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Jorge Fonseca de Almeida - Economista 02 de Fevereiro de 2021 às 18:15

Generais, CEO, treinadores e falácias

A ideia de que se “não mudam generais durante a guerra” não passa de uma curiosa falácia, sem qualquer apoio factual sólido, que pretende eternizar uma política errada e manter dirigentes que não têm capacidade de enfrentar as situações em que se encontram.

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António Costa formulou a tese de que não se mudam os generais durante a guerra para justificar o atraso com que afastou a ministra politicamente responsável pela desastrosa resposta aos fogos que causaram centenas de vítimas. Esta mesma ideia, repetida à exaustão, tem permitido manter a ministra da Saúde depois do seu clamoroso fracasso, levando Portugal a ocupar o infeliz primeiro lugar de mortos por milhão de habitantes do mundo.

 

Será a tese de Costa verdadeira? A História prova-nos o contrário. Durante a II Grande Guerra quer russos quer americanos mudaram de generais e saíram vencedores, pelo contrário Hitler manteve no essencial os seus e acabou completamente derrotado. No caso americano o próprio Presidente Roosevelt morreu durante a guerra e o Vice-Presidente Truman teve que assumir o comando máximo sem que isso tivesse prejudicado a vitória americana.

 

Inúmeros exemplos históricos mostram, desde a antiguidade, que muitas vezes a mudança de generais é que determina a vitória. Quando Aníbal Barca o grande general cartaginês invadiu o Império Romano derrotou sucessivamente os vários exércitos que contra ele foram enviados. E só quando o Senado nomeou Cipião como general é que Roma saiu vencedora.

 

Também noutros campos da atividade humana é nos tempos de provação que se mudam os líderes. Quando o CEO de uma empresa não consegue vencer a batalha do crescimento rentável, quando enfrenta deficientemente uma crise na indústria, ou quando a concorrência o está a derrotar, é afastado para dar lugar a outro para que nova estratégia permita vencer. Por outro lado quando tudo corre bem não se observam alterações nas lideranças.

 

No mundo do futebol, um dos campos mais competitivos da atividade humana, quando um treinador não tem resultados é inexoravelmente despedido. Não passa pela cabeça de nenhum Presidente clubista dizer que se "não mudam treinadores durante a guerra/campeonato". E essas alterações são geralmente bem-sucedidas. Veja-se o caso recente do Benfica quando substituiu Rui Vitória por Bruno Lage. Também aqui se aplica a máxima contrária de que em "equipa que ganha não se mexe".

 

Concluindo, na guerra, na competição empresarial e no desporto, a regra é a de substituir os Generais, Administradores e Treinadores no meio da contenda sempre que se está a perder e sempre com o objetivo de mudando a política/estratégia acabar por vencer.

 

 A ideia de que se "não mudam generais durante a guerra" não passa de uma curiosa falácia, sem qualquer apoio factual sólido, que pretende eternizar uma política errada e manter dirigentes que não têm capacidade de enfrentar as situações em que se encontram. É uma mera justificação da falta de coragem de agir como as circunstâncias impõem, afastando os incompetentes e, mais importante, alterando as políticas e estratégias.

 

Uma das razões do atraso estrutural português radica no facto de as elites governantes não conseguirem retirar consequências dos seus erros, antes empurrarem as suas culpas para os de baixo.

 

O Partido Socialista devia à semelhança do que fez o Partido Conservador britânico quando Theresa May não consegui negociar o Brexit, substituir o Governo e reforçando o apoio parlamentar com acordos firmes mudar de política na saúde e na área social.

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