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Luís Marques Mendes 19 de Julho de 2020 às 21:29

Marques Mendes: “Foi Carlos Costa quem pôs fim” ao “reinado ruinoso e criminoso” de Ricardo Salgado

As notas da semana de Marques Mendes no seu comentário habitual na SIC. O comentador fala sobre Jorge Jesus no Benfica, o plano de recuperação económica, a acusação a Ricardo Salgado, o Caso BES e o estado da pandemia.

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1 - Este é um dos grandes casos da semana. Um caso que evidencia duas coisas:

Primeiro: é uma grande vitória pessoal de Jorge Jesus
.

  • Há 5 anos, Jorge Jesus saiu do Benfica a mal, empurrado pela porta dos fundos. Regressa agora, em grande, pela porta principal, como um herói.
  • Jorge Jesus saiu do Benfica maltratado, quase humilhado, com um processo judicial. O mínimo que lhe chamaram foi de traidor. Regressa agora, triunfante, como o grande "salvador".
  • Acresce que Jorge Jesus sai do Brasil no momento certo. Já tinha ganho quase tudo o que havia para ganhar. Se ficasse, dificilmente no futuro podia fazer igual e corria o risco de fazer pior.

Segundo: é uma grande solução para o Benfica, mas é uma solução a que o Benfica lança mão em estado de desespero
. É a forma que o Benfica tem de conseguir três coisas: desviar as atenções de uma época desportiva humilhante; afastar os holofotes de vários casos judiciais que não são bons para a imagem e o prestígio do clube; e de ajudar à reeleição do seu Presidente. Por isso é que o Benfica teve de satisfazer as inúmeras exigências milionárias que Jorge Jesus colocou. Ele é mesmo visto como "o salvador da pátria encarnada". Salva o Benfica e o seu Presidente.
 
2 - Nesta semana de vários acontecimentos mediáticos, importa também ter uma palavra de saudação ao FCPorto. Foi um justo vencedor do Campeonato Nacional. É certo que contou com um enorme demérito do Benfica. Mas Pinto da Costa e Sérgio Conceição são dois ganhadores – resistiram, perseveraram e venceram.

O PLANO DE RECUPERAÇÃO ECONÓMICA 

  1. Com os dados que estão em cima da mesa, Portugal vai provavelmente receber nos próximos anos uma autêntica "pipa de massa". Algo de absolutamente inédito.
  • Até agora nós recebemos de fundos europeus cerca de 3,7 mil milhões de euros por ano;
  • Agora, durante 3 anos, entre fundos europeus e o novo Fundo de Recuperação, vamos receber quase 12 mil milhões por ano, entre fundo perdido e empréstimos.
  • Na prática, são quase mil milhões de euros por mês. Nunca tivemos uma oportunidade como esta.
  • Falta saber é se a vamos saber aproveitar. É que não chega atirar dinheiro para cima dos problemas.

 

  1. É aqui que entra o documento apresentado por António Costa Silva. Não tem novidades, mas é um bom documento. É bem estruturado, está bem escrito e tem algumas boas ideias: a ideia da reindustrialização; a ideia da aposta na ferrovia dentro do país e na ligação à Europa; a ideia de um pacto Estado/empresas para estimular a gestão profissional, a inovação e a competitividade empresarial.

 

  1. Este documento é uma visão estratégica. Mas, para passar à prática, falta transformá-lo em plano de acção. E para tal precisa de ter três requisitos:
  • PrioridadesQuando tudo é prioritário, como está no documento, não há prioridades. E até agora o documento não define prioridades.
  • QuantificaçãoPrecisamos de saber quanto custam as várias opções. Sem isso, temos um documento que é tipo conversa de café.
  • Objectivos e resultadosQue objectivos e resultados vamos alcançar? É essencial haver metas, objectivos e compromissos com resultados concretos, acompanhados de um calendário de execução.

ACUSAÇÃO A RICARDO SALGADO

 

  1. Esta acusação demorou muito tempo de mais (6 anos). Mas, neste caso, o Mº Pº tem três boas atenuantes: primeiro, era uma investigação muito complexa; segundo, várias autoridades estrangeiras demoraram tempo a colaborar; terceiro – e mais importante –, esta acusação é sólida, consistente e bem fundamentada. O Mº Pº está de parabéns porque produziu uma acusação como deve ser – robusta.

 

  1. O que nos diz esta acusação? Quatro coisas essenciais:

  • Primeiro: Ricardo Salgado criou um verdadeiro polvo, com uma aparência de respeitabilidade, com tentáculos dentro e fora do Banco, em Portugal e fora do país, para acumular poder, controlar, corromper, falsificar e mandar.

  • Segundo: o objectivo era descapitalizar o Banco para tentar salvar o GES ou, pelo menos, adiar a sua morte, porque o grupo, de tanta loucura e má gestão, estava falido há vários anos.

  • Terceiro: todas as operações criminosas eram dirigidas por uma célula secreta, dirigida por Ricardo Salgado e coadjuvado por Morais Pires, integrando directores e outros colaboradores, célula essa que funcionava à margem da família e do Conselho da Administração. Por isso, a maior parte da família e dos administradores não foi sequer acusada. 

  • Quarto: como é que Ricardo Salgado tinha o controlo da situação? "Comprando" tudo e todos com bónus, recompensas e pagamentos extra, através dos vários sacos azuis que foi criando. Em contrapartida, os seus subordinados iam praticando todos os crimes possíveis e imaginários – gestão danosa, contabilidades paralelas, ocultações de prejuízos, falsificação de documentos. Na prática, vendendo gato por lebre, a tudo e a todos.
 
  1. É difícil compreender que as autoridades tivessem demorado tanto tempo a perceber o que se passava. Faz muita impressão. Mas é preciso não esquecer três realidades: primeira, à época, Ricardo Salgado era o senhor todo-poderoso em quem ninguém tocava; segundo, se nem a maioria dos administradores que estavam lá dentro sabia o que se passava, como haviam de saber as autoridades? Terceiro: a supervisão, quer do BP quer da CMVM, não era o que é hoje. Antes era diferente e formal, hoje felizmente é intrusiva e bem mais eficaz.

 

  1. De uma assentada, além de protagonizar um dos maiores casos de polícia, Ricardo Salgado deu cabo da reputação da família Espírito Santo e agravou brutalmente a reputação da banca. Uma família histórica, prestigiada no país e fora dele, com quase 150 anos de actividade empresarial em Portugal, acaba sem honra nem glória. É obra! A banca, já com má imagem, viu a sua ainda mais agravada. Vai levar anos a recuperar. Há anos, na AR, Ricardo Salgado disse (citando um ditado chinês): " o leopardo quando morre deixa a sua pele. O homem deixa a sua reputação." É caso para dizer que pela boca morre o peixe.

  

CASO BES – QUANDO HAVERÁ CONDENAÇÕES?

 

  1. A boa notícia é esta: com esta acusação sólida e consistente é quase impossível não haver condenações. Claro que todos têm direito à sua defesa. Mas os factos são demasiado claros. Sem esquecer que os tribunais, em processo desencadeado pelo BP, já condenaram Ricardo Salgado por gestão danosa.

A má notícia é que este processo vai demorar 7 a 8 anos até chegar ao fim: 2 anos e meio para a instrução; dois anos e meio para o julgamento; mais 2 para recursos. Se tudo correr bem. Esta é a minha previsão.

 

  1. No entretanto, há sobretudo quatro pessoas que merecem ser saudadas pelo contributo que deram para a queda de Ricardo Salgado:

  • Primeiro – Carlos Costa: terminou esta semana o seu mandato da melhor forma possível – a ver a acusação do Mº Pº a confirmar tudo quanto o Banco de Portugal tinha dito. Carlos Costa teve seguramente vários erros, falhas e deficiências. Mas, neste caso em especial, teve três momentos de grande coragem. O primeiro, quando proibiu o BES de financiar o GES; o segundo, quando "correu" com Ricardo Salgado; o terceiro, quando impediu que Ricardo Salgado fizesse uma última golpada – fazer-se substituir pelo seu homem de mão, Morais Pires.

  • Para a história fica esta facto: foi Carlos Costa quem pôs fim a Ricardo Salgado. Hoje, parece fácil. É como acertar no totobola à segunda-feira. Mas há 6 anos quase ninguém ousava afrontar Ricardo Salgado. Não foi o poder político ou judicial. Era o senhor todo-poderoso. Carlos Costa acabou com o seu reinado ruinoso e criminoso. Como disse António Barreto, no Público, merecia uma palavra de gratidão dos poderes públicos.

  • Segundo – Passos Coelho. Depois de Carlos Costa ter proibido o BES de financiar o GES, Ricardo Salgado pediu ajuda a Passos Coelho para que a CGD financiasse o Grupo. O então PM recusou. Tenho dúvidas que, à época, qualquer outro PM, do PS ou do PSD, tivesse a coragem de fazer o que Passos Coelho fez. Dizer isto não é endeusá-lo. É só dizer a verdade.

  • Terceiro – José Maria Ricciardi. Goste-se ou não se goste de Ricciardi, a verdade é que foi o único elemento da família que se opôs a Ricardo Salgado. Que tentou mesmo afastá-lo da liderança. Na altura, não foi levado a sério. Diziam que era apenas uma guerra familiar e que Ricciardi exagerava. Afinal, tinha razão. Só é pena que às vezes a perca pela forma exagerada como intervém.

  • Finalmente, Pedro Queirós Pereira. Já faleceu. Mas, em vida, denunciou Ricardo Salgado e a sua denúncia precipitou a queda. Merece uma homenagem.

 

 O ESTADO DA PANDEMIA

 

  1. Mais uma semana de pandemia. Podemos tirar esta semana algumas conclusões menos preocupantes do que é habitual:

  • Primeiro: média diária de novos casos nas últimas 5 semanas – Tivemos nesta semana 310 novos casos por dia. A melhor média das últimas 5 semanas. Temos de ver se esta tendência positiva se mantém.

  • Segundo: como vão os 5 concelhos que estão sob vigilância? A análise dos novos casos, desde o início de Julho, nos concelhos de Lisboa, Loures, Amadora, Odivelas e Sintra, permite tirar as seguintes conclusões:
  • Lisboa, Sintra e Loures estão a melhorar;
  • Odivelas e Amadora estão estáveis.
  • Aparentemente as medidas tomadas estão a resultar.

  • Terceiro: no quadro europeu é que continuamos mal. Continuamos a ser o terceiro pior país da UE por novos casos por mil habitantes; vemos a Suécia a melhorar em relação a Portugal; a média da UE é de 19 casos nos últimos 14 dias e a de Portugal é de 48 casos nos últimos 14 dias.

 

  1. De tudo isto, há três coisas que hoje são já claras:
  • Primeiro: o desconfinamento que foi feito em 4 de Maio devia ter sido diferenciado por regiões e não igual para todo o país.
  • Segundo: na zona da Grande Lisboa, o Governo agiu tarde. Devia ter actuado umas semanas antes.
  • Terceiro: esta situação não é grave para a saúde pública mas é má para a economia (o turismo foge de Portugal para outras paragens).
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