Yuriko Koike
Yuriko Koike 05 de abril de 2016 às 20:30

Os mísseis Pachinko da Coreia do Norte

Há três cenas frequentemente fotografadas por turistas estrangeiros que visitam o Japão.

Uma é a de uma floresta de postes de electricidade; outra são carros num passeio de gondola em áreas de parqueamento mecânico. A terceira é a pachinko.

 

Pachinko é uma espécie de um jogo de pinball com apostas. As pessoas, que fazem fila para enfrentar as máquinas dispostas na vertical, parecem que estão a trabalhar numa fábrica. De acordo com um relatório, há 11,5 milhões de entusiastas do pachinko e o mercado está avaliado em 24,5 biliões de ienes – quase o dobro das vendas da construtora automóvel Toyota no ano passado.  

 

Para os estrangeiros, pachinko é uma cena espalhafatosa – os jogadores, incluindo profissionais que fazem disso o seu meio de subsistência, parecem colados aos seus lugares – e é, por isso, de forma compreensível uma oportunidade fotográfica irresistível. Mas, para o Japão, há um lado escuro da diversão e dos jogos.  

 

Muitos dos 11 mil donos das salas de pachinko são oriundos da península coreana. Alguns deles têm relações com a Coreia do Norte e enviaram montantes substanciais de dinheiro para casa, durante muitos anos. Tais "contributos" para o bem-estar da economia da Coreia do Norte são reconhecidos pelo regime de Pyongyang de acordo com a extensão do seu apoio. Além disso, são dados prémios e, por vezes, estas pessoas são reconhecidas publicamente como patriotas. Nos dias nacionais, como o aniversário do fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung, estes expatriados são quase forçados a contribuir. De facto, podem ser designados para angariar somas de dinheiro grandes o suficiente para cobrir os custos da distribuição alimentar aos norte-coreanos em tais ocasiões.

 

Muitas destas doações são feitas não por amor à dinastia de Kim, mas para comprar a segurança de membros das suas famílias que estão na Coreia do Norte. A ameaça é bem real. Os coreanos que vivem no Japão sabem como a Coreia do Norte pode ser cruel para com os seus próprios cidadãos; com efeito, a Coreia do Norte raptou cidadãos japoneses, muitos dos quais nunca regressaram.

 

Já foi mesmo relatado que caixas de dinheiro são carregadas para o Mangyongbong-92, uma embarcação de passageiros que liga Wonsan, na Coreia do Norte, como Niigata no Mar do Japão. O Mangyongbong-92 já serviu também como meio para traficar bens e pessoas: equipamento altamente tecnológico como partes de computadores e componentes de misseis, acompanhados por espiões norte-coreanos.

 

De facto, é cada vez mais credível que a transferência dos "lucros do pachinko" estão a ser usados para financiar o desenvolvimento de misseis e armas nucleares por parte da Coreia do Norte. Uma das sanções impostas à Coreia do Norte depois do teste nuclear subterrâneo, realizado a 9 de Outubro de 2006, foi a proibição de que todos os navios norte-coreanos, incluindo o Mangyongbong-92, entrem em portos japoneses. Mas a medida chegou um pouco tarde demais. Um sistema de transferências abrangente assegura agora que esses fundos encontrem o seu caminho para o Norte; quando algumas rotas são fechadas, novas são abertas.

 

Entretanto, e como resultado do financiamento e dos componentes altamente tecnológicos produzidos graças ao dinheiro proveniente do pachinko, no Japão, o programa de armamento norte-coreano tornou-se cada vez mais sofisticado. A Coreia do Norte, em primeiro, lançou um míssil balístico de médio alcance, chamado de Nodong, para o Mar do Japão em Maio de 1993. Esse míssil, poderá ter um alcance de 1300 quilómetros, e poderá atingir quase todas as ilhas japonesas. Cinco anos depois, em Agosto de 1998, o Norte lançou o Taepodong-1, um míssil balístico de médio alcance, que pode atingir 1500 quilómetros, sobre o Japão em direcção ao Pacífico, alegando que estavam a testar a capacidade do míssil lançar o satélite Kwangmyongsong-1 para órbita.    

 

Depois, em Julho de 2006, a Coreia do Norte lançou sete mísseis balísticos, incluindo o míssil balístico intercontinental Taepodong-2. O alcance do Taepodong-2, acredita-se, é de aproximadamente seis mil quilómetros, e uma versão improvisada do seu alcance pode chegar aos dez mil quilómetros, indicando uma melhoria de desempenho constante. A Coreia do Norte lançou também mísseis balísticos de curto alcance em Abril e Julho de 2009.

 

Mesmo depois do falecimento de Kim Jong-il em Dezembro de 2011, o seu sucessor como Primeiro Secretário e governante da dinastia, Kim Jong-un, continuou o programa de desenvolvimento de mísseis do pai. De facto, Kim Jong-un parece ter acelerado-o. Vários mísseis foram lançados sob a observação de Kim Jong-un – mísseis que usaram lançadores construídos com meios de transporte móveis. E em Janeiro deste ano, o Norte anunciou que detonou uma bomba de hidrogénio, apesar de muitos especialistas internacionais terem dúvidas disso.

 

A Coreia do Norte, deve ressalvar-se, deu anteriormente conhecimento à China dos seus testes com mísseis, mas não do seu suposto teste com a bomba de hidrogénio, apesar dos contínuos esforços chineses para proteger o regime de Kim Jong-un de sanções internacionais ainda mais duras. Mas o Norte tornou-se tão descarado que a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, que, apesar das suas credenciais conservadoras, tem vindo a aprofundar os laços com a China, decidiu colocar um travão. A presidente ordenou o encerramento da região industrial de Kaesong, uma zona de investimento fronteiriça que estava a modernizar a produção do Norte e que servia como um ponto de contacto com o regime.

 

Park foi ainda mais longe, aumentando as sanções sul coreanas contra o Norte. E agora os Estados Unidos e a China juntaram-se no aprofundamento das sanções, em particular através de uma nova proibição – exportação de combustível – incluindo combustível para jatos.

 

Ainda que abundem as dúvidas sobre o sucesso dos testes a bombas por parte da Coreia do Norte, as melhorias constantes de desempenho dos mísseis do regime são inegáveis. O "jovem marechal" de 33 anos está a brincar com o fogo. Assim, é a altura do Japão, e de outros países, negarem-lhe o financiamento com o qual ele compra os fósforos. 

 

Yuriko Koike, antiga ministra da Defesa e conselheira nacional da Defesa do Japão, foi presidente do conselho geral do Partido Democrático Liberal japonês e é actualmente membro da Câmara Baixa do Parlamento do Japão (Dieta).

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org 
Tradução: Ana Laranjeiro

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