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Luis Nazaré 06 de Fevereiro de 2014 às 00:01

Acas

O que valem uns 85 quadros abstractos de Miró perante a imagemde rigor expressionista do governo? O homem nem português é, diz na penumbra a intelectualidade governativa.

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1. Parvalorem, Secretaria de Estado das Finanças e Secretaria de Estado da Cultura são os actores menores de um acto vergonhoso. Os principais puseram-se a recato e ficaram aliviados pela decisão contraditória e abstrusa do Tribunal Administrativo. Como sempre acontece nas cenas luxuriantes dos filmes sobre as indecências de Wall Street, abriram certamente garrafas de champanhe para celebrar o feito, deleitados pela perspectiva de encaixe de 36 milhões de euros a abater ao encargo estimado de sete mil milhões dos contribuintes para a recuperação do BPN. Bela façanha, liberal e austera! O que valem uns 85 quadros abstractos de Miró perante a imagem de rigor expressionista do governo? O homem nem português é, diz na penumbra a intelectualidade governativa. Quer isto dizer que a venda dos trabalhos de autores estrangeiros dos nossos museus fica doravante à distância de um simples despacho.

Ninguém duvide do aplauso da tríade e do apoio discreto das franjas político-intelectuais anti-abstraccionistas, que o povo comum tem-se mantido reservado, algo perplexo com mais este episódio da saga BPN. E o que dizer da Christie’s, a leiloeira, cancelando o espectáculo por dúvidas sobre a legalidade da operação? Mais papista do que o Tribunal Administrativo? Não. Simplesmente mais sensata e prudente.

Sensatez e decência são atributos que a gestão do BPN – e seu universo próximo - nunca conheceu, desde a sua formação, em 1993, até à recente venda dos activos bancários ao BIC. No período anterior à nacionalização sucederam-se a um ritmo vertiginoso actos de má gestão, fraudes e relações malsãs com destacadas figuras políticas da direita. Após a intervenção estatal, em 2008, via Caixa Geral de Depósitos, foi o tempo das hesitações, dos arranjos e do experimentalismo canhestro, que o poder político à época tolerou numa clara demonstração de incapacidade. Tudo somado, são cerca de sete mil milhões de euros, o equivalente aos juros anuais com a dívida soberana, que os portugueses enterraram nesse buraco sem fundo, alegadamente para evitar o risco sistémico decorrente de uma falência. Bem sei que é fácil falar depois do jogo terminado, mas muitos (eu incluído) se devem arrepender de terem defendido o resgate dessa placa giratória de interesses promíscuos, operações fraudulentas e ganância. Ao menos, salvem-se as obras de Miró para que da sigla BPN não reste somente um odor de podridão.

2. O que a crise de 2008 mais intensamente revelou foram os pés de barro do sistema financeiro internacional. Dominado pelo aventureirismo da banca de investimentos e pela ganância – como tão bem caracterizava, há um par de dias, o ex-líder do BPP, a quem, reconheça-se, nunca faltou lucidez -, ladino nas relações com as entidades "reguladoras" e tecnologicamente capaz de realizar operações irregulares sem deixar rasto, parecia imune a qualquer abalo telúrico. Foi, por isso, com alguma surpresa que as autoridades estado-unidenses perceberam que tinham afinal deixado crescer um alien horrendo e viscoso, mas frágil, dentro de casa. A este propósito, não deixa de ser curioso verificar que o sistema bancário canadiano, sujeito a forte regulação – e por isso bastas vezes criticado pelos agentes financeiros internacionais -, permaneceu praticamente imune à crise da ganância.

Nestes anos de desgraça, revelaram-se odores há muito escondidos pelo perfume do vil metal e de quem dele ilegitimamente beneficiou. Apesar das evidências, só o Lehman Brothers ruiu. Mais seria difícil, por causa do tal risco sistémico, mas algo de substantivo se alterou na percepção geral quanto a alguns dos monstros da finança internacional. Goldman Sachs, Morgan Stanley, JP Morgan Chase, Bank of America, Deutsche Bank, UBS, entre outros menos retumbantes, são hoje nomes que nenhum perfumista se atreveria a exibir. Alvos de sucessivas investigações por actividades fraudulentas, condenados a multas bilionárias e, ao mesmo tempo, salvos in extremis do descalabro pela mão sempre amiga dos poderes centrais, mantêm-se vivíssimos na cena internacional.

O indescritível Goldman Sachs, por exemplo, provocou uma onda de indignação na Dinamarca, após ter-lhe sido atribuída (com direitos especiais de voto) uma fatia de 19% na eléctrica estatal DONG, levando à demissão de seis ministros e uma séria crise política do governo social-democrata de Helle Thorning-Schmidt. Por cá, a mesma prestimosa entidade transformou-se no maior accionista privado dos CTT. Reacções zero.

Economista; Professor do ISEG

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