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Manuel Falcão - Jornalista 16 de Abril de 2021 às 10:09

O putativo candidato

Esta semana ficámos a saber, pela escrita do próprio José Sócrates, que a sua detenção e o processo subsequente foram desencadeados para, afirma convicto, impedir a sua candidatura à Presidência da República, e também para criminalizar as políticas dos governos que liderou.

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Um juiz é um estudante de direito que faz o enunciado dos seus próprios exames
H. L. Mencken

O putativo candidato
Esta semana ficámos a saber, pela escrita do próprio José Sócrates, que a sua detenção e o processo subsequente foram desencadeados para, afirma convicto, impedir a sua candidatura à Presidência da República, e também para criminalizar as políticas dos governos que liderou. Está escrito, preto no branco, logo nas primeiras linhas de um artigo que publicou na passada segunda-feira. Por um curioso acaso, a decisão do juiz Ivo Rosa sobre Sócrates foi tomada na mesma semana em que se completavam 10 anos sobre o pedido de ajuda externa. Cito, a este propósito, um desabafo do jurista João Gonçalves na sua página de Facebook: "O regime não apodreceu por obra e graça do Espírito Santo, o verdadeiro." Todavia, por entre prescrições e ajustes de contas entre magistraturas, um tribunal - pela primeira vez nestes mais de sete anos que a coisa leva - pronunciou alguém com antigas responsabilidades de primeiro-ministro pelos crimes de branqueamento de capitais e de falsificação de documentos, por causa e apesar dessas funções.

Sócrates já tinha sido "removido da história". Não, como ele imagina, pelo PS. É o PS "dele", aliás, que anda pelo Governo e pelo Estado. Sócrates foi removido pela história da bancarrota de 2011, que obrigou o país a um ajustamento pretoriano de três anos, e pelo voto democrático. Pretender que isto tudo aconteceu para "beneficiar a direita e atingir a esquerda" é delirante. Ele que experimente "depender do voto do povo", coisa a que lhe repugnava voltar, e vai ver o que lhe acontece."

Há dias que Sócrates se apresenta como um mártir da democracia, mas todo este caso é a prova provada das fragilidades da justiça em Portugal: das suas falhas, demoras, guerras internas, burocracias e contradições. Muito curiosamente soube-se também, por estes dias, que a ministra da Justiça e o Governo não quiseram incluir na Estratégia Nacional de Combate à Corrupção a proposta da Associação Sindical dos Juízes Portugueses que eleva à categoria de crime a falta de justificação da origem do património dos titulares de cargos públicos - uma medida que, por si só, evitaria muita coisa.

Quando se duvida da justiça abre-se caminho para duvidar da democracia.

Semanada

n Segundo o CEO da Altice, o contrato do sistema de comunicações de segurança SIRESP vai acabar a 30 de Junho, não existindo até à data negociações sobre o seu eventual prolongamento n a entidade que gere as certificações energéticas passou a ser abrangida pelas cativações orçamentais n Portugal teve o terceiro crescimento mais lento da Zona Euro entre 1999 e 2016 n no ano passado, o total das remessas de emigrantes desceu 1,3% e as remessas dos emigrantes da Suíça superaram pela primeira vez as de França n no primeiro trimestre deste ano, nasceram quase menos três mil bebés  n quase 300 mil acidentes rodoviários fizeram na última década cerca de meio milhão de feridos e milhares de mortos; em 2020, o consumo de bacalhau caiu 12,6% devido ao encerramento de restaurantes durante a pandemia n segundo a Marktest, cerca de 33% do poder de compra está concentrado em apenas 12 concelhos, e em Lisboa e Porto está cerca de 12% do total do poder de compra de Portugal continental n Portugal teve a pior queda comunitária nas vendas a retalho e o volume de negócios nos serviços caiu 20% n António Guterres renovou convite a Ivo Rosa para que este se mantenha numa bolsa de magistrados ligada às Nações Unidas n entre Março de 2020 e Fevereiro deste ano, foram registadas mais 685 mil mortes na União Europeia face à média dos três anos anteriores n um estudo recente indica que mais de metade dos portugueses não tenciona fazer férias este ano.

Dixit
Este juiz ou é ingénuo, ou faz-se de ingénuo, ou vive num mundo à parte. Em qualquer um dos casos, um homem assim é um perigo à solta.
Marques Mendes, sobre Ivo Rosa.

Poemas de amor
A poetisa grega Safo nasceu na segunda metade do século VII a. C., na ilha grega de Lesbos. Educada num meio aristocrático, os fragmentos da sua poesia são o testemunho da primeira autora da literatura europeia e considerados a síntese da perfeição lírica na Antiguidade. Nos seus versos é possível entrever o encantamento e o sofrimento amorosos, uma tensão constante entre juventude e velhice, marcados por um erotismo cuja aura chegou até hoje. Dos onze ou doze mil versos que são atribuídos à poetisa grega, chegaram até nós apenas uma ode completa e cerca de 200 fragmentos. Eugénio de Andrade dedicou muita atenção à obra de Safo e trabalhou as suas traduções. Foram esses 200 fragmentos que serviram de base para "Poemas e Fragmentos", um olhar sobre a poesia de Safo pela mão de outro poeta. A nova edição retoma a versão revista em 1977 por Eugénio de Andrade, que sobre a obra assinalou no texto de abertura: "Os versos incomparáveis onde a experiência íntima e devastadora da paixão, aliada a um sentimento muito vivo da natureza, é comunicada sem ênfase e sem patetismo, com uma naturalidade até então desconhecida, e que a poesia ocidental não terá voltado a conhecer." E na mesma nota de abertura da obra, Eugénio de Andrade argumenta que a sua tradução é um ato de amor, sendo Safo uma das suas "fascinações mais antigas". Diz ainda Eugénio de Andrade que esperava que "o perfume a violetas das tranças de Safo" não estivesse de todo ausente dos versos por si traduzidos. "Os seus poemas de amor dirigiam-se frontalmente a mulheres", recorda ainda Eugénio de Andrade, o que terá levado séculos depois a sua poesia, reunida em nove livros, a ser destruída pelos cristãos dos séculos IV e XI.

Ver as paisagens
Volta e meia - mas é raro - acontece isto: entramos numa galeria para ver uma nova exposição e ficamos surpreendidos. Uma espécie de choque, como quando nos defrontamos com algo inesperado. Foi o que aconteceu com a inauguração, na semana passada, da nova exposição de Cabrita (Pedro Cabrita Reis) na galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão, 18B). Intitulada "Pinturas de Paisagem", a exposição tem mais de 80 pinturas e uma escultura (na imagem), a grande maioria das obras foram feitas durante 2020. A exposição decorre até 22 de Maio. Cabrita tem um fascínio pela paisagem, e esta série de novos trabalhos mostra também o que foi a evolução da sua maneira de ver ao longo do confinamento - com algumas surpresas na forma final encontrada. Os preços oscilam entre os 10 e os 50 mil euros.

Outros destaques: na Galeria Filomena Soares está "Places Of War", de Daniel Nave, um trabalho inspirado pelas destruições e cenários de guerra. E na Appleton está "Revolution My Body no.2", o início de um ciclo de evocação da obra de Ernesto de Sousa. Fora de Lisboa, destaque para "Caminhar Oblíquo", de Duarte Belo, na Casa da Avenida. E no Centro de Arte Contemporânea de Coimbra, até 20 de Junho de 2021, decorre a segunda exposição do ciclo "De que é feita uma coleção?".

Regressando a Lisboa, no MAAT pode descobrir três novas exposições: as onze instalações de "Aquaria - Ou a Ilusão de Um Mar Fechado", as nove propostas de design e arquitectura e arte de "X Não É Um País Pequeno" e a grande instalação interactiva "Earth Bits- Sentir o Planeta". Este conjunto de exposições, todas encomendas internacionais, constituem a primeira programação da responsabilidade de Beatrice Leanza, a nova diretora do MAAT, e são a concretização da sua ideia dos novos eixos da programação e utilização do edifício, colocando em primeiro plano questões de carácter social, ambiental e geopolítico.

Arco da velha
No dia em que se voltou a pagar estacionamento em Lisboa, a aplicação ePark da EMEL teve problemas de funcionamento devido a "sobrecarga pontual inusitada".

O somo da saudade
Rhiannon Giddens, americana, e Francesco Turrisi, italiano, têm um percurso musical comum - ela no banjo, ele no acordeão e percussão. Ambos vivem na Irlanda, longe dos respectivos países, e o novo disco tem um título que retrata a emoção e a intensidade que passam pelas 12 canções do novo álbum, "They’re Calling Me Home". Este é um disco sobre a saudade, sobre a vida e a sua precariedade. Nasceu e reflecte o espírito que Giddens e Turrisi sentiram durante esta pandemia que mudou o curso das suas vidas de uma forma que não teriam imaginado antes de 2020. As inspirações musicais vão do bluegrass ao folk anglo-saxónico, a canções tradicionais americanas, passando pelas tradições musicais italianas. Pelo meio existem alguns temas originais, e é neles que mais se encontram as questões colocadas por estes tempos e pelo confronto com a possibilidade da morte. Há versões fantásticas, como a que encerra o disco, uma revisitação de "Amazing Grace", a forma como abordam "When I Was In My Prime", um original dos Pentangle, ou ainda a incursão pelo século XVII e Monteverdi em "Si Dolci è’l Tormento ". Logo nos primeiros momentos do disco, na faixa-título "Calling Me Home", a voz de Giddens destaca-se e transmite uma emoção incontornável. Ao longo de todo o disco, o banjo, o acordeão e a percussão - que são a imagem de marca da sonoridade de Giddens e Turrisi - evidenciam que a simplicidade é muitas vezes a melhor conselheira e a melhor forma de transmitir emoções. Disponível no Spotify.

Perdiz em brioche
Ao fim de tantos meses a inventar alternativas de refeições que proporcionem alguma variedade, a imaginação acaba por se esgotar. Estamos em casa com saudades de nos sentarmos à mesa de um restaurante, por mais modesto que seja, e sermos surpreendidos com um petisco ao qual não nos abalançamos. Esta semana, Miguel Esteves Cardoso relatava na sua coluna diária a alegria de encontrar jaquinzinhos com arroz de tomate. Serve isto para dizer que, à medida que o confinamento avançou, o recurso a coisas simples foi crescendo. Aproveitando estes dias mais temperados e a circunstância de alma gentil me ter oferecido um brioche em pão de forma, uma iguaria de múltiplas utilizações, ocorreu-me que um patê seria a sua companhia perfeita. Com recurso a uma lata de patê de perdiz da marca Do Monte, elaborado em Penha Garcia, saiu um jantar leve e petisqueiro. Este patê de perdiz tem boa consistência e melhor sabor, e acompanha muito bem a massa do brioche - como era do dia, nem precisou de ser aquecido. Foi acompanhado pelo tinto Dois Terroirs, de Cortes de Cima, da Vidigueira, com as castas Aragonês, Syrah e Pinot Noir. Devo dizer que deu muito boa conta do recado. Patê e vinho vieram desse local de boas surpresas que é a rua Acácio Paiva, em Alvalade - no caso, da loja Dois Dedos de Conserva.


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