João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 02 de agosto de 2006 às 13:59

Tudo se desmorona

Quando, a 20 de Julho, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan presidiu na República Turca do Norte do Chipre ao trigésimo segundo aniversário da invasão turca da ilha, ...

Quando, a 20 de Julho, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan presidiu na República Turca do Norte do Chipre ao trigésimo segundo aniversário da invasão turca da ilha, denunciando o embargo europeu ao enclave, reconhecido apenas por Ancara e o Arzebeijão, já comandos turcos faziam missões de reconhecimento nas montanhas Kandil, no Curdistão iraquiano.

Ancara, em pleno braço de ferro com Bruxelas sobre o estatuto de Chipre, ameaça desencadear uma ofensiva contra as bases dos guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em retaliação pelos ataques que os separatistas curdos têm vindo a lançar a partir do norte do Iraque.

A Turquia denuncia, ainda, a complacência do governo do Iraque ao permitir a abertura de centros de propaganda do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em Kirkuk e Bagdad e exorta a União Europeia, os Estados Unidos e a NATO a apoiarem uma acção militar contra uma organização tida por terrorista nas capitais ocidentais.

Paralelamente, a Turquia negocia a sua eventual participação numa força multinacional para o Líbano graças às boas relações que mantém com Israel e ao seu estatuto de membro da NATO e da Organização da Conferência Islâmica.

A ameaça de intervenção militar turca - que deve evocar em Washington más recordações por via da recusa de Ancara em permitir a abertura de uma frente norte contra Saddam Hussein na campanha militar de 2003 - junta-se à vaga de atentados terroristas que nos últimos dois meses têm vindo a abalar Kirkuk, a capital petrolífera do norte do Iraque, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

O plano de reconciliação nacional do primeiro-ministro iraquiano Nuri al Malik revela-se, por sua vez, um fracasso e o Pentágono viu-se obrigado a transferir 3 200 homens de Mosul, no norte do país, para Bagdad num esforço para estancar a violência entre sunitas e xiitas na capital.

Perigam os planos de retirada gradual do contingente norte-americano ante a persistência da insurreição nas províncias de maioria sunita, enquanto Londres e Washington se resignam à crescente afirmação das milícias xiitas no sul do Iraque, temendo a destabilização do Curdistão iraquiano como a machadada final na periclitante unidade do estado iraquiano.

Totalmente ignaros face às realidades do Médio Oriente políticos norte-americanos, como o presidente do Partido Democrático Howard Dean, acabam a denunciar Nuri al Malik como anti-semita pelo facto do primeiro-ministro xiita recusar denunciar o terrorismo do Hizballah e acusar Israel de crimes de guerra no Líbano.

Um mistério dentro de um enigma

Condoleezza Rice e seus assessores perderam-se, entretanto, na quimera da mais estranha das campanhas militares israelitas dando cobertura política a uma ofensiva que, alegadamente, propiciaria um golpe devastador contra um aliado regional do eixo maligno sírio-iraniano.

Em boa verdade, o ataque ao Líbano revelou-se mais incoerente do que a investida israelita de 1956 contra o Suez, apoiada por Londres e Paris, e menos determinado do que as invasões de 1978 e 1982 para extirpar os guerrilheiros palestinianos.

Por razões enigmáticas, mas em que o amargo de duas décadas de intervenção directa Líbano pesou muito, o Estado-Maior de Telavive optou por uma campanha de bombardeamentos aéreos, sem a correlativa ofensiva terrestre, com o objectivo inicial de escorraçar a componente guerrilheira - dotada de arsenais de mísseis subestimados - de um movimento islamita fortemente implantado nas comunidades xiitas do sul do Líbano.

A ofensiva militar israelita falhou em toda a linha, reforçando a posição política do Hizballah. Uma acção de contra-guerrilha com ocupação territorial do sul do Líbano implicava aceitar baixas consideráveis por parte de Israel e obrigava a uma ocupação prolongada para a qual não existiam garantias diplomáticas.

O objectivo de isolar o Hizballah das demais forças políticas libanesas era necessariamente incompatível com a devastação do país. Nada resultou e Telavive entrega-se, agora, à inaudita negociação sobre a eventual presença de forças multinacionais no sul do Líbano para garantia de uma zona desmilitarizada a prazo.

A investida terrestre à terceira semana de guerra já só serve para delimitar território que venha eventualmente a ser ocupado por uma força militar internacional.

O corolário político é, ainda, mais gravoso. A capacidade de dissuasão de Israel falhou: nem degradou significativamente a capacidade de flagelação do Hizballah, nem concretizou uma ocupação territorial para erradicar focos de guerrilha. O simples facto de o Hizballah ter resistido à ofensiva e continuar a flagelar Israel com os seus mísseis é motivo suficiente para Hassan Nasrallah reivindicar vitória.

Não há político em Israel que não compreenda as implicações assustadoras do fracasso. Depois das Intifadas, após a vaga islamita, Israel mostrou-se incapaz de aplacar pela força os movimentos que põem em causa a sua existência como estado, ora as fronteiras impostas nas guerras de 1967 e 1973. Retiradas unilaterais ficam assim fora de questão sem acordos políticos com parceiros negociais reconhecidos internacionalmente. É um beco sem saída e, portanto, só resta a Telavive contar com a ameaça nuclear iraniana para recuperar margem de manobra diplomática.

Trunfos de Teerão.

Ora, se houve potência regional capaz de capitalizar com a crise libanesa foi, precisamente, o Irão. Viu desfazer-se a inicial convergência dos estados sunitas na condenação do aventureirismo do Hizballah, cavalgou a vaga de repulsa anti-americana pelo apoio à ofensiva israelita e guardou-se para o confronto de Agosto.

Tudo somado estamos perante um impasse muito similar ao criado pela Coreia do Norte, mas, enquanto Pyongyang prosseguiu um programa nuclear militar clandestino num contexto de escassez extrema de recursos e por exclusiva estratégia de unificação nacional sob a tutela do confucionismo-estalinista da dinastia de Kim Il Sung, o Irão optou, na senda do Xá Pahlevi, por dotar-se de capacidades de dissuasão, ou ofensivas, capazes de garantirem a sua hegemonia regional.

Teerão guarda os trunfos de influência entre os xiitas do Iraque, apesar das reticências de Ali al Sistani, o principal ayatollah iraquiano, mas, sobretudo, joga com as dissenções entre as potências do Conselho de Segurança da ONU para ganhar tempo para o seu programa nuclear.

Quando, a 22 de Agosto, Teerão, a meio termo das negociações sobre a crise libanesa, rejeitar as injunções da ONU e anunciar a prossecução do seu programa nuclear, cavará um fosso entre a Rússia, a China e os demais estados do Conselho de Segurança. Após as primeiras sanções, interditando designadamente transferências de tecnologia com possível uso militar, dificilmente haverá consenso para adoptar medidas que degradem sensivelmente a economia iraniana.

Então, desfeita a quimera de uma vaga de democratização no Médio Oriente que a intervenção no Iraque alegadamente propiciaria, Washington terá de ponderar seriamente a possibilidade de um ataque militar ao Irão.

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