Miguel Pina e Cunha
Miguel Pina e Cunha 11 de novembro de 2013 às 00:01

Capitalismos

"Capitalismo" é uma palavra forte. Gera emoções: amores e ódios. Tem uma carga ideológica, mas representa, acima de tudo, uma ideologia pragmática: quando a sociedade se organiza em torno da ideia de mercado livre suportado por instituições fortes e respeitadoras do Estado de direito, o capitalismo permite que cada um ofereça soluções para a resolução de necessidades - essa é a essência do empreendedorismo, que cria destruindo as anteriores soluções e nesse sentido estimula competição leal

Em alguns locais, a ideia capitalista é acolhida de forma mais favorável que noutros. Eis uma leitura impressionista das diversidades do capitalismo, baseada em observações e leituras recentes.

 

O capitalismo visto do aeroporto de Singapura. Chegado a algum importante aeroporto asiático, como Changi, em Singapura (mas também podia ser Banguecoque, Taipé ou Kuala Lumpur), o passageiro encontra nas livrarias boas e abundantes obras sobre os negócios, com uma oferta bem recheada e repleta de novidades. Os livros sobre esta área estão bem destacados, tão à vista como o último Dan Brown. Parece plausível a inferência de que se os livros estão destacados é porque têm mercado. Ou seja, saber e aprender sobre negócios é uma atividade trivial e amplamente praticada. Em Portugal, não há livrarias tão equipadas como estas, o que talvez queira dizer algo.

 

O capitalismo visto dos EUA. Nos EUA, a economia de mercado é vista como uma instituição central e propiciadora da liberdade necessária ao desenvolvimento. É encarado como uma instituição imperfeita, em mudança permanente. De momento, a discussão centra-se na ideia de "conscious capitalism". No cerne desta proposta encontra-se John Mackey, fundador da Whole Foods: aqueles que não gostam do sistema tal como ele existe podem trazer alternativas e submetê-las à competição: o público escolhe. Nenhuma outra lógica pode ser tão libertadora.

 

O capitalismo visto de um manual escolar francês - com um desvio até à Venezuela. Em França, já se sabe, as coisas são diferentes. Segundo a "The Economist" (6 de julho), os manuais enfatizam a luta de classes e o mercado continua a ser olhado com hostilidade. A mudança é mais difícil e os desafios são encarados sob um prisma ideológico, mais que pragmático. De uma forma mais radical o presidente da Venezuela nomeou Eduardo Samán para a defesa do consumidor. Segundo Samán, a humanidade apenas resolverá a crise alimentar com o fim do capitalismo ("The Economist", 6 de julho).  

 

O capitalismo visto de Portugal. Em Portugal, Luís Portela esclarecia que "Ganhar dinheiro e criar riqueza não é pecado" (Dinheiro Vivo, 27 de julho). A desconfiança em relação ao lucro tem ela própria uma base ideológica e enviesada. Em vez de aplaudir o risco e a iniciativa, a nossa sociedade ainda obriga os seus empresários, mesmo os mais respeitáveis, como Portela (galardoado este ano com o Excellens Oeconomia, deste jornal), a explicar o que já não devia carecer de explicação.   É evidente que o mercado gera inúmeras imperfeições, mas também é evidente que se trata do sistema mais capaz de se auto-corrigir e regenerar. A maneira como a competição leal entre negócios se entranha na sociedade talvez seja uma das razões pelas quais uns progridem e outros nem por isso. 

 

Professor na Nova School of Business and Economics

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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