Esta é a minha verdade mesmo que de mentira.

O meu Tio Olavo anda ocupado com o conceito de "verdade". Logo ele, um personagem de ficção. "Isto é o que dizes, sobrinho ingrato", retruca o velho, "Para mim sou mais do que real", resmunga enquanto pede mais um abatanado ao empregado do café onde estamos.

 

Tio Olavo tem lá alguma razão. O que é preciso para ser real hoje em dia? Ele consegue cumprir vários requisitos. Se pesquisar no Google, ele aparece. E quase sempre a proferir pensamentos mais inteligentes do que os meus. Há anos. Aliás, Tio Olavo já existia antes do Google. Tio Olavo é do tempo do Alta Vista.

 

"Naquela época, a internet era tudo mato", regozija enquanto tenta tirar uma "selfie" para ver como fica com cara de jovem através do FaceApp. "Veja bem, já nasci idoso. Deverias ter-me criado mais cedo, perdi os melhores anos da minha vida no limbo..."

 

O aplicativo FaceApp encanta-o. Tratando-se da primeira ferramenta de "deep fake" ao alcance popular, será lembrada daqui a alguns anos. Ainda vamos perguntar a um amigo durante uma festa em que falta assunto: "Onde estavas quando baixaste o FaceApp pela primeira vez?"

 

"É o futuro, é o futuro a invadir as nossas vidas", complementa meu tio. "Dizem que o futuro pertence a quem acredita na beleza dos seus sonhos. Balela. Ele é sempre mais feio do que o imaginamos. Certo estava Victor Hugo: utopia hoje, carne e osso amanhã".

 

Voltando ao conceito de "verdade", ele mostra-me um "meme" no "timeline" do seu Facebook. "Vê: é um bom resumo da ópera." No ecrã do smartphone leio: "Se uma pessoa diz que chove e outra diz que não, o seu trabalho como jornalista não é dar voz a ambas. É abrir o raio da janela é ver se está a chover, bolas!"

 

O meu tio é do tempo em que a "verdade" era apoiada em informações racionais. Ele é tão antigo que ainda se lembra de quando a Terra era redonda. Tanto é assim que ele tem alergia às caixas de comentários dos jornais. "O Trump e o Bolsonaro são caixas de comentários que andam."

 

"Conheces a parábola do encontro da Mentira com a Verdade?", pergunta-me com um ar desafiante. Apesar de conhecer, finjo que não. Deixo que conte mais uma vez:

 

"A Mentira e a Verdade estavam a passear à beira de uma lagoa muito bonita. Como estava calor, a Mentira convidou a Verdade para um mergulho. Esta hesitou. A Verdade sabia-se gorda e pelancuda. Porém, acabou por aceitar o desafio. Despiu-se e mergulhou. Foi quando a Mentira lhe roubou os trajes e fugiu para a vila disfarçada de Verdade. Esta foi ao seu encalço, assim mesmo toda despida. Ao ver as duas, a Mentira mascarada de Verdade e a Verdade em pelo, os moradores não tiveram dúvidas: apedrejaram a Verdade e levaram a Mentira para casa. É a que a Verdade é muito feia quando nua."

 

Rimos os dois. Acabo de tomar o café e peço a conta. Saio da pastelaria deixando o meu Tio à mesa. Embora ela, a mesa, esteja vazia, sei que ele lá está. Esta é a minha verdade mesmo que de mentira.

 

Publicitário e Storyteller

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