Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
João Carlos Barradas 17 de Abril de 2018 às 19:56

O caminho de Damasco 

Na Síria convergem alguns dos mais perigosos confrontos da actualidade e qualquer complacência ante riscos iminentes de guerra é mera irresponsabilidade criminosa. 

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

A denúncia pela Casa Branca do acordo multilateral sobre o programa militar nuclear do Irão, de Julho de 2015, poderá ocorrer no início do próximo mês nos termos aventados pelos recém-nomeados secretário de Estado Mike Pompeo e conselheiro de Segurança Nacional John Bolton.

 

O confronto com Teerão, em alinhamento com a Arábia Saudita e o Egipto, a par de Israel, é um dos vectores persistentes da política de Donald Trump.

 

A influência do Irão na Síria, Iraque e Líbano, além do envolvimento na guerra civil do Iémen, não permite, contudo, dissociar e isolar os diversos conflitos regionais através de acordos marginais com outras potências como a Turquia e a Rússia.

 

O cunho pontual, restrito e negociado dos bombardeamentos a instalações militares sírias em retaliação pelos ataques com armas químicas em Douma, a 7 de Abril, não pode esconder uma questão de fundo.

 

Vladimir Putin mediou e validou um acordo com Barack Obama para destruição dos arsenais de Bashar al-Assad no Verão de 2013, supervisionado pela Organização para a Proibição de Armas Químicas, que foi violado pelo regime de Damasco à revelia ou com a conivência do Kremlin.

 

Teerão, de resto, revela-se cúmplice no apoio a al-Assad num transe particularmente indigno para um Estado que denunciou o recurso a armas químicas por Saddam Hussein na guerra com o Iraque entre 1980 e 1988.

 

Violações deste teor põem em causa tratados e, sobretudo, acordos informais sobre interditos no uso de armas de destruição generalizada, químicas ou sabotagens digitais, por exemplo.

 

São, ademais, letra morta garantias legais como as que viabilizaram o desmantelamento do arsenal nuclear da Ucrânia herdado da URSS, com a contrapartida no tratado de Budapeste de Dezembro de 1994, de Rússia, Estados Unidos e Grã-Bretanha salvaguardarem a independência, soberania e integridade territorial da Ucrânia.

 

A eventualidade de num futuro remoto a Coreia do Norte, carente de garantias de sobrevivência para uma elite impiedosa, renunciar a um arsenal nuclear na sequência da anunciada cimeira de Maio entre Kim Jong-un e Trump é, consequentemente, pouco crível.  

 

As tergiversações quanto ao alargamento de sanções financeiras e económicas à Rússia, altamente penalizadoras para os interesses de oligarcas dependentes do Kremlin, demonstram, por outro lado, não apenas divergências de fundo na administração Trump como, ainda, incoerência estratégica.

 

Ante a escalada ofensiva do Kremlin, desde a guerra entre Rússia e Geórgia em 2008, a atitude dos principais estados da UE, de Washington ou Tóquio, tem-se revelado temerosa e inconsequente.    

 

Nos campos de batalha da Síria, o Governo de Israel obstina-se, por sua vez, em conter investidas iranianas muito além de qualquer aproveitamento por Benjamin Netanyahu para escapar a embaraços com a justiça por demais similares aos de Trump.

 

Os sucessivos ataques contra alvos militares iranianos na Síria desde o início deste ano demonstram a determinação de Israel em obstar a que Teerão estabeleça bases ofensivas que, em aliança com as milícias xiitas libanesas do Hizballah, façam perigar a frente norte do estado judaico.

 

É outra guerra em curso e cedo fará valer sua devastação, ignomínia e inclemência. 

 

Não há redenção no caminho de Damasco.

 

Jornalista

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias