O país dos Ronaldos
Quando surgem elogios destes, vindos de quem, em momentos críticos, conseguiu sempre causar problemas a Portugal com as suas declarações fora de circunstância e de tempo, é caso para ficarmos com pele de galinha. Porque, na linguagem futebolística, Schäuble aproxima-se mais de um trinco do que de um médio criativo. Por isso não se sabe se este elogio não é uma rasteira a Centeno, para este, julgando-se um craque que tudo pode decidir, acabar por falhar o remate em cima da linha de golo.
Até pode ser que Schäuble ache que Centeno pode ser o goleador que falta ao Ecofin, conclave de onde muitas vezes surgiram das mais tenebrosas ideias para afundar os países da periferia europeia. Este elogio a Centeno pode ser, por isso, um doce envenenado destinado a empanturrar de orgulho o ego nacional. Não o deixando ver o que é importante. No meio da vaga optimista que parece estar a solidificar-se na elite política nacional, talvez se esteja a festejar tudo como se, por trás das "felicitações de muitos" (como dizia o secretário de Estado, Mourinho Félix), não houvesse muitas vezes um vudu qualquer.
PUB
Não há aqui qualquer teoria da conspiração, mas sabemos que Portugal, apesar dos resultados surpreendentes dos últimos tempos, continua a ser visto como uma ovelha negra pelo sector político que é hegemónico na Europa. Se uma imagem capturasse o espírito do tempo, a política portuguesa era o Capuchinho Vermelho. Mas todas as imagens revelam um engano: a avozinha já foi comida pelo lobo e este prepara-se para trinchar o Capuchinho Vermelho. Não falta vontade à Europa da ideologia da austeridade para cilindrar uma alternativa política que vai contra os cânones reinantes. Por isso, o elogio ao país de Ronaldos soa a falso. Como se fosse uma piada básica. Que, em vez de divertir, arrepia.
PUB
Grande repórter
Mais Artigos do autor
Mais lidas
O Negócios recomenda