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Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 11 de Maio de 2017 às 20:50

O futuro do trabalho. Haverá?

O trabalho e o emprego tal como o viram gerações passadas desapareceu. Fruto da tecnologia, da globalização, das chamadas "reformas" e de conceitos ideológicos que criaram esta lógica de pretensa liberdade de escolha de cada indivíduo.

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Tudo isto tem contribuído para o fim anunciado do Estado social e dos sistemas de pensões como os conhecemos desde o pós-guerra. Não há sociedades imutáveis. E deixou de haver empregos para toda a vida. As altas taxas de desemprego vão continuar ligadas a um nivelamento por baixo de rendimentos. Tudo isso também coloca em causa a sociedade de consumo como a conhecemos. Por isso resulta quase patético ver como políticos com responsabilidades vão continuando a não enfrentar este problema com seriedade.

 

Há dias, o milionário Carlos Slim deu uma entrevista ao "Clarin", de Buenos Aires, em que dava achegas muito interessantes para o tema. Dizia ele: "Há uma mudança civilizacional acelerada e os governos devem conduzi-la. Mas não o fazem e por isso começa a haver reacções fundamentalistas, populistas e racistas. O desenvolvimento económico vai permitir que as pessoas trabalhem menos tempo. Propus que se trabalhe três dias por semana em jornadas de 11 horas e que as pessoas se reformem aos 75 anos, porque cresceu a esperança de vida. Isso faz parte de um plano para promover e capacitar as pessoas para novas actividades como o turismo, o entretenimento, a educação, a saúde, que vão implicar mais emprego. Por aí passam os novos negócios, aplicando as novas tecnologias em actividades tradicionais. Que é a Uber, senão tecnologia de ponta num negócio velho como os táxis?" As ideias de Slim deveriam merecer reflexão, embora se coloquem questões complicadas: será possível criar empregos em actividades paralelas que correspondam aos que se vão perder com a robotização de muitas profissões na área industrial e de serviços? E como se garantirá rendimentos decentes para quem não vai conseguir ter trabalho?

 

Cruzemos isso com o que escrevia Gillian Tett no "Financial Times": ela recordava que Michael Milken, o poderoso ex-rei das "junk bonds" que se tornou filantropo, dissera numa conferência que era um erro pensar que eram as grandes empresas (como a Walmart, a GM ou a IBM) os maiores empregadores nos EUA. Excepto a Walmart, as oito seguintes da lista eram entidades de "equity" privadas, como a Carlyle, a KKR ou a Blackstone. Só a Carlyle deveria ter cerca de 700 mil empregados no seu catálogo de empresas. Ou seja toda a lógica de empregos de que Donald Trump fala parece ser uma redundância. Estamos a viver tempos muito estranhos e no campo do trabalho eles parecem ainda menos transparentes. Seja como for todos temos a certeza que o valor do trabalho dissolveu-se e que hoje, sobretudo nas zonas periféricas (como Portugal), as "reformas" conduziram o contrato social que assentava numa relação estável entre empregadores e empregados a um beco com poucas saídas. E onde o Estado está carenciado de respostas e de meios para fazer face a estes novos desafios. Que merecem ser discutidos com seriedade. 

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