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Negócios negocios@negocios.pt 09 de Janeiro de 2002 às 17:49

Mira Amaral: «A Fuga de Guterres»

Acabada a pesada herança e vindo o tempo das vacas magras, o guterrismo esboroou-se completamente, deixando uma pesadíssima herança de total desequilíbrio nas finanças públicas, de estagnação económica e de irresponsabilidade.

Acabada a pesada herança e vindo o tempo das vacas magras, o guterrismo esboroou-se completamente, deixando uma pesadíssima herança de total desequilíbrio nas finanças públicas, de preocupante falta de autoridade do Estado, de estagnação económica e de irresponsabilidade, laxismo e facilitismo para os que lhe vão suceder.

Tal como fez o Dr. Jorge Coelho que aproveitou a tragédia de Entre-Rios para se libertar dum ministério em que estava atolado, também o Engº António Guterres aproveitou a «débacle» socialista nas eleições autárquicas para pedir a demissão e fugir às suas responsabilidades como Primeiro-Ministro. Chega assim ao fim sem honra nem glória e ao fim de seis anos completamente perdidos para o país o ciclo guterrista.

Que pena que faz ver a «performance» como Primeiro-Ministro daquele que foi o mais brilhante aluno de engenharia electrotécnica dos nossos tempos do Instituto Superior Técnico. Superiormente inteligente, o Engº António Guterres achou que conseguiria chegar a Primeiro-Ministro sem nunca ter de fazer nada de concreto na vida, utilizando a sua oratória e capacidade de comunicação e o que é facto é que conseguiu.

Enquanto foi aproveitar a «pesada herança cavaquista» e disfrutar do período das vacas gordas, assistiu-se apenas a uma desenfreada demagogia, total irresponsabilidade e incompetência na gestão da coisa pública, completo sectarismo político no aparelho estatal e nas empresas públicas com o assalto dos «boys» e o saneamento, muitas vezes com enxovalhos na comunicação social, de gente competente que tinha cometido o «crime» de trabalhar para um governo legítimo mas de outra cor.

Sob a capa do diálogo exerceu-se o poder com total arrogância sobre aqueles que não tinham acesso à comunicação social, esquecendo completamente a oposição em assuntos de Estado e que mereciam consenso nacional, como foi o vergonhoso caso da Lei de Programação Militar. Cedia-se apenas e com chocante tibieza aos «lobbies» organizados e, sobretudo, àqueles que tinham acesso à comunicação social. Sob a capa da solidariedade social, esbajaram-se perdulariamente milhões de contos do erário público sem resolver os problemas sociais e agravando a carga fiscal sobre a classe média.

Acabada a pesada herança e vindo o tempo das vacas magras, o guterrismo esboroou-se completamente, deixando uma pesadíssima herança de total desequilíbrio nas finanças públicas, de preocupante falta de autoridade do Estado, de estagnação económica e de irresponsabilidade, laxismo e facilitismo para os que lhe vão suceder.

O Eng. Guterres conta com a passagem do tempo para nos fazer esquecer este período muito negro da sua governação e branquear a sua imagem.

O resultado das eleições autárquicas parece mostrar que o povo português, no seu tradicional bom senso e na sua infinita sabedoria, já se apercebeu do estado em que estes senhores colocaram o país e que não tolera mais o autismo e a arrogância daqueles que julgavam que tinham uma quinta privada, como foi evidente no Porto ou em Sintra, ou que julgavam que o povo ainda tinha medo do papão fascista como aconteceu em Lisboa.

Fomos daqueles que nos governos do PSD demos o benefício da dúvida ao Engº Guterres e que assistimos com algum «wishfull thinking» corporativo ao facto dum Engº, perdão dum licenciado em engenharia, ascender à chefia do Governo - mea culpa! Mas no inicio da governação socialista, a demagogia, a irresponsabilidade e a total falta de seriedade com que foi conduzido o dossier Foz Coa fizeram-nos desde logo antever como iria ser a governação guterrista e infelizmente os maus presságios concretizaram-se completamente! O Engº Guterres foi a maior desilusão política que tivemos até hoje.

O despesismo público começou com o Prof. Sousa Franco mas o auge do descalabro economico-financeiro deu-se com o Dr.Pina de Moura, como Super Ministro da Economia e Finanças. Foi a época da total governamentalização nas empresas públicas e semi-públicas, da incapacidade para suster a dinâmica despesista gerada anteriormente e dos erros em série na políticas fiscal e energética. Estivemos então em pleno «centralismo democrático»... No sector público, o descontrolo no IPE, na RTP e nas empresas públicas de transporte, a destruição de valor na EDP, a bronca da GALP/ENI, a proliferação de institutos públicos, a completa partidarização dos cargos dirigentes, completam o ramalhete.

A total ausência de reformas estruturais na justiça, na administração pública, na saúde e na educação, sectores em que em termos relativos gastamos muito mais que os nossos parceiros europeus e em que o «output» é menor e de pior qualidade, constituem outra dimensão de «marca guterrista».

O mesmo se passa com os ziguezagues na reforma fiscal e a total confusão instalada na máquina fiscal. Na Administração Pública, incapaz de a reformar, o Engº Guterres chegou a dizer que era a Internet que a iria modernizar, esquecendo que a tecnologia é apenas um meio, um instrumento ao serviço duma estratégia, não há nesta matéria estratégias tecnológicas mas sim estratégias que naturalmente recorrerão às novas tecnologias.

Na Segurança Social, num passo de mágica digno dum grande ilusionista político, o Engº Guterres prometeu-nos a sustentabilidade financeira do sistema público de pensões para 100 anos! Haverá alguém capaz de prever a evolução demográfica a 100 anos ?...

Em suma, a falta de liderança do Engº Guterres, a sua falta de autoridade sobre o Governo, a inépcia e falta de profissionalismo na gestão da coisa pública, a tibieza, as contradições e a falta de coragem na tomada de decisões, a navegação à vista sempre com a preocupação do que a comunicação social iria dizer e sem qualquer atenção aos problemas sérios do país, o autismo e a arrogância sobre a falsa capa do diálogo e da humildade democrática, o enorme desperdício de dinheiros públicos e a completa partidarização do estado e das empresas na sua orbita, são traços marcantes deste (des)governo.

O próximo governo vai ter uma tarefa muito dura pela frente. Reconstruir a autoridade do Estado e a credibilidade das finanças públicas, dois bens públicos essenciais para o nosso desenvolvimento, são tarefas urgentes e que vão precisar de grande coragem política... Não estamos no país cor de rosa que o Engº Guterres, na sua demagogia habitual, anunciou no discurso de Natal...

*LUÍS MIRA AMARAL
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