Estará a Europa condenada a ficar para trás na IA?
O investimento continua altamente concentrado fora da Europa e a fragmentação do mercado europeu limita a capacidade de transformar inovação em liderança global. Diferenças regulatórias, falta de coordenação e mercados dispersos continuam a travar o crescimento das empresas.
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A ideia de que a Europa está a ficar para trás na inteligência artificial (IA) tornou-se quase consensual. Nas últimas décadas, o continente consolidou uma posição paradoxal na economia global: forte na regulação, consistente na produção de conhecimento, mas fraco na criação de gigantes tecnológicos.
O desenvolvimento da IA evidencia diferenças claras entre EUA, China e Europa, que podem ser comparadas através de vários indicadores objetivos. Em termos de investimento, os EUA lideram destacadamente, com mais de 100 mil milhões de dólares investidos anualmente em IA. A China investe cerca de 9 mil milhões, enquanto a Europa permanece bastante abaixo, com valores entre 4 e 5 mil milhões (Stanford HAI, AI Index Report 2025).
Outro indicador relevante é o número de modelos avançados de IA, como os 'large language models'. Em 2024, os EUA desenvolveram cerca de 40 modelos relevantes, a China cerca de 15 e a Europa apenas 3. Também ao nível das patentes, a China lidera em volume, refletindo uma estratégia assente na escala e na produção massiva, enquanto os EUA continuam a destacar-se pela qualidade e pelo impacto das inovações. A Europa apresenta menor volume, mas mantém uma elevada qualidade científica.
Na produção científica, a China já ultrapassou os EUA e a Europa em número de publicações, representando mais de um terço do total mundial. No entanto, quantidade não equivale necessariamente a liderança tecnológica. Os EUA mantêm vantagem na infraestrutura computacional e no acesso a chips avançados, enquanto a China beneficia da sua escala industrial e de recursos energéticos. A Europa, apesar de alguns investimentos recentes, continua atrasada nesta dimensão.
Em síntese, a primeira vaga da IA, centrada em modelos de linguagem e plataformas digitais, passou, em grande medida, ao lado da Europa no que toca à criação de valor. No entanto, o impacto da IA mede-se também pela sua aplicação na economia real e na sociedade. E é precisamente aqui que a Europa pode ainda ter uma oportunidade.
Vários exemplos já mostram esse potencial. Empresas como a Siemens utilizam IA para transformar fábricas em sistemas inteligentes, capazes de prever falhas, otimizar processos em tempo real e reduzir desperdícios. O impacto traduz-se diretamente em ganhos de produtividade e competitividade. No Reino Unido, o NHS recorre à IA para prever a procura hospitalar e melhorar a gestão de recursos, reduzindo tempos de espera e aumentando a eficiência dos serviços. Na Dinamarca, chatbots facilitam a interação entre cidadãos e administração pública, tornando o Estado mais acessível e menos burocrático. Em cidades como Verona, a IA está a ser utilizada para gerir o trânsito em tempo real, melhorando a mobilidade urbana.
Mas a Europa não está limitada à aplicação da tecnologia. Empresas como a francesa Mistral mostram que também é possível desenvolver modelos próprios, alinhados com os valores europeus, nomeadamente em áreas como transparência, proteção de dados e soberania tecnológica.
Neste contexto, ganha relevância a tese apresentada no artigo recente da Fortune, “Europe’s second chance on AI: building an opportunity in factories, labs, and the real economy”. Segundo os autores, a próxima fase da IA poderá redefinir o equilíbrio global, e, desta vez, a Europa poderá entrar no jogo com vantagens reais.
Se a primeira vaga foi essencialmente digital, baseada em dados da Internet e em grande escala computacional, a próxima será cada vez mais uma IA do mundo físico: fábricas inteligentes, robótica avançada, novos materiais, sistemas energéticos e cadeias logísticas autónomas. Como sublinha o artigo, a inovação deixará de acontecer apenas “nas janelas de chat” e passará a ocorrer “onde a inteligência encontra a matéria”.
A Europa continua a ser uma potência científica, com forte produção académica e formação sólida em áreas STEM. Possui um tecido industrial profundo e sofisticado, que gera dados do mundo real, um recurso crítico para a nova geração de IA. E tem ecossistemas colaborativos que ligam universidades, empresas e setor público, criando condições favoráveis à inovação aplicada.
Esta mudança altera a lógica competitiva. A vantagem deixa de depender apenas da escala computacional e passa a assentar na capacidade de integrar conhecimento científico, dados industriais e aplicação prática. A IA deixa de ser apenas um produto tecnológico e passa a ser uma infraestrutura produtiva.
Persistem, contudo, obstáculos relevantes. O investimento continua altamente concentrado fora da Europa e a fragmentação do mercado europeu limita a capacidade de transformar inovação em liderança global. Diferenças regulatórias, falta de coordenação e mercados dispersos continuam a travar o crescimento das empresas.
Nesta fase, o desafio europeu não é tecnológico, é estratégico. Passa por transformar conhecimento em escala, ligar investigação ao mercado e escolher integração em vez de fragmentação.
E Portugal?
Para além do papel das grandes empresas, uma das formas mais eficazes de países como Portugal se posicionarem na nova vaga da IA passa pela adoção generalizada de IA pelas pequenas e médias empresas (PME). Sendo a economia portuguesa fortemente baseada neste tipo de empresas, é aqui que reside o maior potencial de transformação.
A integração de soluções de IA, desde a automação de processos à análise de dados e otimização operacional, pode aumentar significativamente a produtividade, a competitividade e a capacidade de inovação. Mais do que competir diretamente na criação de grandes modelos, Portugal pode ganhar vantagem ao aplicar a IA nos seus setores tradicionais, tornando-os mais eficientes e tecnologicamente avançados.
As universidades podem desempenhar um papel central neste processo, não só na formação de talento, mas também na adaptação da IA às necessidades específicas das PME. Desta forma, as PME deixam de ser apenas utilizadoras de tecnologia e passam a ser motores ativos de transformação económica.
A corrida da IA não se decide apenas nos laboratórios ou nos grandes modelos: decide-se na capacidade de integrar inteligência no tecido económico e social. E é precisamente aí que a Europa, e Portugal, ainda pode ganhar.
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