A tosse do Terreiro do Paço
Só quando o Terreiro do Paço fica intoxicado é que se descobre, finalmente, que o país já ardeu. O Terreiro do Paço e o poder político português vive do lado de cá do Muro de Betão que construiu à volta de Lisboa. Não consegue vislumbrar o país real.
Lisboa, o centro do antigo Império com pés de barro, respira aliviada. Depois de ter tossido com o fumo do fogo de Mafra e de o sr. Ferro Rodrigues ter conseguido as suas duas maiores vitórias políticas desde que é secretário-geral do PS (ter casado o filho e ter recuperado o seu cão Gastão), a capital vira-se para problemas que verdadeiramente importam.
No caso: irá o sr. Luís Filipe Vieira conseguir uma vitória esmagadora, estilo das do sr. Saddam Hussein, face ao sr. Jaime Antunes? Conseguirá o sr. Dias da Cunha comprar um novo relvado que não esteja contaminado pelo temível fungo que põe em causa a reconhecida qualidade de jogo da sua equipa? Será que o sr. Camacho conseguirá reduzir o tempo de jogo para 89 minutos certos (menos 40 minutos de faltas) para não sofrer dois golos? Será que o mesmo sr.
Camacho, quando se referia aos quatro reforços que urgentemente necessitava, falava de defesas porque, como se comprovou no jogo com o Belenenses, não tinha suficiente no banco para jogar com 11 jogadores mais recuados?
É isso que interessa ao país que fica entre a Assembleia da República e a Segunda Circular. Só quando o Terreiro do Paço fica intoxicado é que se descobre, finalmente, que o país já ardeu. Embora o poder simbolizado pelo Terreiro de Paço não consiga resolver um problema que está à sua vista: as obras de Santa Engrácia em que se tornou o impossível túnel do metro.
O Terreiro do Paço e o poder político português vive do lado de cá do Muro de Betão que construiu à volta de Lisboa. Não consegue vislumbrar o país real. No tempo do sr. Eça de Queiroz ia-se a Sintra respirar ar puro e conhecer umas espanholas. Hoje vai-se aos centros comerciais ver o “silly country” do consumo.
O betão tem sido a máscara de oxigénio do país. Pensava-se, ingenuamente, que os bombeiros voluntários, os Canadair emprestados por Marrocos e a sorte resolviam o resto. Há uma coisa em que os dirigentes políticos e os futebolísticos são diferentes: os primeiros não podem culpar os árbitros pelos seus desaires. Não mereciam tal sorte.
Portugal é um país curioso. Quando uma borboleta deixa de ter uma planta para pousar em Monchique e bate as asas, o Terreiro do Paço tosse e uma ponte no IC 19 cai. Portugal é o país perfeito para se aplicar a Teoria do Dominó do sr. John Foster Dulles. Este dizia que, quando um país caísse nas mãos dos comunistas, todos os que estavam à volta seriam subjugados pelos seguidores do sr. Estaline.
Em Portugal utiliza-se mais uma versão terceiro-mundista da Teoria da Conspiração: a Teoria da Constipação. Isto é: se o sr. Camacho continuar a perder pontos, o sr. Luís Filipe Vieira cairá? Se a relva de Alvalade continuar com fungos, o sr. Dias da Cunha zangar-se-á com o sr. Pinto da Costa nos dias em que não tiver o privilégio de jantar com ele? Se o sr. Deco deixar de fintar e continuar com uma “crise de inspiração”, o sr. Derlei terá de gritar mais vezes para que o árbitro expulse um adversário? Em Portugal quando alguém tosse no futebol o país constipa-se. Quando é que haverá o Ministério da Saúde do Futebol, para que o ar se torne mais respirável?
Cada vez que se abre uma porta, Portugal constipa-se. E quando há demasiadas portas abertas ao mesmo tempo (Moderna, pedofilia, fogos, pontes a cair) o país apanha uma pneumonia. E ainda o sr. Pinto da Costa não se lembrou disso para utilizar a sua “conhecida ironia”, aplicada no caso ao centralismo lisboeta. Mas há que acreditar que, quando conseguirmos driblar o problema dos 3% do défice e o Euro’2004 trouxer muitas alegrias ao país, tudo ficará melhor.
Portugal transformar-se-á então num oásis paradisíaco. Será então possível transformar o “slogan” do país em “sol, praia e futebol, num paraíso próximo de si”. Se o país se tornasse num enorme relvado, talvez se resolvessem muitos dos problemas estruturais de Portugal. O país é um campo de futebol onde o tempo útil de jogo é sempre metade do que seria normal. É essa a nossa anormalidade.
Mais lidas