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Manuel Falcão 07 de Agosto de 2020 às 11:08

Políticos-esferovite

Quando andava no liceu, gostava da disciplina de Trabalhos Manuais, aprendi lá uma série de coisas que me têm sido úteis ao longo da vida.

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"Se uma pessoa começa por ter certezas acaba a ter dúvidas, mas se começar por ter dúvidas terminará a ter certezas."
Sir Francis Bacon

Políticos-esferovite
Quando andava no liceu, gostava da disciplina de Trabalhos Manuais, aprendi lá uma série de coisas que me têm sido úteis ao longo da vida. Uma delas foi trabalhar com esferovite. Cedo descobri que é um material que se desfaz com facilidade e que se derrete quando se aplica cola celulósica para juntar pedaços. Ocorreu-me que há uma enorme semelhança entre políticos e esferovite. Sabem porquê? Quando os políticos não têm ideias e se desfazem em palavreado incongruente, qual o material que me vem à cabeça? A mim parece-me que a esferovite domina a política portuguesa.

O partido com maior dose de "dirigentes-esferovite" parece-me ser o PSD, e estou em crer que Rui Rio é o rei da esferovite - desfaz-se por pouco, derrete-se cada vez que se quer colar a Costa. Pelo caminho que as coisas levam, segundo vou lendo, está a comprar uma cola especial para se juntar a André Ventura e ao Chega. É o mais rápido caminho para se dissolver de vez. Rui Rio tem tido uma habilidade invulgar em destruir os valores da marca PSD - já na Câmara Municipal do Porto tinha dado sinais disso e agora, como presidente do partido, tem mesmo excedido essa capacidade. É um homem que se gaba de não olhar para a ideologia, de preferir andar aos ziguezagues a percorrer linhas rectas, e despreza a estratégia a favor da táctica. É sério candidato a ganhar o óscar de pior dirigente partidário desde 1974. Por estes dias, Artur Torres Pereira, um respeitado autarca e quadro social-democrata, deu uma entrevista cujo título diz tudo sobre Rui Rio (que, quando era novo, frequentou uma escola privada alemã): "Rio devia ter frequentado uma boa escola pública portuguesa." Não é preciso dizer mais nada.

Semanada
As consultas presenciais nos centros de saúde sofreram uma quebra de três milhões entre Março e Maio este foi o mês de Julho com mais mortes em 12 anos e a covid-19 só explica 1,5% dos óbitos o aumento de óbitos em julho foi de 26% face ao mesmo mês de 2019, e os especialistas apontam falhas no acesso aos serviços de saúde por causa da pandemia e a onda de calor como as principais causas o número de veículos detectados em contramão nas autoestradas subiu 37% em 2019 segundo a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares, a impossibilidade de suportar os encargos habituais, nomeadamente pessoal, rendas, energia e fornecedores, leva 43% das empresas de restauração e bebidas em Portugal a ponderar a insolvência a curto prazo mais de 100 câmaras municipais foram multadas por falta de limpeza do mato até final de Julho, chegaram ao Portal da Queixa mais de 9 mil reclamações relacionadas com compras online, um aumento de 213% devido à pandemia, a Mealhada já cancelou os desfiles do Carnaval de 2021 segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), 644 mil pessoas não trabalharam no emprego principal nem em casa nem em outro local durante a pandemia e 23,1% da população empregada trabalhou a partir de casa durante esse período as emissões de dívida pública portuguesa no primeiro semestre do ano atingiram 97,7% do inicialmente orçamentado para todo o ano, totalizando 9.693 milhões de euros.


Dixit
"Eu digo tudo nas linhas e quase nada nas entrelinhas."
Marques Mendes

Esculturas animadas
No início dos anos 1980, foi criado na Grã-Bretanha um movimento chamado New British Sculpture, e Julian Opie é, entre os artistas que lhe estão ligados, um dos mais conhecidos. Ganhou notoriedade nessa década e o seu estilo foi evoluindo, primeiro de silhuetas de metal para mais tarde utilizar figuras feitas em painéis luminosos com um traço minimalista. Até ao final do mês de Agosto, pode ver obras inéditas do artista no Museu Colecção Berardo, numa exposição onde as crianças são bem-vindas e que pode ser uma boa porta de entrada no mundo da arte contemporânea. As peças estão expostas nos pátios e jardins interiores do CCB e nas galerias dedicadas à arte contemporânea. Esta é a primeira exposição individual de Julian Opie em Lisboa e a maioria das obras que se apresentam no Museu Coleção Berardo foram produzidas especificamente para esta exposição e galeria, permitindo tirar partido das paredes de oito metros de altura e também do tecto, ainda mais alto. As pessoas são o tema central da exposição, retratadas de várias formas e com vários materiais: ora estáticas, ora em movimento; ora pintadas, ora esculpidas. Também há lugar para alguns edifícios e animais, de forma a alargar a temática. Na segunda sala, diferentes animações de computador usam LED intermitente para mostrar pombos estilizados pulando sem rumo e saltando de uma tela para a outra. Para a última sala, foi produzida uma instalação gigantesca que, com inspiração na belíssima Torre de Belém, nos remete para a arquitetura manuelina. O serviço educativo do museu possibilita visitas orientadas e atividades para escolas e famílias, e as marcações podem ser feitas pelo telefone 213 612 800.

A conquista de Paris
Para assinalar os 100 anos de Amália Rodrigues, a Valentim de Carvalho lançou mais uma cuidada edição do espólio da fadista, organizada por Frederico Santiago, e que inclui várias raridades e inéditos. Trata-se da caixa "Amália em Paris", composta por cinco discos gravados ao vivo e um livro de 94 páginas com fotografias raras, uma cronologia das actuações de Amália na capital francesa, e um texto do historiador Jorge Muchagato que enquadra a época em que as gravações foram feitas e o ambiente que se vivia na capital francesa. O primeiro disco foi gravado no Olympia em 1956, o segundo reúne registos ao vivo inéditos feitos pela rádio francesa entre 1957 e 1965, o terceiro tem um recital inédito no Olympia em 1967 e, por fim, um disco duplo com a gravação, também inédita, de um espectáculo nessa mesma sala em 1975. Ao todo, são 88 faixas. Frederico Santiago recorda que, em meados dos anos 1950, Amália já tinha ido actuar ao Brasil frequentemente desde 1944; relembra as suas actuações nos concertos do plano Marshall em 1950 e as séries de espectáculos em Nova Iorque e no México em 1952, 1953 e 1954. Mas, sublinha, "foi o triunfo parisiense, em 1956, que fez o mundo de então reconhecer em Amália uma das maiores cantoras do século". Quando Amália se apresentou, em Abril de 1956, no Olympia de Paris, deparou-se com um público culto e sofisticado habituado a grandes nomes internacionais, mas também com um mundo que renascia das cinzas de 1945, com toda a esperança que a prosperidade do pós-guerra permitiu. "Foi esse público que a arte e a coragem de Amália tocaram tão profundamente. E digo coragem, porque Amália mostrou-se a essa plateia, tão rigorosa e exigente, com uma arte arriscada e autêntica, sem orquestrações ou coreografias, sem muletas. Apenas uma guitarra e uma viola. Apenas a voz e o negro. Negro no vestir, no cabelo, no olhar" - assim resume Frederico Santiago a forma como Amália conquistou Paris. Disponível em caixa de CD e no Spotify.

Arco da velha
Na Figueira da Foz, uma mulher tentou pegar fogo ao marido, depois de o regar com um líquido combustível, no seguimento de uma discussão conjugal.

Relatos dos palcos do Rock'n'roll
O mais recente livro de Patti Smith começa na noite de fim de ano, após um concerto na mítica sala do Fillmore em São Francisco, com a chegada da cantora ao motel Dream Inn em Santa Cruz, Califórnia, no início de um novo ano: terminava 2015 e 2016 ia começar, Patti Smith iria fazer 70 anos e continuava na estrada a dar concertos, a recitar poesia e a fazer as suas declarações políticas entre canções cada vez mais intensas. Este livro, "O Ano do Macaco", publicado originalmente em 2019 e agora editado em Portugal numa boa tradução de Hélder Moura Pinheiro, é um registo itinerante do que Patti Smith sentia ao longo da digressão, dos episódios que mais a marcaram, recordando canções dos Grateful Dead, entre concertos e noites de sono leve em quartos de hotel. Este "O Ano do Macaco" é já o seu terceiro livro de memórias, que como sempre inclui fotografias feitas pela própria Smith, conversas imaginadas e citações como esta, de Gérard de Nerval: "O sonho é uma segunda vida", ou ainda esta de Antonin Artaud: "Abate-se sobre o mundo uma loucura fatal." E é entre estas duas citações que a narrativa se desenvolve, com uma meditação sobre a morte, a política e a arte. O livro relata uma sua passagem por Portugal em 2016, quando tocou no Coliseu de Lisboa, e depois fez uma visita à Casa Fernando Pessoa e se sentou na Brasileira do Chiado a tomar um café, bebida que ela adora. De Lisboa, Patti Smith diz que é "a cidade ideal para nos deixarmos levar pelo tempo". O livro começa depois de um concerto em S. Francisco e é lá que acaba, mais uma vez no Fillmore, depois de correr mundo. "Subimos ao palco na esperança de que o entusiasmo que vamos pôr na nossa atuação possa dar às pessoas alguma alegria", assim resume ela a sua vida.

Desilusões restaurativas
Quando os restaurantes começaram a abrir, após o confinamento, procurei voltar aos locais que mais me agradavam. Um dos primeiros a que regressei foi ao Nómada, onde a equipa de sempre me serviu bem e a refeição correspondeu. Algum tempo depois, voltei lá, num contexto diferente, de um almoço de trabalho com mais duas pessoas, e tive uma das piores experiências de serviço da minha vida. Um empregado que ficava melhor a vender carros avariados em segunda mão, e que por felicidade nunca antes me havia surgido à frente, resolveu alterar todo o pedido que já tinha sido feito ao empregado que primeiro nos atendeu e, para além de uma sugestão que foi aceite, adicionou pedidos sem avisar nem alterar os anteriores, num abuso que, creio, tem até a ilegalidade de pôr em cima da mesa o que não havia sido pedido. Assim se estraga a confiança que havia sido depositada num restaurante - e a culpa não foi da cozinha nem do atendimento inicial. Fica-se com a impressão de que o objectivo agora é aumentar as facturas, sem olhar a meios. Nesse dia, o Nómada foi uma desilusão e a minha confiança nele ficou bem abalada. Nunca me tinha acontecido, lá ou noutro restaurante. São estes incidentes que me fazem gostar ainda mais dos locais onde não tenho más surpresas, dos valores seguros.


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