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Joaquim Aguiar 26 de Agosto de 2020 às 19:36

Distribuir sem competir

Nestas circunstâncias, distribuir o que existe para sustentar a procura interna sem competir para conseguir aumentar o que há para distribuir é uma receita segura para imobilizar a economia e para destruir o capital sem o qual não haverá nem empresas nem emprego.

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A FRASE...

 

"É preciso sustentar a procura interna, que constitui a parte maior do produto interno e, portanto, da procura dirigida ao sistema produtivo."

Francisco Louçã, Expresso, 22 de Agosto de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Encher um pneu furado é inútil, perde-se o ar injectado e destrói-se a borracha do pneu, o veículo poderá avançar uns metros, mas ficará imobilizado com a jante danificada. Estimular uma economia congelada por efeito de uma peste que impõe a distância social, que bloqueia o fluxo de receitas com a interrupção da actividade económica e com a contracção da procura, mas não anula as despesas inerentes às responsabilidades contratuais com pagamento de salários, de juros e de rendas, também é uma tarefa inglória. Ao manter as despesas quando não há receitas, está a diluir-se o capital existente na dívida que está a ser gerada quando se mantêm as despesas contratuais a que não correspondem as receitas da actividade que estavam associadas a esses contratos. O pneu continua furado e o capital, que é a jante onde se coloca o pneu, fica danificada, e nem com um pneu novo poderá essa jante voltar a ser usada: a economia continuará imobilizada até ser rebocada para onde haja jantes novas.

Nestas circunstâncias, distribuir o que existe para sustentar a procura interna sem competir para conseguir aumentar o que há para distribuir é uma receita segura para imobilizar a economia e para destruir o capital sem o qual não haverá nem empresas nem emprego. E se a crise da peste gera dívida quando há despesas sem receitas, não se pode esquecer que antes da crise da peste já há muito se acumulava dívida e não havia crescimento - já há muito se injectavam impulsos na economia e o pneu continuava furado a danificar a jante. Quando agora se volta a discutir o aumento do salário mínimo sem dizer nada sobre a taxa de crescimento da economia e sobre a dívida acumulada, mas repetindo o argumento de que é preciso sustentar a procura interna, terá de se reconhecer que não se esqueceu nada e não se aprendeu nada, insiste-se em encher um pneu furado sem primeiro consertar o furo.

Antes de se discutir o salário mínimo discutiram-se as rendas excessivas. As rendas garantidas são contratos celebrados entre o Estado e empresas para estimular o investimento, e só serão excessivas se o benefício concedido for superior ao produto obtido. Também o salário mínimo é uma renda garantida para estimular a justiça social e sustentar a procura interna - mas será uma renda excessiva se não houver crescimento económico, porque é distribuição sem competição.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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