A escola do futuro não será só uma escola
A escola do futuro terá de ser mais experimental, mais humana, mais exigente e mais aberta. Mais do que ensinar a usar tecnologia, tem de ensinar a pensar para além dela. Deve preparar para o mercado de trabalho, mas não se limitar a servi-lo. Deve formar profissionais competentes, e cidadãos livres, críticos e responsáveis.
Daqui a cinco anos, metade dos cursos que hoje oferecemos poderão estar obsoletos. Esta afirmação pode parecer provocatória, mas talvez seja apenas realista. Foi essa a pergunta que colocámos no centro da conferência internacional “Future of Universities”, realizada na Nova SBE, perante líderes académicos, decisores públicos, gestores, empreendedores e estudantes.
A questão é simples, mas desconfortável: se o mundo muda mais depressa do que nos conseguimos adaptar, qual é ainda o papel das universidades? Durante demasiado tempo, organizámos a educação em torno de modelos de transmissão de conhecimento: o professor ensina, o aluno escuta e, no fim, uma avaliação mede. Este modelo está esgotado. O conhecimento está hoje disponível em abundância, em múltiplos formatos, cada vez mais personalizado e acessível. Há tecnologia e inteligência artificial (IA) capaz de nos explicar um determinado conceito a qualquer hora, com paciência infinita. Uma das promessas mais interessantes é a possibilidade de escalar o ideal do tutor pessoal, como referiu Pedro Santa Clara, Diretor da 42 e TUMO: um tutor socrático, adaptativo e que acompanha o progresso.
O desafio não é ensinar conteúdos. É formar pessoas capazes de pensar, escolher e agir num mundo saturado de informação. A IA tornou esta discussão inevitável. Como lembrou Francisco Veloso (INSEAD), a propósito do estudo de casos: “[...] como o conhecemos, morreu”. Um estudante pode hoje entregar um caso a um modelo de linguagem e chegar à aula com uma resposta aparentemente perfeita. Isto não significa o fim da aprendizagem. Significa que temos de reinventar a forma como ensinamos, avaliamos e criamos experiências de aprendizagem.
O mesmo se aplica à medicina, como sublinhou Helena Canhão, secretária de Estado da Educação, Ciência e Inovação. A IA permite-nos hoje “treinar a falha”, simulando situações que antes exigiam um paciente real e um risco real. A tecnologia não substitui a experiência humana: expande-a e transforma o erro num espaço seguro de aprendizagem.
A escola do futuro será menos uma instituição fixa e mais um ecossistema vivo: um lugar de experimentação permanente. Como avisou Cláudia Sarrico, aecretária de Estado do Ensino Superior, a experimentação sem avaliação também comporta riscos. Inovar por si não chega: temos de testar, medir, aprender e corrigir. A escola do futuro deve ser ousada, mas não irresponsável.
Mas essa promessa traz também uma pergunta difícil: se a IA substitui quase tudo, qual é então o valor acrescentado do professor?
A resposta não está na simples entrega de conhecimento, como disse Nathalie Crutzen (HEC Liège). O professor será provocador intelectual, guardião da exigência, curador e mentor. Alguém que ajuda a fazer melhores perguntas, a distinguir evidência de aparência, a lidar com ambiguidade e a construir critérios próprios.
Num mundo cheio de respostas plausíveis, mas falsas, a universidade terá a missão de proteger a verdade, como indicou Manuela Veloso (CMU): formar cidadãos capazes de resistir à manipulação, ao ruído e à superficialidade; manter espaços onde se duvida com método, se testa com rigor, e se erra com consequência.
Ashley Whillans (HBS) lembrou a importância de desenhar sistemas e incentivos que apoiem o corpo docente a experimentar tecnologia.
Por isso, as competências humanas continuam a ser centrais. Enno Siemsen (Wisconsin School of Business) recordou que os recrutadores procuram mudou pouco: comunicação, liderança, visão, pensamento crítico e independência – e hoje acrescentaríamos resiliência. Margarida Sousa Uva (Deloitte) disse-o de forma provocatória: “O ChatGPT é hoje mais resiliente do que alguns diplomados.” Faz sorrir, mas deve fazer pensar.
A escola do futuro terá de formar pessoas tecnicamente competentes e intelectualmente robustas, capazes de aprender, desaprender e voltar a aprender, capazes de colaborar com máquinas sem depender delas, capazes de usar e questionar a IA. E há um ponto decisivo: não será apenas para jovens. Céline Abecassis-Moedas (UCP) lembrou que, em 2030, metade da população portuguesa terá mais de 50 anos. A aprendizagem deixará de estar concentrada nos primeiros 25 anos E a universidade terá de acompanhar carreiras, transições profissionais, requalificações e novas formas de participação social.
Neste contexto, os diplomas tradicionais talvez deixem de ser o foco da educação. Continuarão a existir, mas lado a lado com percursos mais flexíveis, modulares e contínuos. A pergunta deixará de ser “que curso tiraste?” e passará a ser “o que sabes fazer, como pensas, como aprendes e que problemas resolves?”
Isto não significa que o campus deixe de importar. Pelo contrário, num mundo cada vez mais digital, o espaço físico torna-se ainda mais valioso. Pedro Ferreira (CMU) descreveu o campus como um “espaço seguro de experimentação para testar, falhar, debater e amadurecer". Um lugar onde a tecnologia amplifica a aprendizagem, mas a experiência humana continua no centro. Pedro Ferreira deixou ainda a pergunta: a discussão não é o valor criado pela IA, mas quem o captura. E aqui as universidades estão numa posição privilegiada, porque ao contrário das empresas e governos que têm de tomar decisões em ciclos mais curtos.
O maior erro seria pensar que a discussão sobre IA e educação é apenas tecnológica. Não é; é institucional, pedagógica, económica, ética e cultural. Como lembrou Karim Lakhani (HBS), os modelos estão a melhorar a um ritmo exponencial e a assimetria de recursos entre quem desenvolve a tecnologia e quem a deve pensar criticamente é vertiginosa. Sem articulação estruturada entre academia e indústria, a universidade arrisca-se a discutir a IA com vocabulário que a IA já ultrapassou.
A escola do futuro será definida também pela sua capacidade de criar melhores experiências de aprendizagem. Não será medida apenas pela informação que transmite, mas pela qualidade das pessoas que forma. Será sobre uma comunidade de aprendizagem ao longo da vida. A pergunta é se teremos a coragem de a redesenhar antes de se tornar irrelevante.
Na minha opinião, a escola do futuro terá de ser mais experimental, mais humana, mais exigente e mais aberta. Mais do que ensinar a usar tecnologia, tem de ensinar a pensar para além dela. Deve preparar para o mercado de trabalho, mas não se limitar a servi-lo. Deve formar profissionais competentes, e cidadãos livres, críticos e responsáveis.
Para isso, precisamos de instituições que façam três coisas em simultâneo: formular as grandes questões, ancorar-se em problemas concretos do país, e articular-se com o tecido empresarial e com os parceiros internacionais sem perder identidade. Esse triângulo — ambição intelectual, enraizamento, abertura — é exigente, mas faz sentido para um país do nosso tamanho.
Daqui a cinco anos, talvez muitos dos cursos que hoje conhecemos já não façam sentido. Mas a missão profunda da educação continua a ser indispensável: ajudar cada pessoa a compreender o mundo, a transformar-se a si própria e a contribuir para transformar a sociedade.
Essa é a escola do futuro que vale a pena construir.
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