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Patricia Espinosa e Mario Molina 30 de Setembro de 2016 às 20:30

Uma solução ao nosso alcance para o clima

O Protocolo de Montreal foi criado para reparar a camada de ozono, que protege todas as formas de vida no planeta dos letais níveis dos raios ultravioleta. Até agora, tem tido um grande sucesso, com perto de 100 produtos químicos responsáveis pela destruição da camada de ozono eliminados nas últimas três décadas.

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No próximo mês, os signatários do Protocolo de Montreal relativo às Substâncias que Empobrecem a Camada de Ozono, de 1989, vão reunir-se em Kigali, Ruanda, para ponderarem uma emenda ao tratado que irá gradualmente reduzir, até eliminar, o uso de hidrofluorcarbonetos (HFC). Os HFC, que são um dos seis principais gases com efeito de estufa, são habitualmente usados nos sistemas de ar condicionado e de refrigeração em todo o mundo.

 

A emenda ajudaria a reforçar o desenvolvimento sustentável e poderia evitar a libertação de 100 a 200 mil milhões de toneladas de emissões com incidência sobre as alterações climáticas até 2050. Isso seria o suficiente para que o mundo concretizasse um quarto dos objectivos que visam chegar à meta de aquecimento global de 2ºCelsius definida em Dezembro de 2015 no Acordo sobre o Clima assinado em Paris.

 

O Protocolo de Montreal foi criado para reparar a camada de ozono, que protege todas as formas de vida no planeta dos letais níveis dos raios ultravioleta. Até agora, tem tido um grande sucesso, com perto de 100 produtos químicos responsáveis pela destruição da camada de ozono eliminados nas últimas três décadas. A camada de ozono está a sarar e, segundo as mais recentes estimativas, poderá estar totalmente restabelecida em 2065, poupando biliões de dólares de custos globais para a saúde e a agricultura.

 

Grande parte desta melhoria deve-se aos HFC, que são uma excelente solução alternativa aos velhos clorofluorcarbonetos (que são prejudiciais para a camada de ozono e que foram progressivamente suprimidos). No entanto, os HFC, alguns dos quais são 4.000 vezes mais potentes - enquanto gases com efeito de estufa – do que o dióxido de carbono, são um desastre para as alterações cambiais e o seu uso continua a aumentar anualmente em torno de 10%.

 

Faz, então, sentido que nos focalizemos nos HFC ao tomarmos medidas para combater as alterações climáticas. Para começar, reduzi-los pode gerar benefícios económicos, devido às substanciais melhorias em termos de eficiência energética trazidas pelos novos sistemas de ar condicionado e de refrigeração. O simples facto de introduzir progressivamente dispositivos de climatização mais eficazes equivaleria, em termos de emissões, a pôr fora de serviço 2.500 centrais eléctricas de média dimensão em período de ponta centrais eléctricas que produzem durante os períodos de procura elevada, como no Verão).

 

Na China, a transição para fluidos refrigerantes mais ecológicos e o fomento da eficiência energética dos sistemas de ar condicionado e de refrigeração poderá levar a um equivalente em poupança de emissões oito vezes superior à produção da barragem das Três Gargantas. Na Índia, essa transição equivaleria a mais do que duplicar a actual Missão Solar Nacional do governo indiano, que promove a penetração da energia solar bem como a construção de painéis solares nos telhados e novas centrais solares.

 

Muitos países – incluindo a União Europeia e os Estados Unidos, assim como Belize, Burkina Faso, Colômbia, Egipto, Sérvia e Iémen – já reconhecem estes efeitos positivos e estão a tomar medidas para eliminarem gradualmente os HFC. Um sólido consenso sobre os HFC em Kigali traria mais dinamismo a estes esforços e facultaria ajuda financeira aos países em desenvolvimento que querem transitar para novas tecnologias mas que actualmente não têm meios financeiros para tal.

 

No sector privado, gigantes do retalho como a Walmart, Nestlé e Tesco aderiram ao Consumer Goods Forum, uma iniciativa de cooperação no âmbito do clima, e concordaram em eliminar gradualmente os produtos com HFC. As Nações Unidas e a Greenpeace, numa iniciativa denominada "Refrigerants, Naturally!" [Fluidos refrigerantes, naturalmente!], estão a trabalhar no mesmo sentido com a Coca-Cola, Pepsico, Redbull e Unilever.

 

A reunião em Kigali deverá saldar-se num sólido consenso no que diz respeito aos HFC. Contudo, alguns países situados em regiões especialmente quentes do planeta estão bastante preocupados com a possibilidade de as alternativas amigas do ambiente para substituir os actuais sistemas de ar condicionado poderem não funcionar tão bem. Qualquer acordo a que se chegue poderá ter em consideração estes receios, que poderão ser aliviados através de uma dispensa temporária para estes países, enquanto outros seguem em frente com os novos sistemas para demonstrarem a sua eficácia.

 

O aquecimento do planeta está já a ter um impacto devastador sobre algumas das populações mais vulneráveis do mundo e assim continuará a ser com o passar do tempo. Por isso, todos os países terão de encontrar uma forma de avançarem com a redução dos HFC e de combaterem de uma forma geral as alterações climáticas, mediante os planos de acção nacional e de redução das emissões acordados no âmbito do Acordo de Paris, celebrado em Dezembro de 2015. As estruturas definidas por acordos similares, como o Protocolo de Montreal, podem ajudar a concretizar estas metas.

 

Os HFC serão também um tema central na próxima grande conferência da ONU sobre alterações climáticas, COP22, que se realiza em Novembro em Marraquexe (Marrocos). Estamos confiantes que os governos que estão a preparar-se para a reunião em Kigali compreendem a necessidade de uma sólida alteração em matéria de HFC, o que dará dinâmica a outros assuntos em agenda, como os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU que serão debatidos em Marraquexe.

 

Se o mundo quiser ser bem sucedido na redução rápida das emissões globais, de modo a impedir que as alterações climáticas atinjam níveis catastróficos, a redução dos HFC é uma primeira etapa sensível – talvez a mais sensível de todas. 

 

Patricia Espinosa é secretária executiva da Convenção-Quadro da ONU sobre Alterações Climáticas. Mario Molina foi co-laureado em 1995 com o Prémio Nobel da Química pelo seu trabalho sobre gases prejudiciais à camada de ozono.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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