Ano zero
2008 foi triturador, de riqueza, de modelos, de expectativas, de confiança. 2009 será um "ano zero" de crescimento, de inflação, de taxas de juro. Mas zero também poderá significar início.
2008 foi triturador, de riqueza, de modelos, de expectativas, de confiança. 2009 será um "ano zero" de crescimento, de inflação, de taxas de juro. Mas zero também poderá significar início.
Um "ano zero" de crescimento económico. Um crescimento da economia mundial na ordem de 1,5% a 2,5% corresponde a operar no limiar da recessão, com contracção do PIB real entre 1% e 2% nas principais economias e um fraco contributo das economias em desenvolvimento para o crescimento mundial. Um "ano zero" em criação de emprego.
A correcção sem tréguas no preço das matérias-primas está a reflectir-se numa quebra acentuada das taxas de inflação. Em Novembro, uma redução superior a 2 pontos percentuais na taxa de inflação nos EUA, a retoma de um nível de inflação na área do euro em conformidade com o objectivo de estabilidade dos preços do BCE, um dos valores mais baixos da história recente na taxa de inflação homóloga em Portugal. Nos próximos meses deverão ocorrer situações pontuais de taxas de inflação negativas. Em média, um "ano zero" de pressões inflacionistas relevantes.
A redução da inflação é benéfica, na medida em que potencia o rendimento real (quando há!) e possibilita juros mais baixos, mas é devastadora quando se transforma em deflação num contexto de endividamento elevado. Vários bancos centrais colocaram as taxas directoras na vizinhança de zero. A Reserva Federal norte-americana adoptou um intervalo para a variação da "fed funds rate" entre 0% e 0,25%. O Banco do Japão encontrou espaço para nova redução das taxas de juro, que passaram dos já reduzidos 0,3% para 0,1%. O Banco Nacional da Suíça colocou o intervalo objectivo para a variação da Libor 3m do franco suíço entre 0% e 1%. O Banco de Inglaterra admitiu poder seguir idênticas opções. Entre os bastiões mais comedidos do BCE, a perspectiva de uma taxa de juro inferior a 2%, que seria o valor mais baixo da história do euro, deixou de ser tabu. Um "ano zero" na política monetária.
A persistência de dificuldades nos mercados financeiros e a ausência de pressões inflacionistas têm contribuído para a redução das taxas de juro ao longo da curva de rendimentos. Nos EUA, pontualmente as taxas de juro dos bilhetes do Tesouro foram negativas e a taxa de juro de dívida pública norte-americana a 10 anos atingiu um dos valores mais baixos de que há memória. O compromisso em alargar o âmbito de intervenção da política monetária, como iniciado nos EUA e no Japão e em estudo noutros países, aponta para um "ano zero" nas taxas de juro.
Alguns activos financeiros apresentam níveis extremos de valorização relativa quando referenciados pela experiência histórica recente. O diferencial praticamente nulo entre o valor de uma acção e o seu valor contabilístico revela quão debilitada se encontra a confiança dos investidores na capacidade das empresas em criarem riqueza. Longe de zero estão a incerteza, a volatilidade e os prémios de risco, que relembram as dificuldades da actual conjuntura. Um "ano zero" na "alavancagem".
Mas "zero" também pode significar início. O ano em que as medidas de política económica agora tomadas e os próprios estabilizadores automáticos dos ciclos, como os preços, começam a surtir os efeitos pretendidos. O "ano zero" do arranque do investimento, em que se estruturam as bases para os proveitos do futuro. E perfila-se grande esforço de despesa por parte dos Estados, tal como no início de um projecto, em que os capitais próprios escasseiam e que se planeia com cuidado, em que se ponderam alternativas igualmente relevantes, em que se teme e enfrenta o risco de falhar.
Um "ano zero" de endividamento. A alteração das circunstâncias nos mercados mundiais e no apetite dos investidores pelo risco incapacita modelos económicos com suporte num recurso sistemático e crescente ao financiamento externo. Alterar hábitos de consumo e fazer corresponder necessidades com capacidades será a arte dos próximos anos. Um "ano zero" na transparência. Depois da demagogia da facilidade financeira e do turbilhão da frustração, a confiança no simples, no que se percebe, no que se pode fazer. Um "ano zero" para a mensagem política, com pontapé de partida em Janeiro na tomada de posse da nova Administração nos EUA e que se prolonga em diversos actos eleitorais europeus.
À semelhança das campanhas deste Natal, recicla-se a trituradora de 2008, aproveita-se o que está bem, reconverte-se o que se estragou e recomeça-se. "Zero" porque é o início, não porque é irremediável. Poucas vezes se aplicou tão bem o adágio desta época: Ano novo, Vida nova. A todos, continuação de um Feliz Natal.
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