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[367.] Nestea

A Nestea anunciou para esta semana manifestações de rua para "pôr no dicionário" o termo "Mudasti", coincidindo com o lançamento de uma campanha na TV e na Internet em volta do "movimento mudasti no dicionário".

Segundo o "Manifesto" da Nestea, a "reivindicação" resulta de a marca ter introduzido em 2005 a expressão "Mudasti" no quotidiano. Havendo "imensas" "palavras insignificantes" nos dicionários, diz, porque não retirá-las e incluir "mudasti"? A ignorância é sempre muito atrevida. As palavras dos dicionários que desconhecemos e não usamos devem lá continuar por múltiplas razões, incluindo o seu uso por outras pessoas, cultas, estudiosas ou apenas curiosas. Os dicionários servem para muitas coisas, como ler livros de outros tempos e não apenas "tweets" e anúncios de cinco minutos atrás. O "manifesto" da Nestea dá como exemplo de "palavras insignificantes" o verbo "exaurir", que tem uso razoável, estando próximo de vocábulos com a mesma origem e de uso generalizado, como "exausto". No "site" da marca há até um "lixionário" de "palavras inúteis" que devem "ser excluídas". É a insolência da ignorância.

A campanha "Mudasti", como comentei na altura, era uma tentativa de uma marca minoritária de impor uma mudança nos hábitos de consumo, levando as pessoas a passarem do chá engarrafado Ice Tea, da Lipton, para a marca de chá engarrafado da Nestlé. O uso de "Mudasti" no quotidiano é um fenómeno de moda vocabular efémera, como o de centenas de outras expressões populares vinda da música e dos media.

Não quero exagerar na crítica, pois a "reivindicação" vocabular é apenas mais uma ficção publicitária que pretende ter graça e chamar a atenção, fomentando vendas de um produto alimentar. Mas a publicidade tem uma responsabilidade social, e fomentar a ignorância e o desprezo pela cultura e pelo passado não devem fazer parte do seu caderno de encargos.

A vaidade dos publicitários de quererem pôr a sua palavra "mudasti" nos dicionários, sendo real ao mesmo tempo que é ficcional, revela, freudianamente, o mesmo desespero que esteve na origem da campanha original, agora estimulando uma campanha pública artificial para fingir que pedem ao Estado, ou à Academia, ou às editoras (?), que se oficialize uma palavra quando, aparentemente, os consumidores não lhe deram o lugar nos frigoríficos que os accionistas da Nestlé pretendiam.

O recurso à manifestação, acção social por excelência, não é novo. Várias marcas têm organizado "manifestações" ou "concentrações", como a da T-Mobile em Trafalgar Square, cantando em karaoke "Hey Jude", dos Beatles em microfones distribuídos pela multidão que acompanhou a canção por ecrã gigante (2009). Embora o que unisse os participantes fosse a música, o anúncio pressupunha a união de gente de todas as idades e cores, de sem-abrigo e engravatados. Outros anúncios preferem a dança colectiva em estações e aeroportos como elemento unificador da multidão.

O que distingue dessas a campanha da Nestea é o tom politizado ("exigimos justiça"!), simulando a "reivindicação" de inclusão da "sua" palavra comercial nos dicionários. O lado "realista" que sempre tem a publicidade, acentua-se aqui pela utilização do espaço público e recurso a uma forma milenar de mobilização das pessoas. Pelo uso de figurantes pagos, a multidão "política" torna-se também uma mercadoria, um bem de consumo fugaz destinado a fazer vender mais produtos. O "ranking" da marca nas vendas de chás engarrafados intui-se neste apelo à manifestação, que é uma espécie de último recurso das minorias para chamarem a atenção, fazendo-se ver e ouvir no espaço público.

ect@netcabo.pt




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