Pascal Mittermaier
Pascal Mittermaier 12 de julho de 2018 às 14:00

Cidades mais verdes, cidades melhores

O debate sobre como "enverdecer" as cidades reconhece, por norma, a importância das infra-estruturas sustentáveis e do planeamento urbanístico inteligente. O que muitas vezes esse debate ignora é que a natureza é a infra-estrutura de raiz do mundo e que as soluções baseadas na natureza podem ajudar as cidades a lidar com alguns dos maiores desafios em matéria de planeamento, como a poluição do ar e da água, escassez de água e calor extremo – todos eles factores que estão agora a ser exacerbados pelas alterações climáticas.

A que deve assemelhar-se uma cidade "verde"? Deverá parecer-se com Copenhaga, com as suas altas taxas de transporte em bicicleta e de reciclagem? Ou com Curitiba, a capital do Estado brasileiro do Paraná, cujo planeamento urbanístico está centrado nos peões? Ou talvez com a capital da Etiópia, Addis Abeba, que é inteiramente alimentada com energias renováveis?

 

Com mais de 50% da população mundial a viver actualmente em áreas urbanas – uma proporção que está a crescer rapidamente –, a resposta a esta pergunta irá moldar o nosso futuro colectivo. Mas poderá ser mais simples do que pensamos: para tornar as cidades "mais verdes" – isto é, menos poluídas, mais eficientes em termos de recursos e mais resilientes do ponto de vista ambiental –, devemos torná-las, literalmente, mais verdes.

 

O debate sobre como "enverdecer" as cidades reconhece, por norma, a importância das infra-estruturas sustentáveis e do planeamento urbanístico inteligente. O que muitas vezes esse debate ignora é que a natureza é a infra-estrutura de raiz do mundo e que as soluções baseadas na natureza podem ajudar as cidades a lidar com alguns dos maiores desafios em matéria de planeamento, como a poluição do ar e da água, escassez de água e calor extremo – todos eles factores que estão agora a ser exacerbados pelas alterações climáticas.

 

Nalguns casos, as soluções baseadas na natureza são pelo menos tão rentáveis como as infra-estruturas construídas de forma convencional, sobretudo porque podem, frequentemente, enfrentar múltiplos desafios ao mesmo tempo. E, tal como o demonstra a plantação de árvores ao longo das ruas, essas soluções não têm de ser complicadas. Existem estudos que demonstram que as árvores de rua podem reduzir a poluição do ar – a maior ameaça para a saúde humana, especialmente nas zonas urbanas, segundo a Organização Mundial da Saúde – ao filtrarem material particulado fino, como o que é emitido pelos motores de combustão interna. São também altamente eficazes no combate ao "efeito da ilha de calor urbano", que pode resultar em temperaturas perigosamente elevadas no Verão.

 

É claro que os benefícios de plantar árvores são altamente localizados. Mas é isso que as torna particularmente eficazes enquanto intervenção específica – funcionando, por exemplo, como uma barreira em estradas movimentadas ou em zonas industriais, ou como protecção de áreas vulneráveis, como escolas e lares de idosos.

 

Além disso, plantar árvores em bairros com populações de baixos rendimentos e com poucos recursos, que normalmente são também quem menos está sob coberto florestal, pode ajudar a mitigar a desigualdade ambiental. É por isso que a minha organização, The Nature Conservancy, está a trabalhar com outras organizações sem fins lucrativos, com líderes comunitários e com investigadores da área da saúde pública em Louisville, no Kentucky, no sentido de plantar mais árvores em zonas com um baixo coberto florestal e de levar a cabo o primeiro teste controlado de árvores como intervenção médica.

 

Um outro grande desafio urbano que a natureza pode ajudar a solucionar diz respeito à gestão das águas. Os materiais que compõem as cidades modernas são sobretudo impermeáveis, pelo que não absorvem a água da chuva. Consequentemente, quando se registam tempestades fortes, o escoamento da água sobrecarrega os sistemas de drenagem, levando a que substâncias contaminantes percorram as ruas das cidades até aos ecossistemas locais.

 

Os jardins de chuva – pequenas bolsas de vegetação nativa plantada em depressões naturais e em pontos baixos – podem solucionar este problema ao recolherem e filtrarem a água da chuva de modo a que esta possa ser reabsorvida pela terra, recarregando os aquíferos e aumentando a biodiversidade. Nas cidades-esponja chinesas, como Shenzhen, os jardins de chuva – a par com os telhados verdes e as zonas húmidas artificiais – estão já a ser usados como forma de gestão das águas das tempestades, auxiliados por materiais de pavimentação permeáveis que permitem que a água seja filtrada pelo substrato.

 

As intervenções naturais além dos limites urbanos podem também ajudar a lidar com os desafios da gestão das águas. Em Nairobi, a intensificação da actividade agrícola na bacia do Alto Tana resultou numa tal acumulação de sedimentos pesados que reduziu os fluxos de água a jusante da cidade. A consequente escassez de água penalizou desproporcionadamente os moradores mais pobres, que se viram muitas vezes obrigados a comprar garrafões de água a preços exorbitantes. A produção de energia hídrica também diminuiu.

 

Actualmente, Nairobi está a colaborar em projectos com os seus vizinhos rurais para usar soluções naturais para os problemas de segurança hídrica na sua origem. Através do Fundo para a Água de Nairobi-Alto Tana, os recursos combinados do governo e das empresas estão a ajudar os agricultores a implementar práticas agrícolas mais sustentáveis, como o uso de culturas de cobertura, o que resulta não só num aumento dos fluxos de água até Nairobi mas também no aumento dos rendimentos agrícolas.

 

Outros fundos para a água que a The Nature Conservancy tem ajudado a desenvolver em todo o mundo revelaram ser igualmente vantajosos. E isto é importante, porque praticamente metade de todas as cidades do mundo sofrem de escassez periódica de água, sendo especialmente vulneráveis as que dependem das águas superficiais.

 

As soluções baseadas na natureza podem não ser suficientes para solucionarem todos os desafios com que uma determinada cidade se confronta. As zonas urbanas também podem necessitar de uma infra-estrutura construída de maneira sustentável e bem concebida para a gestão do ar e da água, bem como sistemas integrados de energias limpas e opções eficientes de transportes públicos para ajudar a reduzir a poluição e as emissões de dióxido de carbono.

 

Mas as soluções baseadas na natureza – se tiverem financiamento suficiente e forem implementadas de forma equitativa – oferecem vantagens que já não podemos dar-nos ao luxo de ignorar. A tecnologia e as infra-estruturas que permitem o florescimento das cidades no passado acarretaram custos elevados, desde a poluição às inundações, passando pela perda de biodiversidade. À medida que as alterações climáticas vão remodelando o nosso planeta, estas ameaças estão a crescer e a mudar, agravando ainda mais os desafios.

 

Não podemos resolver com betão e turbinas os problemas criados pelo betão e pelas turbinas. Precisamos de soluções flexíveis que possam tornar as nossas cidades resilientes, sustentáveis e adaptáveis, sem minarmos o dinamismo urbano e a prosperidade de que dependemos. A própria natureza pode oferecer essas soluções e servir de catalisador para bairros mais saudáveis e mais enérgicos, impulsionando os investimentos e tornando as cidades indubitavelmente mais bem sucedidas.

 

Pascal Mittermaieré director-geral global no departamento das Cidades da The Nature Conservancy.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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