O princípio da proporcionalidade
O que cria o problema de proporcionalidade na partilha de custos entre cidadãos não resulta de cada um dos estados de exceção, mas do seu conjunto.
As medidas de confinamento adotadas nos sucessivos estados de emergência são provavelmente as possíveis, e nesse sentido também as adequadas, e baseiam-se na experiência de outros países e dos especialistas na área de saúde. A sua motivação parece ser a proteção do bem comum.
Os custos das medidas adotadas nos sucessivos estados de exceção, porém, são distribuídos de forma assimétrica na sociedade. Em particular algumas atividades, empregos e rendimentos são relativamente pouco afetados. Enquanto outros sofrem perdas quase totais.
Nas atividades em que é possível o teletrabalho e em que as estruturas financeiras são fortes, as perdas têm sido absorvidas pelos balanços das entidades empregadoras. E no caso do Estado por aumento do défice e dívida. Que será pago a prazo por todos, beneficiem ou não de proteção agora.
O que cria o problema de proporcionalidade na partilha de custos entre cidadãos não resulta de cada um dos estados de exceção, mas do seu conjunto. Quinze dias de confinamento correspondem a cerca de 8% do ano e é uma perda relativamente pequena. Mas neste ano já tivemos estados de exceção ou equiparáveis em perto de 20 semanas e isso corresponde a cerca de 40% do ano. E com as medidas concentradas nos fins de semana a fileira da economia do lazer e da cultura é particularmente fustigada.
O Governo parece insensível à questão da proporcionalidade na justificação das suas medidas. Deveriam constar dos diplomas que aprovam as medidas dos sucessivos estados de emergência as medidas económicas e financeiras mitigadoras. Só assim as autoridades poderiam comunicar que estamos todos juntos no combate à crise pandémica.
O Governo cristaliza estas decisões no Orçamento do Estado para 2021. O cenário macro do OE 2021 prevê uma contração de 8,5% em 2020 seguida de uma recuperação de 5,4% em 2021 o que significa que no próximo ano estaremos ainda cerca de 4% abaixo do nível de 2019. O que seria uma recessão profunda se não tivesse existido o ano de 2020.
O PIB nominal de 2021 deverá ser menor que em 2019 em cerca de 1%, porém, as despesas com pessoal nas Administrações Públicas aumentam 7,4%. O tratamento dos funcionários públicos não parece ser proporcional à evolução do nível de vida em Portugal.
Haverá certamente um ressalto na economia em 2021 face a 2020, mas será apenas parcial face às perdas deste ano, o que agrava a ligeireza com que o Governo aumenta as despesas com pessoal que são permanentes e estruturais quando a maioria da sociedade sofre perdas de rendimento que no caso das entidades que forem à falência serão permanentes.
A prioridade geral da política económica parece-me a adequada. Isto é preservar o máximo de capacidade produtiva e emprego à espera de que o vírus passe. Mas o Estado português e o nosso setor financeiro não têm capacidade para absorver o financiamento de toda esta despesa extra durante muito tempo.
O Governo prevê um défice de 7,3% do PIB em 2020 e 4,3% em 2021.
O problema de proporcionalidade não resulta da dimensão elevada dos défices no conjunto destes dois anos, mas sim na forma como a distribuição das perdas de rendimento permanentes e temporárias são partilhadas na população. Em particular nas situações em que o teletrabalho é um eufemismo para ausência de atividade produtiva.
Tudo indica que em 2021 a economia portuguesa continuará no pára-arranca ao ritmo da evolução da pandemia e dos métodos de diagnóstico, prevenção e tratamento. Por isso, o Governo tem a obrigação de prever expressamente no Orçamento do próximo ano como distribuirá proporcionalmente os custos da crise. Parece curto dizer apenas aos que estão longe do Estado que "aguentem."
Coluna mensal à sexta-feira
Mais lidas