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Chegar, ver e vencer?

Se negoceia há dois ou três anos e acha que já é um excelente investidor, repense.

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A cada ano que passa e que mais converso sobre bolsa, mais fico impressionado com a convicção de muitos investidores de que é fácil ganhar dinheiro nos mercados. A convicção com que alguns – com um ou dois anos de experiência nos mercados e que apenas dedicam algumas horas semanais a esta actividade – falam sobre a sua capacidade de ganhar dinheiro em bolsa é assustadora.

É verdade que muitos desses testemunhos recentes são de jovens investidores que descobriram os mercados financeiros no primeiro confinamento, quando as bolsas se afundaram e entraram numa altura fantástica de recuperação dos mercados, tendo obtido ganhos rápidos. Mas, de uma forma geral, ao longo dos anos, esta ideia de facilidade de se ganhar dinheiro em bolsa é muito comum.

Quanto tempo demora alguém a ser um bom engenheiro? E um bom médico, quanto tempo demora a formar-se? E um Cristiano Ronaldo, mesmo precoce, demorou quantos anos a tornar-se um grande jogador de futebol? Achar que um bom “trader” nasce da noite para o dia é viver no mundo das ilusões, um mundo tão característico do “glamour” dos mercados e, ao mesmo tempo, tão irreal. Bem sei que muitos modelos também acreditam que, num par de semanas, se tornam em bons actores, mas nem nisso estou de acordo. Mais cedo ou mais tarde, as fragilidades revelam-se. Muitas vezes, nos piores momentos.

Em qualquer actividade, são precisas milhares de horas para se formarem bons profissionais. Dez mil horas é um número muitas vezes utilizado para se definir o tempo mínimo necessário para se atingir a excelência. Um número é subjectivo mas a verdade é que a experiência assume um papel determinante. Não é por acaso que, para alguns destinos, só podem tripular aviões quem tenha mais de um determinado número de horas de voo. Atingir a excelência demora o seu tempo e os mercados financeiros não são excepção à regra. E não falo apenas das horas em que acompanha a evolução das cotações. Quantas horas por semana perde a rever os seus negócios, contrapondo os seus argumentos que o levaram a abrir uma posição com aquilo que se veio a verificar no futuro? Quantas horas por semana investe a analisar gráficos ou os dados fundamentais das empresas?

“Anote cada negócio que fez e a justificação para essa sua opção, de forma a depois poder avaliar os seus negócios e perceber os seus erros”, sugiro eu. “Ah e tal, faço imensos negócios por dia, não tenho tempo para isso”, é uma das frases que aqueles que me pedem ajuda para os formar como “traders” costumam dar a essa minha primeira exigência para os ajudar nesse processo. A minha resposta é fria e directa: “Se não tens tempo para anotares (nem que seja numa frase) a justificação para os teus negócios, não tens condições para evoluíres a sério.”

O processo de desconstrução mental da anatomia de um “trade” é decisivo para nos percebermos a nós próprios como investidores e para chegarmos à conclusão do que estamos a fazer bem e mal. Isto exige muitas horas de trabalho. Trabalho de laboratório, trabalho aborrecido, trabalho de sapa, bem longe daquele “glamour” e espectacularidade que atraem tantos investidores para os mercados. Muito longe daqueles momentos épicos que quem assistiu ao “Lobo de Wall Street” tem na memória. Na realidade, é sobretudo de fato de macaco que se faz o crescimento dos “traders”.

Vejo muitos aspirantes a “traders” dizerem que têm vontade, desejo de vencer e ambição. Mas, no seu íntimo, acreditam que o sucesso não precisa de tanto trabalho assim. Olhar para as cotações é diferente de trabalharmos para sermos melhores “traders”. E é quando os mercados estão fechados que o trabalho invisível do investidor é mais importante. O piscar incessante das luzes verdes e vermelhas durante as sessões é estimulante e capaz de entusiasmar o mais calmo dos investidores, mas é longe desse clima, na monotonia de olhar para gráficos e relatórios que a evolução se faz. É nesses momentos que tem de sobrar tempo para avaliar o que esteve na génese das decisões dos bons e maus “trades”.

É verdade que se eu, sem qualquer conhecimento de medicina, for operar um paciente, só um milagre fará com que a operação corra bem. Mas se alguém, sem qualquer conhecimento do mercado, negociar durante 2 ou 3 meses, é possível que tenha sucesso. E esse é o problema que conduz ao desastre de muitos, sobretudo aqueles que entraram no topo dos “bull markets” em que para ganhar dinheiro basta fechar os olhos, comprar uma acção e vender uns dias ou umas semanas depois.

Não basta apenas dizer que se quer ganhar dinheiro nos mercados. Não basta apenas dizer que se quer aprender. Não basta apenas dizer que se vai trabalhar para isso. Há que deixar as palavras, arregaçar as mangas, estudar, aprender e analisar. Ter a coragem de se avaliar sistematicamente, corrigindo aquilo que está a fazer mal. E daqui a uns anos, quem sabe, estará em condições de ser um investidor de sucesso. Ou maldizer o autor desta crónica.

Se negoceia há dois ou três anos e acha que já é um excelente investidor, repense. Não perca o entusiasmo, mas modere as expectativas. E trabalhe porque, se não o fizer, um dia o irónico, impiedoso e letal mercado irá mostrar-lhe que tem ainda um longo caminho rumo ao sucesso. 

Artigo escrito em 04/06/21 às 12h40

Artigo escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico



 

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ULISSES PEREIRA Analista independente ulissespereira@hotmail.com

 

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