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Edson Athayde 11 de Março de 2020 às 09:50

Quando dois mais dois são cinco

Pode ser que a atual epidemia seja mesmo o marco regulatório que estabeleça uma verdade que não quer calar: mais da metade do que fazemos (ao menos no que toca aos que trabalham em serviços) poderia ser feita a partir de casa.

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Em tempos de corona, o teletrabalho está cada vez mais “in”, enquanto escritórios em “open space” estão mais “out”. Nômades digitais de todo o mundo regozijam enquanto exclamam: “Nós bem que avisamos que o futuro era connosco.”

Pode ser que a atual epidemia seja mesmo o marco regulatório que estabeleça uma verdade que não quer calar: mais da metade do que fazemos (ao menos no que toca aos que trabalham em serviços) poderia ser feita a partir de casa.

Olha para o fim de uma era em que o contacto humano era fundamental com um misto de tristeza e euforia. Lidar com gente sempre foi difícil. Negociar olho no olho as tarefas de um projeto é algo que pode fazer crescer dentro de nós o ser das cavernas que um dia fomos.

Lamento, por exemplo, a morte anunciada das duplas (ou trios ou quartetos) profissionais.

Como diz o meu Tio Olavo: “Um homem sozinho não é nada. Nem corno pode ser.” Já Yoko Ono afirmou: “Um sonho sonhado sozinho é sonho. Sonhado junto é realidade.” E o macambúzio Albert Camus complementou: “Não é vergonha ser-se feliz. Vergonha é ser feliz sozinho.”

Nenhum homem é uma ilha, é sempre arquipélago. Família, amigos, companheiros de rota: vivemos para o olhar do outro, precisamos da mão do outro, respiramos o ar que o outro nos permite.

Melhor ainda quando o outro for alguém que connosco forma um duo, uma parelha, um par. Quando a soma de duas individualidades multiplica o talento, potencializa ideias, maximiza ações.

Não estou a falar de casais. Nada contra, mas a junção afetiva e carnal é outro território, um tema diverso que não queria aqui tratar. Estou a falar de duplas profissionais.

Há duas séries na plataforma HBO que mostram a dor e a delícia da coisa: “Fosse/Verdon”, que narra as batalhas entre o realizador e coreógrafo Bob Fosse e a sua companheira de vida, a atriz Gwen Verdon, e “Feud”, uma deliciosa série sobre a rixa entre as divas de Hollywood Bette Davis e Joan Crawford.

Bob Fosse era puro génio do mal. O que tinha de talento, e era muito, tinha de insegurança. Construiu o seu sucesso a aproveitar as ideias, o apoio, a dedicação de Verdon. Em troca, ao longo de décadas, retribuiu cada vez menos a Verdon até que decidiu passar a dar rigorosamente nada. Ao contrário, sabotou a carreira da ex-esposa. Morreu, sem remorsos, nos braços de cuja parceira foi também algoz.

 

Negociar olho no olho um projeto é algo que pode fazer crescer dentro de nós o ser das cavernas que um dia fomos.



A série é estupenda. Mais ainda para quem gosta de musicais e assistiu aos clássicos realizados por Fosse nos anos 70: “Cabaret” e “All That Jazz”.

Já “Feud” parte doutro lugar. Bette e Joan eram inimigas e rivais. Passaram décadas a disputar tudo: papéis, holofotes, prémios, convites para festas e o que mais imaginar. Já no ocaso das carreiras de ambas um script as reuniu naquele que seria o último grande sucesso de ambas.

“Feud” retrata muito bem o quanto duas mulheres podem ser cruéis uma com a outra. Ou como duas pessoas podem viver uma relação simbiótica e mesmo assim optarem pelo extermínio mútuo. Pelo meio, a competitividade estimula o talento, resultando em performances arrasadoras (apesar dos danos colaterais).

Posso dizer que já vivi situações em parcerias próximas das descritas nas duas séries. Não me arrependo delas, mas também não morro de saudades. Foram boas, mas dolorosas. Como a vida costuma ser.

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