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Daniel Traça 29 de Janeiro de 2020 às 18:30

Competências para o futuro

Encontrar e validar formas de desenvolver e certificar novas competências é um repto que se põe hoje a todas as instituições, profissionais e agentes no ensino. É uma responsabilidade que temos perante as gerações que estamos a preparar para o futuro.

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Na semana em que a Microsoft organiza a sua segunda conferência sobre o futuro digital em Portugal, importa refletir sobre as competências que serão exigidas à presente geração e as implicações para o ensino primário, secundário e superior (e para os conselhos que devemos proporcionar enquanto país). O decénio que chega confirmará a aceleração de tendências que já são hoje claras, com implicações para o perfil de competências que teremos de desenvolver.

 

Em primeiro lugar, a tecnologia digital, a computação avançada e os dados permearão todos os setores produtivos, fazendo da literacia digital uma competência básica. Em segundo lugar, o desenvolvimento exponencial da ciência exigirá capacidade para adquirir constantemente novos conhecimentos e desaprender os que ficam obsoletos, ditando um sentido crítico, um espírito de curiosidade e uma disponibilidade para aprender ao longo da vida. Em terceiro lugar, num mundo de inovação disruptiva em que a agilidade organizacional será a primeira linha de defesa competitiva, a coragem para tomar decisões e correr riscos bem como a generosidade e a inteligência emocional para trabalhar em equipa e promover a diversidade farão a diferença.

 

Assim, a consultora McKinsey & Co estima que, até 2030, na Europa e nos EUA, a procura de competências tecnológicas cresça 55%, a de competências emocionais 24% e a de competências cognitivas avançadas 8%. Em contraste, a procura de competências cognitivas básicas e competências manuais e físicas decrescerão 15% cada.

 

Desenvolver nos jovens estas competências tecnológicas, emocionais e sociais constituirá um enorme desafio para os sistemas de ensino mais rígidos, focados na transmissão unidirecional de conhecimento, frequentemente pouco relevante, de professor para aluno. Em alternativa, a nova abordagem implicará ênfase na interdisciplinaridade, na autodescoberta, na aprendizagem informal, na tomada de decisões com pouca informação, na análise do erro, na coragem de desafiar ou na participação em projetos em equipa.

 

Dois exemplos atestam a inadequação do sistema educativo em Portugal. Em primeiro lugar, a exigência de que jovens de 14 anos, no acesso ao décimo ano, tenham de fazer escolhas que condicionam o seu futuro profissional num mundo em que sabemos que a única constante é a mudança de carreira. Em segundo lugar, o modelo de acesso ao ensino superior premeia apenas o sucesso académico, desencorajando pais e professores de desenvolverem experiências que permitam fortalecer a coragem, a colaboração ou o propósito. A adaptação dos sistemas de ensino será dificultada por razões políticas, pelo que exigirá aos professores novas habilitações e que haja uma mudança nas escolas e nos ministérios responsáveis, mas, sobretudo, porque as formas de desenvolver estas competências estão ainda longe de estar validadas.

 

Na Nova SBE, estamos a experimentar, de várias formas, trabalhar as competências "à prova do futuro" (i.e. "future-proofed"). Primeiro, tirando partido das variadas atividades no campus de Carcavelos para certificar as competências desenvolvidas pelos alunos que as organizam e nelas participam. Segundo, imbuindo os nossos programas de licenciatura e mestrado de formação nas áreas tecnológicas e de "data science" - razão pela qual iniciámos este ano um mestrado em Business Analytics, cujas candidaturas se encontram já abertas e com muita procura. Em terceiro lugar, estamos a introduzir programas baseados no desenvolvimento de projetos e a promover o empreendedorismo, a fim de permitir aos alunos aprender a tomar decisões, liderar equipas, criar soluções inovadoras, não desistirem perante o fracasso e aprenderem com os erros. Por último, ajudamos os alunos a descobrir o que os move e a desenvolver autoconhecimento através de programas de "coaching" ou de histórias e palestras inspiradoras.

 

Encontrar e validar formas de desenvolver e certificar novas competências é um repto que se põe hoje a todas as instituições, profissionais e agentes no ensino. É uma responsabilidade que temos perante as gerações que estamos a preparar para o futuro. Mas é também um desafio para a economia do país, que exige que se financiem, apoiem e libertem as escolas e as universidades focadas no futuro.

 

Professor na Nova SBE

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