Relvas, o quase Ripley
Miguel Relvas foi a nossa tentativa de ter um talentoso Mr. Ripley. Falhou a interpretar tão delicado papel. A principal competência de Ripley sempre foi a rapidez com que conseguia sair de situações complicadas e de trocar de identidade como quem mudava de roupa. Em tempos de culto ao mercado, em que a oferta e a procura se encontram, este era o homem certo se Ripley fosse governante. Mas não foi.
Relvas tentou vestir o fato de Ripley, mas não se consegue copiar o talento. Nos seus deslizes e erros simbolizou a política de hoje. Não era disso que precisava o Governo, cujo maior défice desde o início foi a insolvência da direcção política e de comunicação. Não que isso fosse contrário à política do Governo, que acredita ainda que pode governar sem necessidade de ter de se explicar e que basta ter boas desculpas e inimigos fáceis como o Tribunal Constitucional.
No fundo, Relvas foi o espelho da improvisação geral de quem não teve tempo para aprender a governar. A questão da licenciatura só é relevante num governo que nunca se licenciou na arte da governação. Foi sempre um coro desafinado onde Miguel Relvas era um maestro à procura da batuta. Disfarçava isso tentando ser Ripley, mas nunca conseguiu concretizar o essencial da acção governativa destes tempos modernos, em que convencer é muito mais importante do que fazer.
Toda a estratégia de choque do Governo, para impor de forma irreversível as mudanças em tempos de crise (seis meses, segundo Friedman), falhou. Relvas era afinal um Ripley sem talento. E por isso abdicou de o ser, antes do Governo procurar alhures culpados para disfarçar os seus erros e impor definitivamente o que a troika quer.
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