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Edson Athayde 29 de Julho de 2020 às 09:20

Quem cancela os canceladores?

Contar com o bom senso coletivo é em si um paradoxo. As massas nunca são razoáveis. Quem hoje é pedra amanhã poderá ser vidraça. Como nos linchamentos da vida real, a probabilidade de erros serem cometidos são imensas.

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No mundo virtual existe uma coisa pior do que a morte. Chama-se "cancelamento". De uma hora para outra, por algo que disse ou que publicou, o tribunal da web delibera uma condenação sumária, sem direito a qualquer tipo de defesa ou recurso.

 

Para ser cancelado não precisa ser famoso (mas ajuda). Você pode ser cancelado no grupo de WhatsApp da escola, no fórum online da empresa, pelos seus vizinhos de condomínio. As consequências costumam ser nefastas.

 

Ser uma pessoa cancelada é o mesmo que ser uma não-pessoa. Os seus direitos a um trabalho remunerado, ao exercício da profissão que estudou, a ir e vir em espaços públicos podem deixar de valer. Por um tempo ou para sempre.

 

Os canceladores não são necessariamente gente má, que passa os dias em frente ao computador, em roupa interior de três dias, a comer pizzas frias, de tocaia à espera de um deslize alheio. Na outra ponta, os cancelados não costumam ser pessoas inocentes, que tiveram o azar de dizer algo que soou errado no momento errado.

 

Há de tudo um pouco. Há boas pessoas que entram num movimento de cancelamento pelos melhores motivos do mundo, para fortalecer causas virtuosas, para defender fracos e oprimidos. Como também há racistas, xenófobos, machistas, homófobos, snobes que bem merecem punições pelas maldades que dizem ou fazem por aí.

 

Mas, eis o busílis, há monumentais equívocos. Um exemplo: em junho, Emmanuel Cafferty, um cidadão da Califórnia, perdeu o emprego porque estava a estalar as juntas dos dedos da mão enquanto aguardava que um semáforo abrisse. Inadvertidamente, formou o sinal de "ok" algumas vezes. Um outro motorista viu e interpretou o gesto como uma ostensiva demonstração de apoio ao movimento de supremacia branca (para quem não sabe, o sinal de "ok" foi cooptado pelos supremacistas; o problema é que nem toda gente recebeu o memo a avisar disto). Zangado, o tipo tirou uma foto da mão de Cafferty, publicou nas redes sociais sob a alegação de racismo. Com isto Cafferty teve a vida roubada.

 

Outra história: um grupo de 150 grandes intelectuais e artistas de várias partes do planeta recentemente assinou uma carta aberta a denunciar a intolerância dos nossos tempos. Em meio a gente do porte de Noam Chomsky, os escritores Martin Amis e Salman Rushdie e o músico Wynton Marsalis estava a autora de Harry Potter, J. K. Rowling, o que gerou um grande mal-estar. É que J. K. encontra-se cancelada pela comunidade LGBTQI+ devido a comentários de teor transfóbico. Em vez de apaziguar o mundo, a carta só provocou acusações mútuas de hipocrisia e mais cancelamentos.

 

O certo é que a cultura de cancelamento é um problema real que cedo ou tarde irá bater à sua porta. Contar com o bom senso coletivo é em si um paradoxo. As massas nunca são razoáveis. Quem hoje é pedra amanhã poderá ser vidraça. Como nos linchamentos da vida real, a probabilidade de erros serem cometidos são imensas.

 

Para quem não sabe, o verbo "linchar" vem de uma tal de "Lei de Lynch", atribuída a um militar americano de mesmo nome, que era radical nas penas que executava. A primeira derivação da "Lei de Lynch" foi a forma como os indígenas foram exterminados nos EUA. Para eles não havia compaixão, apenas pólvora. A segunda derivação veio pela mão da KKK. Linchar é e sempre foi sinónimo de impiedade disfarçada de justiça. Se a cultura de cancelamento bebe dessa fonte turva de intolerância, não pode cheirar bem nem resultar, no longo prazo, em algo bom para ninguém.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "O linchamento raramente acontece por falta de moral e sim por falta de espelho". 

 

Publicitário e Storyteller

 

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